domingo, 25 de junho de 2017

Já!

Henrique vivia naquela pequena cidade do sul de Itália há 22 anos, o que é o mesmo que dizer que ali passara toda a sua existência. Era um rapaz calmo, tão calmo que quase ninguém dava pela sua presença. Vivia sozinho com a mãe desde que Alfredo, o irmão mais velho, tinha morrido na guerra. Como triste recompensa, Henrique herdara os seus óculos e o fato de aviador. Usava-os todos os dias, indiferente aos que o acusavam de louco por ter essa mania – para ele não passava de uma forma de homenagear Alfredo.

Era sonhador. Queria partir para Roma, tornar-se actor de cinema desde que vira o primeiro filme no largo da cidade. Maravilhara-se com as imagens em movimento, com as pessoas transformadas em gigantes no lençol usado como tela improvisada. Ficara por receio, por respeito a sua mãe. Havia outro motivo que o levara a ficar. Um motivo inconfessável, uma paixão a roçar o doentio pela filha de Don Gennaro, o homem mais poderoso da cidade. De noite e de dia, Henrique só via os belíssimos olhos verdes de Sophia à sua frente. Mas, que podia esperar um ajudante de padeiro? Só lhe restava sonhar com ela. No domínio dos sonhos poderia ser feliz – ali não havia ricos nem pobres, Sophia era dele e ele era o homem mais feliz do mundo. Na realidade, porém, havia um muro entre eles. Apenas nos filmes o rapaz pobre pode realizar os seus sonhos, pensava Henrique.

Mas o destino provaria que ele estava errado, mais precisamente naquele preciso instante, estava ele a atender os clientes na padaria. Entra Sophia, glamorosa e simples. Dir-se-ia uma deusa, pensa Henrique, sem perceber, perdido como estava no mundo dos sonhos, que Sophia exigia a sua atenção com um sorriso aberto nos lábios.

– Queria comprar um bolo, para oferecer à minha mãe – disse Sophia. Para Henrique, mais parecia ouvir música, perdido que estava no seu olhar verde.

– E que tipo de bolo prefere a senhora sua mãe?

– Ela gosta de coisas diferentes. Saboroso.

– Só gosta do melhor, presumo. Só assim se justifica ter conseguido pôr no mundo uma princesa. A mais bela das princesas.

Sophia riu. Para Henrique, o tempo parou. Estagnou naquele instante. Gravou na memória a imagem e registou o som do riso para posterior deleite.

– Eu? Está a falar de mim como se eu fosse a mulher mais bonita do mundo. Mas eu sou feia e gorda. E já viu bem os meus dentes? Não têm arranjo possível, senhor padeiro galanteador. Se a minha mãe quer um bolo tão bom como eu, bem que vamos partir os dentes amanhã.

Henrique reconheceu, em segredo, que ela tinha alguma razão. Mas era um homem apaixonado que não conseguia ver os defeitos da mulher amada. Nos dias seguintes, Sophia regressaria. Primeiro, para vir buscar o bolo. Depois, vinha regularmente buscar o pão. Como se não tivesse vinte criadas disponíveis para essa função. Sempre à mesma hora, Sophia entrava pela padaria e esperava que Henrique despachasse eventuais clientes até conseguirem estar a sós na padaria.

Aos Domingos, depois da missa, Henrique arranjava sempre forma de estar com ela e acompanhá-la a casa, longe dos olhares dos pais e irmãos. Ao fim do segundo mês de encontros regulares e beijos roubados no caminho para casa dela, ganhou coragem para falar com Don Gennaro.

– Don Gennaro, venho pedir autorização para namorar a sua filha – disse Henrique.

As pernas tremiam, o estômago andava às voltas. Sentia-se pequeno à frente daquele homem obeso, enorme como um gigante, de olhar vivo que parecia ver o interior do padeiro. Não era difícil adivinhar o estado de espírito de Henrique: notava-se na voz trémula e no gaguejar constante.

– Tu és o Henrique, filho de Helena. O padeiro. Henrique assentiu. Não disse palavra, porque não conseguia falar.

– E o que tens a oferecer à minha filha, ou esperas que ela também suje as mãos com a farinha?

– Eu sou um bom trabalhador. Nunca lhe faltará nada.

Don Gennaro olhou-o de alto a baixo. Henrique sentiu-se uma formiga em frente a um gigante. 

– Diz-me, Henrique. Gostas de jogar? Henrique abanou a cabeça. 

– Não é meu hábito, Don Gennaro.

– Compreendo. Um homem íntegro. Isso tem mais valor que o dinheiro. Mas se o Henrique não gosta de jogar, eu gosto. Para ser franco, é uma falha no meu carácter. Mas os homens podem falhar. Não há ninguém, no mundo, que não tenha nenhuma falha. Só temos de as reconhecer. Todo o homem é cheio de pecado. E todo o homem se pode exceder a ele próprio, não concorda? Henrique acenou com a cabeça, como se tivesse compreendido. Na realidade, estava extremamente confuso.

– Pois se concorda, meu caro Henrique, proponho um jogo. O Henrique tem seis meses para trazer um presente à minha filha. Algo de diferente, que nunca ninguém tenha visto. Se o fizer, ainda vou além do que pediu: dou-lhe a mão dela em casamento e será meu sócio. Farei de si o homem mais rico das redondezas. O que lhe parece?

O padeiro coçou a cabeça. Ao princípio, não quis acreditar, mas o olhar sério do Don Gennaro não dava lugar a dúvidas. Selaram o pacto com o melhor vinho do pai de Sophia e Henrique chegou a cambalear a casa. No dia seguinte explicou à mãe o que se tinha passado. Pediu-lhe uma opinião sobre o que haveria de tão único na cidade que o fizesse ganhar o jogo. Ela olhou para ele com a forma calma com que sempre fizera, mesmo quando o mundo à sua volta parecia desabar.

– Sabes, meu filho, estou a olhar para a coisa mais importante na minha vida, que és tu. Mas Don Gennaro não te vê da mesma forma. Para ele tu vais ser sempre um padeiro, filho de uma vendedora de fruta. Não é aqui que vais encontrar algo que o impressione. Não nesta casa a cair de velha, não nesta cidade pequena, de gente simples. Tens de ir mais longe. Sempre soube que esse era o teu destino. Eu fico bem. Chegou o momento de procurares o teu destino.

Henrique pensou durante algum tempo. Sabia que a mãe tinha razão, mas isso obrigava-o a romper com a promessa que tinha feito a si próprio, a de não deixar a mãe sozinha. Depois olhou em volta, para a miséria em que viviam. Se ganhasse a aposta, seria um homem rico. Não passariam mais necessidades. Por último, lembrou-se do olhar doce de Sophia. Só isso seria recompensa suficiente e, sem pensar duas vezes, despediu-se do patrão, beijou a mãe e fez-se à estrada com o seu fato de aviador e alguma roupa numa mala de cartão.

Regressaria seis meses depois, com algo único para mostrar. Mas, como é que se encontra algo único? Henrique nunca tinha saído da sua terra e tudo o que via era único para ele. Não encontrava nada que pudesse entusiasmar um homem mais vivido como Don Gennaro. Passou por várias terras, conheceu gente, trabalhou duro, de sol a sol, para sustentar a sua viagem. Viu coisas maravilhosas, mas não conseguia ver algo único. Sentia saudades de tudo, da mãe, da terra, da padaria, de Sophia.

Estava quase a desistir quando, ao passar por uma terra muito pequena, vê várias pessoas a aplaudir. Aproximou-se e o que viu deixou-o assombrado: um velho fazia truques com dois javalis. Eles equilibravam bolas em cima do focinho, e andavam atrás do homem como se fossem cães, davam voltas e dançavam enquanto o velho tocava sanfona. Henrique deixou-se ficar até ao final do espectáculo, batendo palmas e rindo até não poder mais.

Apresentou-se a Emílio, um homem de sorriso aberto, de pele queimada pelo sol. Fizera parte de um circo que falira há alguns anos, pelo que ele ficara com os javalis e percorria as terras a fazer espectáculos. Em troca, conseguia apenas o suficiente para todos comerem. Henrique explicou-lhe o motivo da sua busca. Confessou a Emílio que já tinha desistido, mas que o espectáculo dele lhe tinha feito renascer a esperança. Emílio sorriu.

– Acredita no destino, Henrique? – perguntou Emílio.

Henrique respondeu afirmativamente. Sim, começava a acreditar no destino. Emílio confidenciou-lhe então que se sentia cansado e que já não tinha forças para tratar de dois animais, pelo que cederia de bom grado um a Henrique, e que lhe ensinaria os truques, desde que o acompanhasse durante algum tempo na estrada. E assim fizeram. Até completar os seis meses da aposta, Henrique andou na estrada com Emílio e dois javalis fêmea, a Vali e a Já. Combinaram que a Já seria de Henrique, dado que tinham uma maior ligação. Já a Vali não deixava que Henrique se aproximasse demasiado.

Chegou o dia da despedida. Henrique abraçou Emílio e levou a Já pela trela. Na outra mão levava a sua mala, agora mais pesada com os presentes que comprara para a mãe e para Sophia.

Chegou à cidade, cumprimentou a mãe e depois dirigiu-se à casa de Don Gennaro. Este, assim que viu o que Henrique trazia com ele, chamou a esposa e a filha. E Henrique fez o seu espectáculo com a Já. O melhor de sempre, para um público especial. Estava ali a mulher da sua vida, uma vida que prometia ser boa em todos os sentidos. Don Gennaro faria dele um homem rico. No final, Don Gennaro bateu palmas. Sophia não conseguia manter o riso. Depois, a sós, Don Gennaro confidenciou-lhe que podiam marcar o casamento. Sophia sentira a falta de Henrique e isso para o pai dela era prova suficiente. O facto de que rapaz tinha passado 6 meses fora era outra prova de que ele tinha o carácter que procurava no homem que viria a ser seu genro.

Feliz, depois de deixar a Já com o seu novo dono (Henrique só acedeu depois de Don Gennaro lhe ter prometido que iria tratar bem o animal), Henrique regressa a casa para dormir na sua cama pela primeira vez em 6 longos e extenuantes meses. Chegado ao jantar de noivado, Henrique repara na falta da Já, mas as atenções constantes de Sophia não lhe possibilitaram saber o que se tinha passado. Era um dos dias mais importantes da sua vida. Já não seria o padeiro, seria o noivo de Sophia. Estava quase toda a família dela sentada à mesa, havia músicos a tocar no salão. A bebida e a comida eram abundantes. Até a mãe parecia outra, orgulhosa do filho. Henrique lembrar-se-ia para sempre daquele momento. O momento em que, sentado ao lado de Sophia, percebe que a carne saborosa que saboreava era de javali. Sophia percebe imediatamente a revolta de Henrique.

– Foi o meu pai. Ele queria oferecer algo de único aos convidados. Eu fui contra, mas… Henrique levanta-se, fala rapidamente ao ouvido da mãe, que se apressa a levantar-se também. Depois, aproxima-se de Don Gennaro, que observa com um ar espantado e ao mesmo tempo divertido.

– Don Gennaro, por mais que ame desesperadamente a sua filha, não me vendo, muito menos quero pertencer a uma família onde a palavra nada vale.

Saem os dois da casa de Don Gennaro, uma casa subitamente silenciosa. Decidem abandonar também a cidade. Sophia casará, anos mais tarde, com um homem rude que a atraiçoará. Don Gennaro morrerá de um ataque cardíaco fulminante no meio da vinha, servindo de inspiração para o filme de Coppola. Quanto a Henrique, dizem que alguém muito parecido apareceu um dia num dos últimos filmes de Fellini.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O Ouro de Florêncio

A cena passa-se num café de uma pequena terra do interior. Na televisão marcada pelo tempo, vinte e dois homens adultos correm atrás de uma bola. O dono do café olha, desinteressadamente – não é o clube dele, todos sabem. A plateia é composta unicamente por homens, distribuídos de forma uniforme por mesas de aspecto rústico, tão marcadas pelo tempo como a própria televisão. “Parecem fazer parte da mobília”, seria a conclusão que um cliente mais assíduo faria. Eram sempre os mesmos clientes, sentados nas mesmas mesas. Só o jogo mudava. Os berros alteravam o tom consoante as preferências clubísticas. Durante os noventa minutos regulamentares da partida, nada existia no exterior do café, apenas visitado no intervalo para um cigarro – raio de regras que impediam o fumo onde antes o fumo era regra.
A nossa história centra-se em dois homens. Estão sentados em silêncio, como se estivessem na igreja. Nenhum deles tira os olhos da televisão. Florêncio, o mais velho, parece mesmo hipnotizado pelo aparelho, numa ânsia semelhante à que sente um adolescente a jogar numa consola. O outro exibe uma calma serena, só o constante agitar das mãos denota o seu nervosismo.
O jogo chega ao intervalo. Florêncio finalmente respira. O homem que o acompanha levanta-se juntamente com os outros para irem fumar no exterior do café. Florêncio declina o convite. O médico tirara-lhe o tabaco.
O grandecíssimo pulha do médico, pensou, enquanto trincava mais um amendoim. A sua mente, no entanto, divaga para longe. Já não estava naquele café, nem sequer naquela pequena terra. Vivia em Lisboa, num apartamento minúsculo e degradado no Areeiro. O Luís não teria dois anos. Tinha nascido por engano, num cio regado a álcool. Florêncio perfilhara-o de imediato, rebuscando uma honra perdida nos meandros mais esquecidos da sua alma boémia. Vivera com ela dois anos. Demasiado tempo, demasiadas discussões. Ambos bebiam, agora cada um para seu lado, o filho no meio, a berrar por atenção.
Um dia, Florêncio descobre que ela tinha fugido para Badajoz com um tipo qualquer que a iludira como só os homens sabiam iludir. E Florêncio viu-se sozinho, com uma criança nos braços, perfeitamente desesperado. Os amigos do café de então aconselharam-no a arranjar outra mulher, como se o coração fosse um supermercado. Ele abanava a cabeça, argumentando que uma vez chegara. O conselho seguinte, o de deixar o puto numa instituição, é levado mais a sério.
Florêncio revive esse momento quando, já depois de ter combinado tudo com a directora do orfanato, sobe a ladeira com o Luís pela mão. Parece que ainda hoje sente o calor abrasador daquele sol de Junho, a mão minúscula do filho perdida na sua própria mão e o seu incessante interrogatório.
“Onde vamos, papá?”
“Vamos falar com uma senhora.”
“A mamã está lá?”
“Não, a tua mãe ainda está de viagem. Ela já volta.”
A cada pergunta, Florêncio vai perdendo a coragem. Cada passo torna-se mais pesado. O calor coze-lhe a consciência.
“Eu quero jogar à bola contigo, papá. Eu gosto muito de jogar à bola contigo.”
“Depois jogamos, meu filho. Depois.”
“Quando eu for gande, quelo ser jogador de futebol, papá.”
É naquele momento que Florêncio perde a coragem. Senta-se num degrau de uma casa, abraça o filho e chora, sentindo-se profundamente aliviado.
“O que é papá? Estás triste?”
Florêncio abana a cabeça. Não, já não estava triste. Regressa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque, compra ao Luís um gelado dos mais baratos e prepara-se para a luta. Seriam anos de grande desafio.
No café, o intervalo termina, os homens regressam. Florêncio volta a cravar o olhar no televisor. O árbitro apita e a partida recomeça.
O espírito de Florêncio viaja para outros jogos. Luís tem sete anos. Anda nos iniciados do Belenenses. Dizem-lhe que o rapaz tem futuro, que é rápido e ágil. Dizem-lhe que vale ouro. Florêncio sorri. A vida já lhe dera tristezas suficientes para que ele se deixasse levar com promessas vãs. “A ver vamos”, respondia ele, e não se enganava. Aos dez anos o Luís chega a casa com falta de ar. Parecia que a camisa lhe ficara subitamente apertada, estrangulando-o. Florêncio vai com ele ao hospital, onde o encaminham para as consultas de pneumologia.
O diagnóstico da asma e da bronquite deitam por terra o sonho. Luís passa cinco anos a correr para o hospital. O ouro diluiu-se num vazio profundo, numa mágoa silenciosa que Florêncio rapidamente exorciza.
O ruído acorda-o. Regressa à actualidade. No café as pessoas manifestam-se aos berros.
Golo!
O seu companheiro de mesa bate-lhe no braço, eufórico.
Nelson Silva tinha marcado um golo. Florêncio atentou na repetição. O guarda-redes adianta a bola, o central faz um balão, o Nelson domina a bola com o peito e sem a deixar cair ao chão enfia-a no fundo da baliza como se de um petardo se tratasse. Florêncio levanta-se num salto, aos berros, quando já toda a gente tinha acabado de celebrar – mesmo as pessoas que torcem pela equipa contrária.
– O teu neto vale ouro, pai – comentou o seu companheiro de mesa.
– Eu sei, Luís. – responde Florêncio, com uma lágrima a escapar-lhe do olho.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Livre!


A voz encheu de cor o quarto branco. Ao som dela, a pequena Filomena corria pelos caminhos graníticos da aldeia. Os adultos diziam que mais parecia voar, endiabrada como era seu hábito. Em vez de pés, Deus tinha-lhe dado asas e um sorriso matreiro com o qual desafiava tudo e todos. Gostava particularmente de subir às árvores, à cata de ninhos. Depois, equilibrava-se num ramo como se de uma gata se tratasse e ficava horas a ver as crias. Nunca lhe passaria pela cabeça destruir os ninhos, como os rapazes gostavam de fazer, nem sequer de matar sapos e caçar salamandras. Filomena gostava de pássaros. Sabia-lhes o nome, imitava-lhes o som, sonhava ser um melro. Ou um pintassilgo, ou um simples pardal. Algo que tivesse asas. 

A voz muda, conta outra história. Filomena conhece António no baile da aldeia vizinha. Sente o coração aos saltos, a cara vermelha. Queria ter ali uma árvore onde se esconder, como fazia na infância. Mas na vida nem sempre temos onde nos esconder, e o olhar de António procurava-lhe o corpo com uma atenção que Filomena nunca suspeitara poder causar. No momento da primeira dança, Filomena descobre nos braços de António as asas que sempre sonhara ter. Recorda o momento como se tivesse sido ontem – mas o tempo não tem tempo para parar e tudo corrompe à sua passagem. Filomena  cresce à medida que aqueles que ama desaparecem. Os sonhos, esses, avolumam-se como se avolumou a sua barriga. Em Lisboa nasce Ricardo, depois Sónia e por fim Luis, aquele que acabaria por morrer ao fim de nove dias. Deus assim quis, Filomena resigna-se à sua sorte e refugia-se no sorriso dos filhos, tão matreiro como era o seu próprio sorriso na idade deles. Eles já não sobem às árvores nem procuram ninhos. São animais de cidade. Os tempos são outros, dizem. 

A voz pára um instante, ouve-se um telefone e uma conversa rápida, em voz baixa. Depois, a leitura é recomeçada. As palavras ecoam no quarto e transportam de novo Filomena para o seu pequeno mundo onde Ricardo está doente. António estava em França, a trabalhar. Não tem notícias dele há meses. O coração endurece, torna-se pedra. Filomena desdobra-se em esforços para criar, sozinha, a sua família. Recebe a notícia sem surpresa – António tinha já outra mulher e avizinhava-se um filho. Nesse dia, Filomena assume um estado cadavérico, mas resiste entregar-se ao aconchego do álcool, lutando com todas as suas forças. Por fim, é de novo a criança que corre endiabrada entre empregos e sobe as escadas dos prédios que limpa como se estes fossem árvores. Observa à distância a felicidade dos patrões como antes fazia com os ninhos. Os sonhos regressam, não para ela, mas para os filhos. A vida renasce neles. Tem de lutar por isso, contra tudo e contra todos. O seu maior inimigo é a solidão que sente todas as noites, a força nasce e renasce de dia no olhar dos filhos. 

É através desse olhar que Filomena vê agora o tempo passar.

A voz interrompe novamente a leitura. O quarto enche-se de silêncios. Ao longe, a televisão debita uma novela. Lá fora ouve-se uma ambulância. Filomena lembra-se de ter andado numa, quando o filho partira um braço a andar de bicicleta. Reconfortara-o como pôde e sabia. Contara-lhe histórias de antigamente, de quando ela própria partira um braço ao cair de um ramo. Nunca mais tivera força para subir. Mas a vida ensinara-lhe uma lição: se não podia trepar, podia sempre usar uma escada. Parada é que não chegava a lado nenhum. 

E a vida não parou. Aos poucos, o tempo deixara-a ainda mais sozinha. Quando chegou o momento, os filhos levantaram asas e saíram do ninho. Filomena olhou então para as mãos vazias, sem nada para fazer, e começou a pensar na vida. Pela primeira vez era absolutamente livre, sem o controlo dos pais, nem do marido, nem mesmo dos filhos. Era uma liberdade estranha, castrada à nascença. A pequena casa tornara-se apenas isso: quatro paredes sem vida. E o cadáver que era Filomena desde que António a abandonara, falecera novamente quando os filhos partiram. Renasceria no primeiro vislumbre dos netos. 

Inês pára de ler, Filomena sabe que é a neta, mesmo que já não lhe consiga ver a cara da mesma forma. É uma mulher casada, à espera do primeiro filho. Todos os dias se senta ao lado de Filomena e lê um livro infantil à avó, o mesmo que esta lhe lera na infância entrecortada entre a casa dos pais e da “Vó Mena”.  O que interessa a Filomena é saber que ela ali está. Inês aproxima-se, segura-lhe a mão fina e engelhada. Dá-lhe um beijo na face da avó. A voz de Inês transporta-a para os tempos em que a doença ainda não a prendera àquela cama, incapaz sequer de falar. 

E tinha ainda tanto para dizer. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Máquina do Passado


Abril de 1910. Fernando Sepúlveda chega a Paris, usando um nome falso e com a missão secreta de encontrar Monsieur Henri F., cientista relativamente desconhecido e que há muito se retirara da vida pública. Fernando demora exactamente 3 dias para o encontrar, numa pequena povoação nos arredores de Paris, num palacete em ruínas que usa para as suas experiências. É um homem de baixa estatura, careca, que veste um casacão negro de aspecto austero. Aqui e ali, Fernando repara que o mesmo casacão tem buracos, que pareciam ter sido feitos por ratos, mas não era esse tipo de curiosidade que o levava até ali.
- Bom dia. Chamo-me Fernando Sepúlveda. – diz Fernando num francês impecável.
Monsieur Henri olhou demoradamente para ele, desconfiado.
- Vá-se embora. Não costumo receber ninguém.
O cientista fecha a porta na cara de Fernando. Este não se move. Bate novamente na porta, usando a bengala de prata. Pressente Monsieur Henri do outro lado da porta.
- Venho da parte de Gonçalo Paes. – berra Fernando.
O nome surte o efeito desejado, a porta abre-se e Fernando entra, fechando a porta por trás de si.
- O meu tempo é precioso, Monsieur Fernando.
- Não o tomarei mais do que o necessário. Preciso dos seus serviços.
- Todos precisam, hoje em dia. Antigamente, as pessoas recorriam aos bruxos para lhes resolver os problemas. Agora, recorrem aos cientistas. O que pretende, ao certo, Monsieur Fernando?
Fernando tinha feito uma viagem longa para ali chegar. Depois, tinha sido a angustiante procura. Agora que chegava ao fim, ele não sabia como fazer o pedido que o tinha trazido até ali.
- Preciso que o senhor me transporte….
Henry explodiu numa gargalhada desagradável. Da sua boca libertava um cheiro a morto.
- Eu não sou uma empresa de transportes. Deve procurar na estação de comboios ou no porto, se preferir um navio.
Fernando Sepúlveda sorriu. 
- Na realidade, Monsieur Henri, precisava que o senhor me transportasse para aqui mesmo, de forma a poder apanhar o Sud Express para Lisboa em Janeiro de 1908.
Nova gargalhada de Henry.
- Mas… se não é possível viajar no tempo, meu caro senhor. Não é possível. Se Gonçalo Paes o levou a crer que era possível, é a ele que tem de pedir satisfações.
- Ele sabe que o senhor consegue fazer isso, e ele disse-me que o senhor iria dizer isso, exactamente com as palavras que acabou de usar. Estou disposto a pagar.
Fernando abre o saco e atira uma bolsa com moedas para cima da mesa. A bolsa abre-se e as moedas de ouro espalham-se. Ele pôde ler a lascívia no olhar de Henri.
- Sim, pode pagar. Mas não é só o dinheiro que importa. Será corajoso o suficiente para experimentar algo que lhe pode custar a vida, Monsieur Fernando Sepúlveda?
Fernando confirmou. Henry apanhou o dinheiro e mandou-o esperar numa sala cheia de lixo e de peças de máquinas. Esperou durante uma hora, impaciente. Reviu mentalmente tudo o que tinha de fazer, por mais insano que lhe parecesse. Gonçalo Paes tinha-lhe dado instruções precisas e ele não pensava sequer que conseguiria chegar até ali, até àquela casa, a falar com semelhante pessoa. Mas era importante voltar atrás, desfazer os acontecimentos.
Henry voltou acompanhado por uma mulher, bastante mais alta do que ele. O que nela impressionou mais Fernando, no entanto, não foi a sua altura, mas a cara coberta de cicatrizes e o olhar vazio.
- Não se preocupe, Sr. Sepúlveda. Ela não morde. E sim. Frankenstein existiu, o maior génio que alguma vez viveu nesta terra. Não era esse o seu nome, e viveu uma vida extremamente longa – o suficiente para me ter como seu aluno. Eva é minha assistente. Venha. Não podemos perder o alinhamento da Lua.
Fernando seguiu-os pelos corredores da mansão, se é que lhe pudesse chamar de isso – dir-se-ia que, a qualquer momento, tudo ruiria num patético amontoado de pedras e ferro-velho. Ele esperava estar longe quando isso acontecesse.
Chegaram a uma sala grande. Eva accionou uma alavanca e o tecto abriu-se, mostrando um alinhamento quase perfeito com a lua. No centro da sala estava uma tina de vidro com um líquido azul. À volta, quatro torres que emitiam chispas de electricidade.
- Apresento-lhe a minha Máquina do Passado. Nela apenas podemos viajar até um ponto do passado mais próximo, desde que esta máquina esteja funcional nessa altura. Não pode, por exemplo, recuar até ao nascimento de Cristo e passear-se por lá. Recuar até 1908 é, no entanto, perfeitamente possível. Posso indagar o seu propósito?
Fernando abanou a cabeça. Estava a pagar – já era suficiente. Os propósitos eram com ele.
- Percebo. No entanto, devo alertá-lo para os perigos da alteração de acontecimentos passados. Esses podem ter resultados catastróficos no futuro.
- Pode estar descansado. Pretendo apenas prevenir uma catástrofe que se deu no passado. Tudo o que desencadear será sempre melhor.
Henri encolheu os ombros e mandou-o despir-se. Fernando fê-lo a contragosto. Não lhe agradava ficar nu à frente de estranhos, muito menos de duas personagens tão soturnas.
- Um último aviso: não poderá dirigir a palavra a ninguém nesta casa, caso contrário a sua vida poderá correr sérios riscos.  
 Fernando encolheu os ombros, aceitando as regras. Henri pintou então o corpo de Fernando com uma tinta vermelha, enquanto Eva guardava, com as suas enormes e horríveis mãos, os pertences de Fernando num saco de material impermeável. Depois atirou o saco para o meio da tina de vidro, derramando algum líquido azul para o chão. Fernando já há muito tempo tinha desistido de protestar. Até mesmo quando o mergulharam no líquido e o mandaram suster a respiração. A tina começou a rodar, a máquina envolveu-se num clarão de electricidade no momento exacto em que a Lua estava precisamente por cima.
Tudo parou de repente. O barulho, o movimento. Fernando lançou-se para o exterior, quase sem fôlego, ajudado por mãos hábeis. Quando recuperou o suficiente, Fernando percebeu tratar-se de Eva. Não a Eva que tinha conhecido, desfigurada, mas uma rapariga extremamente alta e bonita – a Eva antes de ter acontecido o que quer que tivesse acontecido e que a tinha transformado num monstro. Fernando percebeu a razão do pedido de manter silêncio, mas esteve a um ponto de quebrar a promessa e implorar à rapariga para fugir daquele lugar.
Henri entrou de imediato. Reconheceu as marcas vermelhas desenhadas no corpo de Fernando que mais não eram senão uma mensagem para ele próprio. Fernando foi prontamente expulso da mansão, sem trocarem uma única palavra.

Regressado a Paris, Fernando compra o jornal. Verifica que não tem muito tempo. D. Carlos I seria assassinado em Lisboa dentro de poucos dias. Era imperioso impedir esse acontecimento: ditava-lhe a honra e tinha sido essa a ideia desde que Gonçalo Paes lhe tinha falado do cientista alucinado que vivia nos arredores de Paris. Tomou o Sud-Express para Lisboa, que demorava duas noites até chegar à Capital. Encontrou-a em polvorosa, a um passo da guerra civil. Apressou-se a tomar o comboio para Vila Viçosa, onde se encontrava o Rei D. Carlos I, admirado pelos seus congéneres e cognominado de O Diplomata.
Foi a custo que Fernando conseguiu uma audiência privada com D. Carlos. Declarou-se amante da arte da caça e isso serviu de pretexto, numa conversa leve, regada com Porto. Só depois Fernando começou a explicar o que sabia. D. Carlos e D. Filipe seriam assassinados dois dias depois, a 1 de Fevereiro. D. Carlos sorri com a certeza de estar a falar com um homem louco.
- Eu não me vou esconder, Senhor Sepúlveda. Nunca me escondi de nada na vida, não pretendo começar agora. Deus nosso senhor providenciará a minha protecção, se assim for o Seu desígnio.
Audiência terminada, Fernando sentia que o seu objectivo estava cumprido. O Rei estava avisado. A história seria diferente. De qualquer forma, decidiu tomar providências para que não chegasse ao seu destino. Pagou a dois bandidos para que fizessem o comboio descarrilar – deveria causar apenas danos materiais, sem causar perigo às suas vidas. Entretanto, já Fernando regressava a Lisboa com outros planos na cabeça.

1 de Fevereiro de 1908. O Rei antecipa o seu regresso, depois de ter conhecimento da situação complicada que se vive na Capital. Regressa de comboio com a Rainha D. Amélia. A meio do percurso, em Casa Branca, o comboio sofre um descarrilamento que provoca apenas o atraso de uma hora na sua chegada ao Barreiro. A comitiva toma então o vapor D.Luís.
Fernando Sepúlveda ouve a novidade da chegada próxima do Rei. Para si não é novidade – sabe o que se vai seguir. Aguarda escondido, no Terreiro do Paço, com uma espingarda escondida por baixo do casaco. Esperava atingir Manuel Buíça, o primeiro atirador, antes que este conseguisse ter sorte com os dois tiros com que atingiria D. Carlos. Durante as últimas horas tentara encontrá-lo na cidade. Fernando tinha o rosto dele gravado na memória.
Ao longe, vê o vapor a chegar. Não demoraria muito tempo até que a carruagem aberta aparecesse. Fernando vê que o seu esforço foi em vão: a guarda que ele esperara ter sido reforçada era, na mesma, insuficiente – resumia-se a quatro batedores protocolares e um oficial a cavalo. Fernando reconheceu um deles. Era ele próprio, dois anos antes. O remorso de não ter conseguido impedir o assassinato tinha-o corroído por dentro. Saíra do exército, percorrera o mundo. Conhecera Gonçalo Paes, que procurava a pessoa certa para viajar no tempo. A escolha tinha sido Fernando, que agora reconhecia a sua derrota: restava ele. Observou a movimentação das pessoas. Alguns curiosos queriam ver a família Real, no meio deles, um grupo de homens mostrava, nos seus gestos estudados, outro propósito. Fernando viu-o, por fim. Manuel Buíça. Fernando aponta-lhe a espingarda. Faz pontaria. Os batedores abrem caminho, indiferentes aos acontecimentos que iriam ter lugar. O batedor Fernando, no seu uniforme impecável, afasta umas mulheres, mais entusiastas. A carruagem passa. D. Carlos acena, D. Amélia bem-disposta, como era seu hábito. Carregava um ramo de flores com o qual, dentro de momentos, defenderia dos atacantes o corpo do filho e do marido.
Fernando espera. Sabe perfeitamente o que se vai passar. Buíça coloca-se por trás da carrruagem, assenta o joelho no chão e faz pontaria com a espingarda. Fernando tem-no debaixo da sua mira, vai carregar no gatilho, mas não consegue: uma dor atroz percorre-lhe o corpo, os músculos não respondem, ele cai no chão como se fosse uma tábua. Ouve tiros e gritos. Fernando reconhece o seu fracasso. Todo o esforço e preparação tinham sido em vão. Concentra agora a sua atenção no vulto que tem à sua frente, empunhando uma estranha arma na mão, da qual pendem dois cabos finos, ligados a dois espigões que ele sente ainda espetados no seu corpo, a queimar-lhe a pele.
Fernando quer falar, mas não consegue. Não tem controlo do corpo – não consegue impedir que o desconhecido o enfie num saco e o leve com ele, protegido pela agitação do momento e o escuro da noite.
               
                O corpo de Fernando foi deitado na cama da pensão. Recupera, lentamente, a liberdade de movimentos, mas ainda não consegue falar. O desconhecido ainda está ali, à sua frente.
                - O Fernando pergunta-se, neste momento, quem sou e por que fiz o que acabei de fazer. Pois bem: venho do futuro, tal como o senhor. De um futuro muito mais distante, no qual as consequências do seu acto provocarão alterações drásticas, não só em Portugal, como no resto da Europa. Depois de muito procurar, consegui encontrá-lo e impedi-lo. Nunca mais me voltará a ver, e escusa de tentar voltar a encontrar Henri. Está morto, bem como a sua assistente. Ah… e a Máquina do Passado foi destruída, para o bem de todos.
                O desconhecido saiu, mantendo a porta aberta. Quando conseguiu, Fernando Sepúlveda pôs-se de pé, saiu do quarto num passo apressado e nunca mais ninguém o viu.

Nota do autor:
Embora este conto seja ficcional, continua por explicar o descarrilamento do comboio em Casa Branca.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Caçador de Dragões

No meio de mais uma crise existencial, eis que um anúncio no jornal muda tudo na vida de um homem. Senhores e senhoras, esta é a fabulosa história de um contabilista que não queria continuar a contar o deve e o haver da vida dos outros. Fartou-se de entregar o Iva, o IRS e a porra do IMI. Deixou de ter paciência para lidar com websites temperamentais e com a bipolaridade dos clientes. Decidiu mudar de vida. Queria dedicar-se a qualquer coisa, não importava o quê. Até podia ir para calceteiro marítimo, se isso tivesse futuro. Mas não precisava procurar mais – encontrara a resposta naquele jornal, num rectângulo de 6x4 cm onde podia ler, a letras garrafais: “Não perca mais tempo. Aqui está a oportunidade para se tornar num caçador de dragões. Oferta limitada. Profissão de futuro com todas as regalias. Ligue … “
Ele leu o anúncio duas e três vezes. Quem é que poderia querer embarcar em semelhante insanidade? Dragões? Não existiam dragões, pensou ele. Eram invenções, mitos como quaisquer outros. No entanto…
Há sempre um “no entanto”. 
O anúncio teve o condão de fazer recordar ao homem os tempos recuados nos quais acreditava em dragões e até inventava histórias sobre eles. Isso tinha acontecido muito tempo antes de se dedicar à Contabilidade. Poder-se-ia dizer, até, que a Contabilidade tinha matado os dragões. Qual São Jorge, qual quê… um Balanço ou uma Demonstração de Resultados dava cabo de qualquer dragão. 
O problema é que ele tinha sido mais feliz quando ainda acreditava nos bichos. Os números tinham deixado de lhe interessar. Quando deu por ela, já tinha agarrado o telemóvel e digitava os dígitos do único número que o motivava – o número do telefone que estava no anúncio. 
“Que insanidade”, pensou, abanando a cabeça. Estava em frente ao sítio combinado. Uma casa antiga, na parte antiga da cidade. Um prédio abandonado, quase em ruínas. Esteve a um ponto de virar as contas e regressar para a sua vida. Uma voz forte chamou-o. 
- Jorge!
Era um homem alto, de aspecto alucinado e aparentando ter saído do 3º Livro do Harry Potter. Jorge cumprimentou-o, sem conseguir esconder o medo. 
- Sou Cornélio. 
- Prazer em conhecê-lo. Vim para o curso. Já chegaram todos os formandos? 
Cornélio sorriu. 
- Que outros formandos, Jorge? O senhor vai ter o privilégio de uma formação exclusiva. 
Jorge não sabia como reagir a essa revelação. A formação era exclusiva porque ele era o único maluco a querer pagar para caçar criaturas imaginárias. 
- E existem dragões, Sr. Cornélio? 
- Claro que sim. Duvida? 
- Eu nunca vi. 
- Ah! Só acredita vendo. Diga-me, Jorge, acredita na existência de Calisto? 
- Não sei o que é.
- É uma lua de Jupiter. 
- Ah, sim. Acredito. 
- Mas nunca a viu. 
- Não. 
- Portanto, está disposto a acreditar num pedaço de rocha que flutua no espaço a muitos milhões de quilómetros e que nunca viu, do que acreditar em dragões que vivem entre nós. 
- Vivem? 
- Claro. Não estaríamos aqui, de outra forma. 
- Mas eu continuo a não acreditar. 
- Nesse caso, porque veio?
- Vim porque quero mudar a minha vida. 
- E quer sair da monotonia matando animais que não acredita existirem?
- O curso já está pago. Fiz a transferência. 
- Eu sei. Recebi a notificação por SMS. Quer, então, continuar com o curso? 
- Claro. 
- Comecemos, então. 

Jorge passou dois dias a treinar a pontaria e a usar maquinaria estranha, que parecia ser usada para apanhar pássaros. Pássaros grandes, com tendência para a piromania. No final, foi um Jorge extremamente cansado que regressou para casa. Cornélio dera-lhe provas suficientes de ser um maluco que merecia estar institucionalizado. Jorge, pelo simples facto de ter feito o curso, achava que não era muito diferente de Cornélio – ainda não estava suficientemente insano a ponto de extorquir dinheiro a idiotas. Abanou a cabeça, dando-se por vencido e preparando-se para regressar à Contabilidade. Depois, tirou a chave e abriu a porta. No vidro da porta pareceu-lhe ver, por breves instantes, uma sombra com a forma de um dragão.  

O ex-caçador de dragões, que agora se dedicava apenas a contar o dinheiro dos outros, calhou um dia olhar pela janela. Morava no 10º andar de um prédio sem nada de especial que não fosse o facto dele ali morar e das constantes avarias do elevador. Dali conseguia ver a rua, onde as pessoas se dedicavam às suas vidas, estranhamente parecidas com formigas atarefadas, e carros que transportavam outras formigas, eventualmente mais selectas mas igualmente atarefadas. 
O prédio da frente era exactamente igual ao prédio onde ele vivia. Nada tinha de especial que não fosse o facto dela morar ali. Ele conhecia-a apenas de vista. Mudara-se para ali no ano passado. Não era especialmente bonita, mas algo prendera a atenção do ex-caçador de dragões. Teria sido amor à primeira vista. Não: tinha sido à segunda vista. À primeira vista, o ex-caçador de dragões viu apenas uma rapariga pequena e forte, que escondia uns olhos estranhamente bonitos por trás de uns óculos com lentes de fundo de garrafa. 
Adiante: calhou a Jorge olhar pela janela e o que viu encheu-o de terror. Na cobertura do edifício viu um dragão, de asas abertas. Um monstro lindíssimo, cuja pele brilhava ao sol do meio-dia. Jorge olhou em volta. Parecia que apenas ele podia ver o dragão. Pegou no telemóvel. As mãos tremiam enquanto marcava o número de Cornélio, o seu formador de luta contra dragões. Ele demorou a atender. 
- Estou?
- Sou eu, Jorge. Há um dragão no topo do edifício da frente. 
- Ah… percebi. Tem o seu kit anti-dragões?
Jorge olhou para um embrulho grande, encostado à parede. 
- Sim. Chegou hoje. 
- Óptimo. Use-o. 
E Cornélio desligou. Jorge engoliu em seco (insultando em silêncio Cornélio) e contabilizou as suas opções. Curiosamente, nem sequer considerou a hipótese de ligar às autoridades. Não: aquela era a sua luta. Desembrulhou o kit anti-dragões. Do meio do papel tirou uma espada e um escudo ridículo, ambas as coisas com a inscrição “Recordação da EuroDisney, produto da República Popular da China”.
Assim armado, Jorge saiu para a rua, indiferente às pessoas que não estariam habituadas a ver um caçador de dragões em plena actividade. Esperava que a porta da rua do prédio da frente estivesse fechada, mas não. Ele entrou sem qualquer dificuldade. Depois, chamou o elevador. Uma senhora passou por ele, carregada com compras. Jorge sorriu. 
- Está avariado. – informou a senhora, com o ar simples de quem vê caçadores de dragões todos os dias. 
Jorge agradeceu a informação e começou a subir as escadas. Seriam, pelos seus cálculos, treze andares. A caixa de escadas era escura. Os degraus estranhamente irregulares. A ele, nada disso importava. Tinha de salvar a sua dama. Com ela no pensamento, redobrou o passo, caindo duas vezes seguidas. Cada vez se sentia mais pesado. O escudo parecia ficar cada vez mais pequeno, até que o atirou ao chão. Tinha ficado do tamanho de um prato. A espada, do tamanho de uma agulha, as roupas apertadas, a visão turva. 
Cornélio já o tinha avisado. Tinha de ser forte. A magia dos dragões era poderosa. Jorge, no entanto, desconhecia o facto de estar a ser afectado por uma magia ainda mais poderosa do que a dos dragões. Uma magia antiga, forjada na origem dos tempos. 
Quando Jorge chegou ao topo da escada, mal cabia no corredor. Abriu a porta (estranhamente transformada num portão de ferro, como aqueles que existiam nos castelos antigos – aliás todo o prédio se tinha transformado num castelo. Minto: todo o prédio se tinha transformado numa torre, de onde Jorge conseguia ver toda a cidade, perfeitamente indiferente à sua luta). 
Ele ali estava. O dragão. Imenso, com asas abertas. Os seus olhos fitavam Jorge. 
Mas Jorge já não era Jorge, nem contabilista, nem caçador de dragões. Jorge tinha-se transformado, ele próprio em dragão. Olhou para as suas garras, para a sua pele prateada e para as asas. Admirou-se pela normalidade com que aceitou essa mudança. Reconheceu no dragão que tinha pela frente a sua amada. Ilda, era o seu nome. Não precisaram de palavras. Limitaram-se a levantar voo, com a certeza de que ninguém iria dar pela falta deles.

FIM





quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Jogo

Nem frio, nem calor, apenas o sol suficiente para aquecer o corpo no parque e esquecer o longo inverno e uma primavera mais húmida do que me consigo lembrar – mesmo que a memória já não seja a mesma há muitos anos. Nestes dias, a rotina era sempre a mesma, depois do almoço vínhamos para ali, ocupávamos um lugar numa das mesas em cujo tampo alguém teve o discernimento suficiente para pintar um tabuleiro, talvez até tenha sido eu. Não creio. Pego no saco das pedras redondas e coloco-as no tabuleiro. Doze peças pretas e doze peças brancas, todas iguais, de marfinite gasta pelo tempo. Disponho-as para começar uma partida de damas.

Ele chegará, lento e cambaleante, cigarro na boca. O cheiro a tabaco denuncia-o sempre. Senta-se na cadeira da frente e começa a jogar. Não diz uma palavra. Trinta anos de amizade e dez na reforma não deixam muitos assuntos pendentes. Ganha-me frequentemente. Ou deixo-o ganhar, já não sei. O resultado não interessa, apenas o tempo que é passado para que resulte.

Ele chegaria, lento e cambaleante, cigarro na boca. O cheiro a tabaco já não o denuncia. Repousa agora na sua última morada. Deixou-me ganhar naquela que era a nossa maior competição: viverei mais tempo do que ele. Essa vitória sabe-me mal, tal como me sabia mal o cheiro do seu tabaco.

Jogo agora sozinho. Imagino-me a jogar com ele. Repetidamente. Ganho-me e perco-me. Não interessa. Dentro de pouco tempo até o calor do sol me deixará de interessar.

Faço o último movimento. Como uma pedra no jogo. Com raiva. A pedra comida desliza para fora da mesa e cai ao chão de erva rala. Inclino-me para a apanhar, uma aventura na minha idade. Sinto todas as articulações do meu corpo a estalar. Estico o braço, a mão esbranquiçada e manchada quase que chega à pedra, mas outra mão mais jovem antecipa-se e apanha-a.

O rapaz não tinha mais de nove anos. Já o tinha visto por ali, sempre na companhia da irmã mais velha que se sentava a ler num dos bancos mais afastados. Na mão trazia uma consola de jogos, uma daquelas coisas que lhe ocupavam sempre a atenção, em vez de estar a jogar à bola com os amigos. Talvez, como eu, não tivesse amigos. A solidão não era um exclusivo da velhice.

“Acabou a bateria”, queixou-se ele. Eu sorrio: “O meu jogo não precisa de pilhas. Queres que te ensine?”

O rapaz olhou com estranheza para as pedras durante algum tempo e depois aceita, sentando-se no banco que era do meu amigo. Apetece-me avisá-lo dos malefícios do tabaco, mas ainda é muito cedo para isso…

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Publicado a 1 de Maio de 2013 no Blogue Evoluir

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Filho da mãe

Há muito tempo que não escrevo. Demasiado, na minha opinião. Faltava-me um tema e a paz de espírito suficiente para o desenvolver. Ainda não tenho nem tema, nem paz, mas vamos ver como sai. Vai ser uma fábula. Os personagens, animais comuns que podemos ver em qualquer sítio. Não falam. Sempre me pareceram idiotas as histórias nas quais os animais falam só para que nós os percebamos. Nada pode ser estar mais longe da realidade: os animais não precisam falar, nunca precisaram. Entendem-se mesmo sem palavras. Nós somos o contrário: por vezes, nem com palavras lá vamos.

Adiante: era uma vez (  ) uma gata. Grande e balofa. Habituada ao sofá lá de casa, raras vezes se aventurando ao quintal. De vez em quando, mas muito de vez em quando, ela lá ia dar o seu passeio, inspeccionando todos os recantos. Por vezes cruzava-se com um pequeno rato que ela sabia que vivia num buraco do muro. Mas como dava muito trabalho apanhá-lo, deixava-o estar, ainda que ele passasse mesmo por baixo do seu felpudo focinho de gata mimada - o que ela queria era sopas e descanso. Mais descanso do que sopas. Estão a ver?

E eu observava-a da janela, rindo em silêncio da sua pose aristocrática. Eis que um dia apareceu no quintal um pássaro. Um melro, talvez. Dormia na macieira que tinha plantado lá nos fundos e que nunca se tinha atrevido a dar fruto (outra preguiçosa como a minha gata, portanto). O passatempo dele, depois de ter perdido o medo à gata, era implicar com ela, colocando-se no seu caminho, aos saltos, e voando assim que ela mostrava alguma tenção de saltar. Ficavam nisto algum tempo, até um dos dois se cansar.

A brincadeira acabou num sábado de tarde. Eu estava a ver. O melro saltou para o chão, mesmo à frente dela. Depois deu um salto para trás. A gata perseguiu-o num passo lento, de rainha cansada. O melro deu outro salto e foi nesse momento que duas garras afiadas se lhe cravaram no corpo. Um outro gato, sorrateiro, mais pequeno e ágil, tinha estado à espera do pássaro. Depois, pegou no corpo já sem vida do melro e, numa atitude de respeito de filho para a mãe - que o era - , foi depositá-lo à frente da minha gata, que se banqueteou com ele.

Moral da história: não brinques com o destino, que há muito filho da mãe que quer aproveitar-se disso...