quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Caçador de Dragões

No meio de mais uma crise existencial, eis que um anúncio no jornal muda tudo na vida de um homem. Senhores e senhoras, esta é a fabulosa história de um contabilista que não queria continuar a contar o deve e o haver da vida dos outros. Fartou-se de entregar o Iva, o IRS e a porra do IMI. Deixou de ter paciência para lidar com websites temperamentais e com a bipolaridade dos clientes. Decidiu mudar de vida. Queria dedicar-se a qualquer coisa, não importava o quê. Até podia ir para calceteiro marítimo, se isso tivesse futuro. Mas não precisava procurar mais – encontrara a resposta naquele jornal, num rectângulo de 6x4 cm onde podia ler, a letras garrafais: “Não perca mais tempo. Aqui está a oportunidade para se tornar num caçador de dragões. Oferta limitada. Profissão de futuro com todas as regalias. Ligue … “
Ele leu o anúncio duas e três vezes. Quem é que poderia querer embarcar em semelhante insanidade? Dragões? Não existiam dragões, pensou ele. Eram invenções, mitos como quaisquer outros. No entanto…
Há sempre um “no entanto”. 
O anúncio teve o condão de fazer recordar ao homem os tempos recuados nos quais acreditava em dragões e até inventava histórias sobre eles. Isso tinha acontecido muito tempo antes de se dedicar à Contabilidade. Poder-se-ia dizer, até, que a Contabilidade tinha matado os dragões. Qual São Jorge, qual quê… um Balanço ou uma Demonstração de Resultados dava cabo de qualquer dragão. 
O problema é que ele tinha sido mais feliz quando ainda acreditava nos bichos. Os números tinham deixado de lhe interessar. Quando deu por ela, já tinha agarrado o telemóvel e digitava os dígitos do único número que o motivava – o número do telefone que estava no anúncio. 
“Que insanidade”, pensou, abanando a cabeça. Estava em frente ao sítio combinado. Uma casa antiga, na parte antiga da cidade. Um prédio abandonado, quase em ruínas. Esteve a um ponto de virar as contas e regressar para a sua vida. Uma voz forte chamou-o. 
- Jorge!
Era um homem alto, de aspecto alucinado e aparentando ter saído do 3º Livro do Harry Potter. Jorge cumprimentou-o, sem conseguir esconder o medo. 
- Sou Cornélio. 
- Prazer em conhecê-lo. Vim para o curso. Já chegaram todos os formandos? 
Cornélio sorriu. 
- Que outros formandos, Jorge? O senhor vai ter o privilégio de uma formação exclusiva. 
Jorge não sabia como reagir a essa revelação. A formação era exclusiva porque ele era o único maluco a querer pagar para caçar criaturas imaginárias. 
- E existem dragões, Sr. Cornélio? 
- Claro que sim. Duvida? 
- Eu nunca vi. 
- Ah! Só acredita vendo. Diga-me, Jorge, acredita na existência de Calisto? 
- Não sei o que é.
- É uma lua de Jupiter. 
- Ah, sim. Acredito. 
- Mas nunca a viu. 
- Não. 
- Portanto, está disposto a acreditar num pedaço de rocha que flutua no espaço a muitos milhões de quilómetros e que nunca viu, do que acreditar em dragões que vivem entre nós. 
- Vivem? 
- Claro. Não estaríamos aqui, de outra forma. 
- Mas eu continuo a não acreditar. 
- Nesse caso, porque veio?
- Vim porque quero mudar a minha vida. 
- E quer sair da monotonia matando animais que não acredita existirem?
- O curso já está pago. Fiz a transferência. 
- Eu sei. Recebi a notificação por SMS. Quer, então, continuar com o curso? 
- Claro. 
- Comecemos, então. 

Jorge passou dois dias a treinar a pontaria e a usar maquinaria estranha, que parecia ser usada para apanhar pássaros. Pássaros grandes, com tendência para a piromania. No final, foi um Jorge extremamente cansado que regressou para casa. Cornélio dera-lhe provas suficientes de ser um maluco que merecia estar institucionalizado. Jorge, pelo simples facto de ter feito o curso, achava que não era muito diferente de Cornélio – ainda não estava suficientemente insano a ponto de extorquir dinheiro a idiotas. Abanou a cabeça, dando-se por vencido e preparando-se para regressar à Contabilidade. Depois, tirou a chave e abriu a porta. No vidro da porta pareceu-lhe ver, por breves instantes, uma sombra com a forma de um dragão.  

O ex-caçador de dragões, que agora se dedicava apenas a contar o dinheiro dos outros, calhou um dia olhar pela janela. Morava no 10º andar de um prédio sem nada de especial que não fosse o facto dele ali morar e das constantes avarias do elevador. Dali conseguia ver a rua, onde as pessoas se dedicavam às suas vidas, estranhamente parecidas com formigas atarefadas, e carros que transportavam outras formigas, eventualmente mais selectas mas igualmente atarefadas. 
O prédio da frente era exactamente igual ao prédio onde ele vivia. Nada tinha de especial que não fosse o facto dela morar ali. Ele conhecia-a apenas de vista. Mudara-se para ali no ano passado. Não era especialmente bonita, mas algo prendera a atenção do ex-caçador de dragões. Teria sido amor à primeira vista. Não: tinha sido à segunda vista. À primeira vista, o ex-caçador de dragões viu apenas uma rapariga pequena e forte, que escondia uns olhos estranhamente bonitos por trás de uns óculos com lentes de fundo de garrafa. 
Adiante: calhou a Jorge olhar pela janela e o que viu encheu-o de terror. Na cobertura do edifício viu um dragão, de asas abertas. Um monstro lindíssimo, cuja pele brilhava ao sol do meio-dia. Jorge olhou em volta. Parecia que apenas ele podia ver o dragão. Pegou no telemóvel. As mãos tremiam enquanto marcava o número de Cornélio, o seu formador de luta contra dragões. Ele demorou a atender. 
- Estou?
- Sou eu, Jorge. Há um dragão no topo do edifício da frente. 
- Ah… percebi. Tem o seu kit anti-dragões?
Jorge olhou para um embrulho grande, encostado à parede. 
- Sim. Chegou hoje. 
- Óptimo. Use-o. 
E Cornélio desligou. Jorge engoliu em seco (insultando em silêncio Cornélio) e contabilizou as suas opções. Curiosamente, nem sequer considerou a hipótese de ligar às autoridades. Não: aquela era a sua luta. Desembrulhou o kit anti-dragões. Do meio do papel tirou uma espada e um escudo ridículo, ambas as coisas com a inscrição “Recordação da EuroDisney, produto da República Popular da China”.
Assim armado, Jorge saiu para a rua, indiferente às pessoas que não estariam habituadas a ver um caçador de dragões em plena actividade. Esperava que a porta da rua do prédio da frente estivesse fechada, mas não. Ele entrou sem qualquer dificuldade. Depois, chamou o elevador. Uma senhora passou por ele, carregada com compras. Jorge sorriu. 
- Está avariado. – informou a senhora, com o ar simples de quem vê caçadores de dragões todos os dias. 
Jorge agradeceu a informação e começou a subir as escadas. Seriam, pelos seus cálculos, treze andares. A caixa de escadas era escura. Os degraus estranhamente irregulares. A ele, nada disso importava. Tinha de salvar a sua dama. Com ela no pensamento, redobrou o passo, caindo duas vezes seguidas. Cada vez se sentia mais pesado. O escudo parecia ficar cada vez mais pequeno, até que o atirou ao chão. Tinha ficado do tamanho de um prato. A espada, do tamanho de uma agulha, as roupas apertadas, a visão turva. 
Cornélio já o tinha avisado. Tinha de ser forte. A magia dos dragões era poderosa. Jorge, no entanto, desconhecia o facto de estar a ser afectado por uma magia ainda mais poderosa do que a dos dragões. Uma magia antiga, forjada na origem dos tempos. 
Quando Jorge chegou ao topo da escada, mal cabia no corredor. Abriu a porta (estranhamente transformada num portão de ferro, como aqueles que existiam nos castelos antigos – aliás todo o prédio se tinha transformado num castelo. Minto: todo o prédio se tinha transformado numa torre, de onde Jorge conseguia ver toda a cidade, perfeitamente indiferente à sua luta). 
Ele ali estava. O dragão. Imenso, com asas abertas. Os seus olhos fitavam Jorge. 
Mas Jorge já não era Jorge, nem contabilista, nem caçador de dragões. Jorge tinha-se transformado, ele próprio em dragão. Olhou para as suas garras, para a sua pele prateada e para as asas. Admirou-se pela normalidade com que aceitou essa mudança. Reconheceu no dragão que tinha pela frente a sua amada. Ilda, era o seu nome. Não precisaram de palavras. Limitaram-se a levantar voo, com a certeza de que ninguém iria dar pela falta deles.

FIM





quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Jogo

Nem frio, nem calor, apenas o sol suficiente para aquecer o corpo no parque e esquecer o longo inverno e uma primavera mais húmida do que me consigo lembrar – mesmo que a memória já não seja a mesma há muitos anos. Nestes dias, a rotina era sempre a mesma, depois do almoço vínhamos para ali, ocupávamos um lugar numa das mesas em cujo tampo alguém teve o discernimento suficiente para pintar um tabuleiro, talvez até tenha sido eu. Não creio. Pego no saco das pedras redondas e coloco-as no tabuleiro. Doze peças pretas e doze peças brancas, todas iguais, de marfinite gasta pelo tempo. Disponho-as para começar uma partida de damas.

Ele chegará, lento e cambaleante, cigarro na boca. O cheiro a tabaco denuncia-o sempre. Senta-se na cadeira da frente e começa a jogar. Não diz uma palavra. Trinta anos de amizade e dez na reforma não deixam muitos assuntos pendentes. Ganha-me frequentemente. Ou deixo-o ganhar, já não sei. O resultado não interessa, apenas o tempo que é passado para que resulte.

Ele chegaria, lento e cambaleante, cigarro na boca. O cheiro a tabaco já não o denuncia. Repousa agora na sua última morada. Deixou-me ganhar naquela que era a nossa maior competição: viverei mais tempo do que ele. Essa vitória sabe-me mal, tal como me sabia mal o cheiro do seu tabaco.

Jogo agora sozinho. Imagino-me a jogar com ele. Repetidamente. Ganho-me e perco-me. Não interessa. Dentro de pouco tempo até o calor do sol me deixará de interessar.

Faço o último movimento. Como uma pedra no jogo. Com raiva. A pedra comida desliza para fora da mesa e cai ao chão de erva rala. Inclino-me para a apanhar, uma aventura na minha idade. Sinto todas as articulações do meu corpo a estalar. Estico o braço, a mão esbranquiçada e manchada quase que chega à pedra, mas outra mão mais jovem antecipa-se e apanha-a.

O rapaz não tinha mais de nove anos. Já o tinha visto por ali, sempre na companhia da irmã mais velha que se sentava a ler num dos bancos mais afastados. Na mão trazia uma consola de jogos, uma daquelas coisas que lhe ocupavam sempre a atenção, em vez de estar a jogar à bola com os amigos. Talvez, como eu, não tivesse amigos. A solidão não era um exclusivo da velhice.

“Acabou a bateria”, queixou-se ele. Eu sorrio: “O meu jogo não precisa de pilhas. Queres que te ensine?”

O rapaz olhou com estranheza para as pedras durante algum tempo e depois aceita, sentando-se no banco que era do meu amigo. Apetece-me avisá-lo dos malefícios do tabaco, mas ainda é muito cedo para isso…

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Publicado a 1 de Maio de 2013 no Blogue Evoluir

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Filho da mãe

Há muito tempo que não escrevo. Demasiado, na minha opinião. Faltava-me um tema e a paz de espírito suficiente para o desenvolver. Ainda não tenho nem tema, nem paz, mas vamos ver como sai. Vai ser uma fábula. Os personagens, animais comuns que podemos ver em qualquer sítio. Não falam. Sempre me pareceram idiotas as histórias nas quais os animais falam só para que nós os percebamos. Nada pode ser estar mais longe da realidade: os animais não precisam falar, nunca precisaram. Entendem-se mesmo sem palavras. Nós somos o contrário: por vezes, nem com palavras lá vamos.

Adiante: era uma vez ( ☺ ) uma gata. Grande e balofa. Habituada ao sofá lá de casa, raras vezes se aventurando ao quintal. De vez em quando, mas muito de vez em quando, ela lá ia dar o seu passeio, inspeccionando todos os recantos. Por vezes cruzava-se com um pequeno rato que ela sabia que vivia num buraco do muro. Mas como dava muito trabalho apanhá-lo, deixava-o estar, ainda que ele passasse mesmo por baixo do seu felpudo focinho de gata mimada - o que ela queria era sopas e descanso. Mais descanso do que sopas. Estão a ver?

E eu observava-a da janela, rindo em silêncio da sua pose aristocrática. Eis que um dia apareceu no quintal um pássaro. Um melro, talvez. Dormia na macieira que tinha plantado lá nos fundos e que nunca se tinha atrevido a dar fruto (outra preguiçosa como a minha gata, portanto). O passatempo dele, depois de ter perdido o medo à gata, era implicar com ela, colocando-se no seu caminho, aos saltos, e voando assim que ela mostrava alguma tenção de saltar. Ficavam nisto algum tempo, até um dos dois se cansar.

A brincadeira acabou num sábado de tarde. Eu estava a ver. O melro saltou para o chão, mesmo à frente dela. Depois deu um salto para trás. A gata perseguiu-o num passo lento, de rainha cansada. O melro deu outro salto e foi nesse momento que duas garras afiadas se lhe cravaram no corpo. Um outro gato, sorrateiro, mais pequeno e ágil, tinha estado à espera do pássaro. Depois, pegou no corpo já sem vida do melro e, numa atitude de respeito de filho para a mãe - que o era - , foi depositá-lo à frente da minha gata, que se banqueteou com ele.

Moral da história: não brinques com o destino, que há muito filho da mãe que quer aproveitar-se disso...

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Implante

        Este não é um conto, é um micro-conto. Uma ideia espalhada por meia dúzia de parágrafos. A história começará daqui a, exactamente, oitenta anos, dois meses e vinte e sete dias. Nessa época, a grande moda será a extensão cerebral. Para poderem competir num mundo cada vez mais agitado, inserem cirurgicamente implantes que aumentam a capacidade cerebral. Acontece por volta dos dezoito anos. O jovem é levado pelos pais orgulhosos a uma clínica onde escolhem, através de um catálogo informatizado, a profissão do filho. Tudo o que o jovem precisa saber já vem no implante. Eles só precisam escolher, e pagar em conformidade. Isso garante a diversidade de profissões. 
        No dia em que Abnel fez dezoito anos, os pais ofereceram-lhe um voucher para a clínica. Tinha fundos suficientes para se tornar médico. Mas havia um pequeno problema: o Abnel não queria ser médico. Queria ser artista. Queria transformar o mundo, que se tinha tornado um lugar demasiadamente cinzento e cerebral. Quando chegou à altura, Abnel agarrou, secretamente, num maço de notas que tinha poupado dos seus últimos aniversários (dinheiro suficiente para comprar um bom carro) e foi com os pais à clínica. Lá escolheram o implante para o filho. Ele seria médico, tal como o seu pai. A mãe, chorosa, beijou o filho na face e Abnel lá foi com o médico. Quando estava longe da vista dos pais, Abnel subornou o médico. A operação tinha corrido mal. Seria esta a versão contada aos pais de Abnel. Este não podia receber um implante. 
        “Um idiota? O meu filho vai ser um idiota?”, perguntou o pai de Abnel, perfeitamente incrédulo com o que se estava a passar. A esposa, entretanto, tinha desmaiado. 
        O médico assegurou que Abnel teria uma vida perfeitamente normal. Antigamente, disse ele, ninguém tinha implantes e sobreviviam. Mas o pai de Abnel não queria saber disso. O filho nunca seria ninguém na vida. 
        Mas enganava-se. O filho tornou-se o artista mais conceituado naquele tempo e levou a que os implantes fossem, progressivamente, caindo em desuso.  

O Frio

        O frio entranha-se. Corrói. João olha em volta. Está sozinho, em baixo da ponte. A sua casa. Há quanto tempo é a sua casa? Desde sempre. Não. Desde sempre, não. Há demasiado tempo. Ou há tempo suficiente para lhe chamar casa. Branco. O solo está coberto por um manto branco, iluminado pelo candeeiro de rua, a única companhia que João tinha. Nunca vira tanta neve nem tanto frio. Antes ainda tinha cobertores, roubados por alguém que precisava tanto ou mais do que ele. Agora tinha apenas as folhas de papel de jornal para se cobrir e uma caixa de fósforos. Pegou numa folha. À luz do candeeiro, leu a página. Era sobre política, uma inauguração qualquer. O João lembrou-se do tempo de escola e da professora que tivera na altura. Ela queria que ele aprendesse, mas o João só se interessava pelo que estava fora da sala de aulas, pela bola e pela brincadeira. Acende um fósforo e pega fogo à página. Aquece-se no fogo durante algum tempo. Parece ver a antiga professora. Ele sorri. Na altura, não gostara dela. Agora, à distância, via que ela só o queria ajudar. Fica algum tempo a olhar para as cinzas. Pega noutra folha de jornal. Vê a fotografia de uma família com crianças. Imaginou-se a si próprio em criança. A excitação do Natal, a abertura dos presentes. O sorriso dos pais. As lembranças tornam-se amargas quando deixamos de querer sonhar, pensou o João.
        (Outro pensamento do João: aquela era a noite da consoada. As pessoas estavam nas suas casas. Partilhavam sorrisos e presentes. Ele partilhava aquele espaço com um candeeiro e algumas folhas de jornal.)
        Parece ver-se a si próprio e aos pais na chama efémera da folha de papel. Tantos sonhos que tinha na cabeça na altura. Bastou um desvio. Más companhias. A história tantas vezes repetida. O vício toma conta dos sonhos. A vida desaparece como areia entre os dedos. Praia, calor. Sonhos quentes numa tarde de verão. Um Cornetto de Morango comido na sombra da esplanada. Amigos. Tinha tantos amigos na altura. Desapareceram, tal como a areia. E, quando não havia mais ninguém interessado em lançar-lhe a mão, também o João desapareceu. Tornou-se areia. Invisível para a sociedade.
        O João pegou, então, na última folha. O frio começava a tomar conta dele. Quase não sentia as mãos. Tremia tanto que a certa altura lhe pareceu que tremer era a coisa mais natural do mundo. Obituário. Olhou para a fotografia de um senhor de idade que lhe recordou o seu avô. Costumava ir caçar com ele. Mentira: o avô não caçava, mas usava essa desculpa para passear pelos campos com o neto. Ele tinha confiança no João. Talvez a única pessoa que sempre confiara nele. Onde estás, avô? Ensina-me outra vez a diferença entre os cogumelos. Deixa-me cheirar a terra molhada nos dias quentes de Julho. Avô?
        O João sentiu sono. Mais sono do que sentira alguma vez na vida. Já não tinha jornais: encostou-se contra o betão da ponte, de forma a abrigar-se do vento gélido que, de repente, levantara. Sonhou que estava com o avô. Era novamente criança e percorria uma longa estrada ao sabor da voz dele.

        No dia seguinte, o corpo enregelado do João foi encontrado já sem vida e com um sorriso nos lábios.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Os homens medem-se às palmas

Dizem que os homens não se medem aos palmos – mas se o fizessem, Peter não mediria muitos palmos. Filho desejado de uma família de ascendência alemã e irlandesa a residir nos Estados Unidos, cedo os pais descobririam que o filho sofria de um problema que lhe afectava o crescimento normal dos membros. O seu nome técnico é Acrodonplasia. Na prática, isso significava que Peter seria anão, com todos os problemas que acarreta a vida de um anão numa sociedade que tudo formata, desde o tamanho da fruta às convicções pessoais e, claro está, ao aspecto físico. 

Peter viveu a sua vida afectado por este problema, encerrando-se no seu próprio mundo. Tornou-se actor, algo bastante comum para quem se encerra no seu próprio mundo, como se os palcos e as câmaras fossem os instrumentos para exorcizar a claustrofobia. No seu primeiro trabalho no cinema, retrata-se a si próprio: um anão farto de seguir os arquétipos dos trabalhos habituais de anões. 
Um metro e trinta e cinco centímetros de gente, uma voz estranhamente potente. Um actor dotado. No final, só isto interessa: o talento. Não interessa a altura, a cor da pele ou as convicções pessoais. Ou temos talento, ou não temos. Não há nada de mágico nisso. Ou talvez haja. É essa a nossa verdadeira magia interior: sobressairmos quando menos se espera. 

E Peter sobressai. Ele é Tyrion Lannister em Game of Thrones. O filho de uma das famílias mais poderosas, um papel que lhe assenta especialmente bem, dado que ele próprio é descendente de uma família da aristocracia germânica. Como Tyrion, ganha o papel de melhor actor. Os homens não se medem aos palmos - medem-se às palmas que recebem.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Cho-co-la-te


“Chocolate”, pensou o João. Ele não tinha mais de dez anos e, àquela hora, deveria estar na escola. A verdade era que ele não gostava da escola, mas preferia estar lá do que naquele quarto a cheirar a bolor. 
“Chocolate”, pensou, novamente. Tinha acordado irritado, depois de sonhar que estava com os pais. Tinha saudades deles. Tinha saudades de tudo. A Maria mexeu-se. Dormia por baixo dos poucos cobertores que tinham e que cheiravam mal. O João tinha voltado a urinar todas as noites, desta vez, por um motivo válido: já não sabia há quanto tempo estava encerrado naquele quarto. 
E tudo por causa da porcaria do chocolate. O João tinha prometido a si próprio que, se escapasse daquela situação, nunca mais na vida comeria chocolate. 
Cho-co-la-te.
Lembrava-se de quando andava na escola a aprender a ler. Aquela tinha sido uma das palavras que lhe tinha dado mais prazer aprender. Ele era viciado. Preto, castanho, branco, com ou sem avelãs. Marchava tudo. A sua irmã era mais comedida. Dois anos mais nova, berrara constantemente nos primeiros dias, agora apenas soluçava, à medida que chegara à conclusão de que os nossos pais não os iam conseguir encontrar. 
Cho-co-te-la.
A loja ficava nos subúrbios da cidade, numa zona onde os pais nunca os deixariam ir sozinhos. Mas o João tinha de ir. Por azar, a Maria estava com ele. Ele lembrava-se de tudo, de entrar na estranha loja e de ficar maravilhado pela quantidade enorme de chocolates de todas as formas e feitios. Deitou a mão ao bolso e tirou todo o dinheiro que tinha trazido. A senhora, de aspecto louco e uma grande verruga no nariz, logo lhes apresentou uma amostra de um chocolate especial. 
“O melhor da casa”, dissera a senhora, dando-lhes dois grandes quadrados de chocolate. O João comeu. Nunca tinha comido nada tão bom. Mas foi sentindo cada vez mais sonolência. Quando olhou para o lado e viu a irmã no chão, já adormecida, o João deu-se conta de ter sido drogado. Depois, tudo se apagou, para acordar naquele quarto imundo. Eles berraram e bateram à porta. A senhora lá veio e disse-lhe que era o castigo por terem ido até ali, sozinhos. Se fizessem barulho, não teriam comida nem água. 
“Depressa vos soltarei, meus queridos.”, disse a senhora, com um estranho e desagradável ar angelical. 
As horas logo se transformaram em dias. Lá fora, o João ouvia o barulho da cidade, os carros, as ambulâncias, os tiros, as pessoas a gritar. 
Lá fora. 
Quando se está tanto tempo preso, e em especial quando se tem 10 anos, começamos a delirar. O João sentia que estava lá fora, a correr e a brincar com os amigos. Tinha saudades deles. Muitas. 
A Maria acordou. Olhou em volta. O João percebeu que ela tinha tido mais um sonho. Pouco falava, agora, e nunca sorria. Era o João que cuidava dela, que lhe repetia as frases aconchegantes que costumava ouvir à mãe (que saudades tinha dela). 
Porque tinha compreendido que era a única forma de conseguir fugir daquele sítio, ele fez-se amigo da senhora. A Maria não compreendeu a atitude, zangou-se com ele. Depois, pela primeira vez em dias, o João saiu do quarto. A senhora obrigou-o a trabalhar. A casa, antiga, tinha muito para limpar. Ele trabalhou arduamente. A senhora mantinha a irmã no quarto, pelo que ele nem sequer tentava fugir. Ao fim da tarde, com o corpo todo dorido, voltava para o quarto. A Maria voltava-lhe, então, as costas. No entendimento dela, o João já esquecera que tinha uma casa com um pai e uma mãe que não descansariam enquanto não os encontrassem. 
Na realidade, em momento algum o João se esquecia da casa e dos pais. Eram essas lembranças que o faziam esforçar-se ao máximo para conseguir ganhar a confiança da senhora. Com o tempo, desenvolvera um plano. Era perigoso, extremamente perigoso mesmo, mas devia funcionar. O João conhecia agora os cantos à casa, pelo menos os cantos que não estavam fechados à chave. A senhora carregava com ela um cadeado com as chaves todas. A casa era velha, de boa construção. A senhora estava sempre constipada. Sim, devia funcionar, pensou ele. Pelo menos nas séries que costumava ver, funcionava. Mas aquela era a realidade. Uma realidade cruel à qual queria, desesperadamente, escapar. 
Naquela noite fez as pazes com a irmã. Disse-lhe apenas que se escondesse no canto mais afastado da cozinha, e se cobrisse com as mantas e os cobertores. Ela, mesmo sem nada compreender, assim fez. 
No dia seguinte, a senhora veio chamá-lo, sem suspeitar do plano que o rapaz arquitectara. Ele tinha de limpar a cozinha, o que era exactamente o que ele queria. Assim que ela saiu, por momentos, ele ligou os bicos do gás do fogão. Depois, pegou num novelo de lã e mergulhou-o no petróleo de um candeeiro antigo que a senhora tinha na cozinha. Tal como pensara, a senhora não se apercebera do cheiro do gás. O João saiu, então, da cozinha. Estava nervoso. As mãos tremiam-lhe. Pegou no novelo ensopado em gasolina, fez uma funda com um pedaço de tecido que tinha escondido por trás de um móvel. Tirou um isqueiro que tinha encontrado e que tinha, também, escondido por trás desse mesmo móvel. Ateou fogo ao novelo e, com a funda, atirou-o para a cozinha, escondendo-se por trás da parede. Aninhado contra a parede, fechou os olhos e tapou com as mãos os ouvidos.
A explosão fez abanar tudo. O João nunca tinha sentido tanto medo na sua vida. Quando o fumo se dissipou, ele correu para a cozinha. Estava tudo negro e fumegante. Um corpo inerte jazia no chão. Fechando os olhos, o João procurou o bolso do avental daquela que tinha sido a sua captora durante aquelas semanas. Não sentiu a mínima pena, apenas uma alegria imensa quando, finalmente, conseguiu as chaves. Voltou num instante à porta do quarto onde tinha estado preso. Procurou rapidamente a chave certa. Lá fora, tentavam arrombar a porta. O João ouvia vozes aflitas. Mas a Maria ainda estava mais aflita. Ela correu para ele, a chorar, o corpo tremendo de medo. 
- Vai ficar tudo bem. – disse ele, por fim, com a confiança renovada. Mesmo assim, não queria ficar mais tempo naquela casa, pelo que se escapuliu pela porta dos fundos com a irmã, e com a firme decisão de nunca mais na vida tocar em chocolate.