quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

O menino que desligou o Natal





Era Natal. A azáfama na cidade aumentou. Eram filas e filas de carros para o único shopping, as luzes de Natal acendiam-se, chamando um mar de gente que parecia nunca antes ter visto uma lâmpada acesa. No meio da confusão, ninguém parecia ter dado conta da pequena criança que passeava sozinha na rua. Quando tentaram finalmente abordá-la, para saber se estava perdido, o rapaz nada disse, continuando o seu caminho errante pelas ruas. 
Era Natal. Época de comprar presentes e das típicas músicas natalícias. Naquela terra, a Mariah Carey começava a ouvir-se em outubro, preparando os ouvidos para o coro de Santo Amaro de Oeiras, que desejava a todos um bom natal desde 2005. Mesmo assim, andavam todos enfiados nas suas vidinhas, pouco se importando com o vizinho do lado. Ninguém falava com ninguém, poucos cumprimentavam. Não havia sorrisos, nem gestos solidários de qualquer espécie. Todos se interrogavam sobre as misteriosas avarias nas luzes, todos se culpavam uns aos outros e o ambiente tornava-se tudo menos natalício. 
Ninguém reparava no rapaz e na coincidência das luzes se apagarem à sua passagem. Apenas uma menina se apercebeu de que apenas as luzes do presépio ficavam sempre acesas. Num ato de assombro, perguntou ao menino se podia acompanhá-lo. Ele manteve o silêncio, mas deu a entender com um sorriso de que era bem-vinda. Juntos percorreram a cidade e, por onde quer que passassem, as luzes apagavam-se, até mesmo as das casas e do próprio shopping. Sem saber o que se passava, as pessoas concentraram-se à beira da única luz que permanecia ligada, a iluminar o berço do menino no presépio. Subitamente, deram-se conta de que os outros existiam, e da falta que faziam nas suas vidas. Quando perceberam quem devia ser o estranho menino, este já tinha desaparecido, para nunca voltar a ser visto por aquelas bandas.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Mar dentro de mim

 

Tenho um búzio que me diz coisas estranhas ao ouvido
Sereia Louca, Capicua


    Singular é a imensidão fluída e revolta do mar. Não passa de uma multidão de gotas de água que se juntaram para fazer algo maior, cada uma formada por um átomo oxigénio e dois de hidrogénio, eternos, inseparáveis num romance com uma química única. Tentar compreender o mar como um conjunto de gotas é como tentar perceber o ser humano como um aglomerado de células. Ambos são muito maiores, dotados de personalidade, segredos e vontades. Infinitos nas suas possibilidades e capacidades. O desconhecido habita em ambos, como se fossem máquinas de produzir sonhos.

    Singular é, também, a tranquilidade que o mar nos transmite, mesmo em constante revolução. O som das ondas a lamber a areia é dos mais puros que conheço. Dos poucos que poderia estar horas a ouvir sem me cansar. A ligação tem tanto de profunda como de imediata, sempre insatisfeita – afinal, somos criaturas de água – 70% dos nossos corpos é líquida, o resto é pó à espera de se tornar pó. Matéria à espera de voltar a ser outras vidas, num ciclo infinito. Um dia, a água que constitui o meu corpo regressará ao mar. É uma fatalidade que aceito. Enquanto espero, sento-me na areia e, com uma atenção quase infantil, escuto o mar.