quinta-feira, 27 de março de 2014


Desafio de Escrita 2
Tema Nº1: O comboio parou na estação e ele saiu.
Tema Nº2: Não tardes: deixei o Amor em lume brando.



O comboio parou na estação e ele saiu. Não ia apressado. Parou para fumar um cigarro. Olhou para ambos os lados da gare, como se estivesse na dúvida para onde ir. Não era de ali. Ela via isso na forma como vestia, como se a aventura fosse a sua forma de vida, a pele bronzeada. Pela cor clara dos cabelos, podia antever olhos igualmente claros, escondidos por trás de uns egoístas óculos escuros. Vem para este lado, pediu ela, aninhada no banco da estação, encostada à parede. Segurando na ponta dos dedos o livro que fingia ler entre os joelhos. Não estava ali mais ninguém. As pessoas que tinham saído do comboio tinham ido às suas vida. As pessoas que tinham entrado no comboio também tinham seguido viagem, ela estava-se a borrifar para onde. Parecia-lhe que só eles os dois não precisavam ir a nenhum lado. Sentimento estranho, para quem nunca teve certezas na vida. Vem para este lado, pediu ela. Ele virou-se para ela, que subitamente sentiu que tinha mudado de cor. Sentia as faces subitamente a escaldar. Anda, pediu ela. Não tardes. Ele aproximou-se dela, a um passo lento, cauteloso, o significado óbvio de quem procura. Ávido. Silencioso. Sentiu-lhe a ânsia. És meu. Quero ser tua. Sem receios, dúvidas ou hesitações. Ele continua a aproximar-se.


O comboio parou na estação e ela saiu. A outra. Aquela que lia apercebe-se da mudança na velocidade no andar dele e, na felicidade estampada no rosto, vê que não tem outro remédio senão mergulhar no livro e arrefecer o Amor que tinha já em lume brando. 


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

DORFELIZ

ÉUMADORFELIZAQUEMELEMBRODESOFRERTODOSOSDIASATEULADOUMADORQUEQUEROQUESEPROLONGUEATÉDIZERMOSCHEGAEDEPOISCONTINUARMOSÉADORFELIZQUESUPORTAMOSCONTENTESTODOSOSDIASQUENOSTOLDAOSSENTIMENTOSENOSALIMENTAAALMADEPEQUENOSNADASCOMOOCHEIRODASTORRADASQUEDEIXASQUEIMARSEMPREQUEOSNOSSOSCORPOSSEPRENDEMAOPEQUENOALMOÇOPARASÓSEDEIXAREMÀNOITEQUANDOFECHAMOSOSOLHOSENADAMAISEXISTEANÃOSEROSNOSSOSSONHOS.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Mais uma travessia


            Foi só mais uma travessia, a da Cristina. Vivia com a avó, depois de ter sido abandonada pela mãe, tóxico-dependente. Eu assisti a tudo, da janela do meu quarto. Viviam na casa em frente à dos meus pais. A mãe, cujo nome não me lembro, era da minha idade. Caiu num buraco da vida. Gerou uma criança. Desapareceu para sempre. A pequena Cristina foi, desde que me lembro, uma criança alegre, muito inteligente. Parecia que tinha vindo ao mundo para exorcizar os erros da mãe.
            Foi só mais uma travessia. Devia ter uns dez anos. A idade do meu filho (bato na madeira). Ela foi fazer um recado à avó, atravessando a estrada na passadeira. Devia estar escuro, não sei. Agarro-me a esta teoria. Estava escuro demais para que o condutor do carro a visse.  A pequena Cristina foi parar ao hospital, com politraumatismo nos membros inferiores. O prognóstico era reservado: se a Cristina voltasse a andar, teria movimentos muito limitados – de facto, ela demorou muitos anos a conseguir andar sem muletas ou aparelhos. Nunca deixou de mancar, como que se carregasse com ela a estupidez daquele momento.

            Quantas crianças têm tudo e se deixam levar pelo negativismo e pela baixa-estima? A Cristina não tinha nada. Nem mãe, nem um andar bonito. Mas isso não a deixou abater. Era uma boa aluna. Quando cresceu, conheceu um rapaz, extremamente pobre. Tiveram uma menina, lindíssima. A Cristina é, agora, uma mãe perfeita, trabalhadora. Nada falta à menina. O rapaz emigrou. De vez em quando vejo-os juntos, uma família como as outras – não perfeita, mas também não acredito que exista uma família perfeita no mundo. Vejo-os, agora, poucas vezes. Da última vez, a menina veio na minha direcção, toda esperta, olhos azuis a faiscar, o cabelo louro encaracolado a emoldurar-lhe as bochechas e o olhar de orgulho da mãe a embelezar o quadro.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Fome de Ti

“Sempre” não é tempo suficiente para que te consiga ler o olhar e saber tudo o que és. Preciso de mais: o meu “sempre”, em matrimónio perfeito com o teu, até que não existam mais ondas para morrer suavemente na nossa praia, num murmúrio nunca banal. Que saudades do tempo em que nos enganávamos um ao outro, jurando amor eterno: o amor não pode ser jurado sem mentir, o passado já passou, o futuro não é nosso, só o presente é uma surpresa e nos pertence, daí o nome. Só prometo amar-te agora e tentar acordar todos os dias com a vontade de renovar essa promessa. Provarei todas as noites uma migalha de ti, satisfazendo a fome que me corrói e regressa logo depois. Promete-me que nunca serás absolutamente minha, tal como nunca serei completamente teu: serás a minha conquista de todos os dias, redescobrindo-te ao primeiro raio de sol; seduz-me a cada manhã, como se fosse a primeira vez. Dá-me como presente um presente sempre diferente, a cada sorriso quente com que me recebes, quando volto do trabalho e a cada beijo apaixonado que partilhamos quando pensamos que o silêncio é nosso. À noite, quando nos deitamos, misturamos os corpos e sonhamos o mesmo sonho, como devem ser sempre os sonhos das pessoas apaixonadas, prontas e expectantes para transformar o amanhã num novo presente. Sempre.     

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Texto 7

Nunca deixar morrer o sonho é o primeiro passo para sermos felizes. Mesmo que o mundo dos outros nos berre e nos deixe sozinhos no caminho, com um rasto deixado pelos nossos erros e fragmentos dos sonhos perdidos. Somos nós que desenhamos o horizonte do nosso mundo e prendemos as amarras aos mundos dos outros, aqueles que vemos construir os seus mundos pessoais à distância e que nos enriquecem a existência.

Nasci com o meu mundo vazio, impoluto, com uma única e grande amarra a ligar-me ao ser que me deu a vida, uma corda de titânio indestrutível, construída ainda no seu interior, quando compúnhamos uma única pessoa. Depois de nascer, construí outra grande ligação. Do meu pequeno mundo observava os seus dois mundos, ligados também entre si por uma amarra, mais ou menos estável, que se renovava diariamente. Desde o primeiro momento comecei a construir o meu mundo, observando e aprendendo como os meus pais cuidavam e melhoravam os seus próprios mundos pessoais, ajustando os horizontes em função da minha existência.

Durante a infância construí montes e planícies, neste meu mundo pessoal, fazendo um lento percurso através deles, percurso esse que ainda hoje continuo. Ao longo da caminhada, neste solo de areia macia com partes dolorosas de granito cortante, construo as amarras aos mundos de familiares e de amigos que entram e saem da minha vida, deixando sempre algo deles próprios como rastos de amarras antigas. Nesta altura começo a definir os meus horizontes, sempre muito altos. Com a idade, aprendo a baixá-los. Já não sonho ser astronauta, quero ser médico. Depois, quando os sonhos começam a perder-se, dissolvidos pela crueza da realidade, baixo ainda mais os horizontes. Ou melhor, aprendo a elevá-los: quero apenas ser feliz e germinar novas amizades, infinitamente sólidas e enriquecedoras. Os seus mundos brilhantes gravitam ao lado dos pequenos mundos individuais dos animais de estimação que me rodearam e rodeiam: o dos cães tem no centro uma árvore e um terreno para escavar; o dos gatos tem apenas um novelo de lã e uma caixa de cartão vazia. As suas amarras são fortes, duras como o aço e perduram muito além da sua vida.


Podemos desistir dos nossos sonhos e ambições. Passar a viver apenas pelo gosto da caminhada, nos nossos mundos pessoais, apreciando cada passo de uma forma quase orgásmica. O que não podemos é deixar de caminhar, mesmo que já não tenhamos força nas pernas. Nunca.   

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Texto 6

Porque a solidão existe. Perfura-nos. Congela-nos num estado embrionário, granítico. É como uma casca que nos envolve e que só a vontade dos outros pode quebrar. A tua vontade. A tua existência. A tua imagem. Simples, deslumbrante. Cada gesto com que rasgas suavemente o ar, sinto que é para mim. O meu teatro pessoal, onde és a actriz principal de uma peça que eu sempre esperei – nela representas para mim, só para mim, em todos os dias em que te vejo, e também nos outros em que só habitas os meus sonhos. Só tu existes. Que se cale o mundo cego que só vê as diferenças, quando eu nem o tempo sinto quando estás perto. Que interessa se nasci antes, se nasci para te embalar a alma e te fazer rir e te limpar as lágrimas. Anda. Apanhemos o sonho das 7h30. Não, é muito cedo: gostas de dormir até tarde. Será antes o das 11h15, o dos bancos forrados a veludo. Levamos os nossos livros. Não. Não precisamos de livros: eu leio-te, e tu lês-me. Só o teu livro me interessa. Não me interessam os poemas, quando o meu poema és tu, a rima incerta que invade o meu mundo e me rompe a casca dessa solidão onde me escondi, onde me escondo de um mundo que já não percebe nada de amor, apenas da confusão dos corpos. Porque o amor puro é a minha única dádiva, sincera e absoluta. És tu. Sempre foste. Espalho o que sinto num rectângulo de papel A4. Imaculado. Como tu.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Ilusão


“Amo-te, Rosinha.”
O velho berrava ao telemóvel que alguém tinha posto em alta-voz, na barbearia. Do outro lado, uma voz feminina retribuiu e depois desligou. O barbeiro faz-me sinal: é a minha vez. Passo pelo velho enquanto me sento, o olhar iluminado, enquanto contava a sua história, espicaçado pelos barbeiros.
“Conheci-a na loja. Fiquei imediatamente apaixonado. Fizemo-lo de pé.”
“E depois Celestino, o que aconteceu nove meses depois?”, pergunta o barbeiro, a navalha a raspar-me a pele do pescoço.
“Depois, nasceu o Celestininho e a irmã. Fiz-lhe dois gémeos!”
O barbeiro limpa-me um pedaço de espuma no canto da boca, enquanto lhe pergunta: “E depois, o que aconteceu na garagem?”
O velho eleva ainda mais a voz. “Quando estive com ela na garagem, fiz-lhe mais dois filhos!”
O barbeiro ri-se.
“Dois casais de gémeos, Celestino. Você tem cá uma força! E cante baixinho o que lhe cantou na sacada.”
Pelo espelho, vejo o Celestino emproar-se e começar a cantar um fado, o Xaile da minha mãe. Tem boa voz, devo reconhecer. O barbeiro pega no telemóvel, marca um número, põe em alta-voz e passa-o ao Celestino: “Cante para ela, Celestino!”.
Do outro lado do telemóvel, ouço uma voz de mulher. Ele distancia-se, enquanto recomeça o fado triste, ainda com mais fôlego.
“Pobre coitado”, sussurra o barbeiro, “Antes, andava deprimido, queria matar-se. Depois inventou que tinha uma amante. Nós ajudamos na mentira, espicaçamo-lo. É assim que ele é feliz.”
“E a voz ao telemóvel?”
“É um mendigo que gosta de se meter com ele. Imita bem a voz de mulher.”
            Entra mais um cliente na barbearia. Celestino desconcentra-se, a voz fica trémula, por fim cala-se. Por momentos vejo-o como ele é: um homem solitário que vive na mentira. Não: um homem solitário que os outros gostam que viva na mentira. Sem saber, é o maior motivo de gozação do sítio. Ou mesmo sabendo. É assim que se é feliz, quando se perde a noção do que é a realidade.

            Enquanto volto para casa, mais leve, não consigo esquecer este momento. O que será melhor: sobreviver na triste realidade, ou viver uma mentira feliz?