domingo, 4 de dezembro de 2022

Triplo Oh



Sentado na cama branca do hospital psiquiátrico, Jeremias esperava. Não se podia dizer que mostrasse algum tipo de ansiedade. A quem lhe perguntasse a razão da sua espera, ele responderia apenas com um “ninguém”. Era o utente mais calmo do serviço, quase não precisando da medicação que transformava todos aqueles que por ali passavam em estátuas apáticas, incapazes de sentir qualquer tipo de emoção. Na hora das visitas, observava atento a chegada dos familiares dos outros utentes, respondendo com um sorriso amável a todos os que sorriam para ele. De resto, era conhecido pelo seu comportamento exemplar e afável: sempre que possível, tentava acalmar e ajudar. 

Dele apenas se conhecia o primeiro nome. Não tinha documentos, nem dinheiro, nem família. Trazia apenas a roupa que vestia na altura da sua apreensão pela polícia. Nos bolsos, tinha apenas um pedaço de giz vermelho e um lenço imundo. Para o enfermeiro Simões, era uma verdadeira incógnita. Mesmo que tivesse anos de experiência, e tivesse visto muitos casos semelhantes de sem-abrigo que tinham ido parar à ala masculina do hospital psiquiátrico, alguns deles por vontade própria, para escapar da fome e/ou do frio, Jeremias era um caso à parte. Extremamente educado, calmo, divertido. Sempre pronto a ajudar o próximo. Onde estava o homem furioso que desatara a partir a decoração natalícia do Centro Comercial e que deixara em prantos as crianças com a visão de bonecos do Pai Natal degolados e de renas com as pernas decepadas e de uma destruição sem fim? O homem estava ali, à sua frente sentado na cama. Calmamente à espera por um Godot anónimo. 

“Sente-se bem, Senhor Jeremias?”, perguntou Simões. Jeremias respondeu afirmativamente, com um sorriso aberto. 

“E do que está à espera?”

“Estou à espera que os sonhadores voltem a sonhar, Senhor Enfermeiro Simões. Que dia é hoje?”.

  “23”

“Amanhã é o dia da ilusão. As pessoas tentam redimir-se nas prendas de um ano inteiro de ausências. Ainda se lembra de celebrar o Natal quando era criança, Simões?”

“Sim. Não havia dinheiro. Nunca tinha aquilo que desejava, mas era uma altura mágica. Lembro-me do cheiro a canela e das rabanadas. E dos meus tios que cantavam, felizes. Agora sei que estavam bêbados. Mas fazia parte. Quanto a amanhã, vamos ter a ceia de natal. Não se esqueça.”

Ele riu-se de uma forma matreira. 

“Já não vou estar aqui.”

Simões estranhou a resposta, mas despediu-se e foi à sua vida sem pensar muito no assunto. Se fizesse caso de todas as coisas estranhas que os utentes diziam, desconfiava que em pouco tempo seria um deles.

No dia seguinte, Simões foi acordar Jeremias, tendo bem presente o que este tinha dito. Antes de colocar a chave na fechadura, imaginou encontrar uma cama vazia. Mas ele estava lá. Ainda a roncar como um desalmado. Simões aproximou-se e tocou-lhe no braço. 

“Acorde, Jeremias.”

O utente virou-se para o outro lado. 

“Acorde. Afinal ainda está cá.”

“É hoje?”

“Sim. Hoje é hoje. Véspera de Natal.”

“Então é hoje que me vou embora. As pessoas precisam de mim.”

Simões abanou a cabeça. 

“O Dr. Álvaro ainda não deu alta. E, mesmo que saísse daqui, para onde iria? Lá fora está a chover e faz frio. Vai voltar para a rua, Jeremias?”

“Não estou aqui a fazer nada. Vou-me embora.”

“Fique connosco esta noite. Amanhã falamos com o Doutor.”

Simões saiu, com um sorriso dissimulado no rosto: o médico não poderia dar alta no dia seguinte, porque era feriado. Ele sabia disso, e desconfiava que Jeremias também sabia.

O sem-abrigo levantou-se, mas mantinha a mesma conversa. Foi à casa de banho. Lavou-se. Começou a cantar uma música de Natal no original, em alemão. Num sotaque irrepreensível. 


Stille Nacht, heilige Nacht

Alles schläft; einsam wacht

Nur das traute hochheilige Paar.

Holder Knabe im lockigen Haar,

Schlaf in himmlischer Ruh!

Schlaf in himmlischer Ruh!” 


Vestiu-se e saiu para o corredor branco. Ao contrário do que era seu hábito, quando passava os dias sentado na cama, à espera de algo que teimava em não acontecer, agora andava pelos corredores. Cumprimentava todos os que encontrava, com um ar mais ou menos alienado. Continuava a cantar, com um sorriso aberto nos lábios. Os olhos, outrora lisos de emoção, transformaram-se em duas pequenas estrelas. O seu bom humor todos contaminava, alguns tentavam acompanhar a música com a versão portuguesa. Até os enfermeiros cantavam. Aquilo poderia passar por ser um musical da Disney, mas era apenas mais um dia na ala do internamento masculino do hospital psiquiátrico. 

Simões chegou e viu imediatamente a diferença no ambiente. 

“Estou a gostar de ver, Jeremias. Ainda bem que não foi embora.”

“Ainda bem que AINDA não fui embora. Há pessoas a precisar de mim. Especialmente neste Natal. Já viu como a esperança desapareceu? A angústia das pessoas, o aumento do custo de vida, da miséria? E a guerra, Simões, a guerra. Devia ser proibida a guerra no Natal. E fora dele.”

“Jeremias, nós não podemos mudar o mundo. Pensamos que podemos, mas na maior parte das vezes nem conseguimos mudar os nossos próprios destinos.”

“Já tentou mudar o mundo, Simões?”

“Para ser verdade, nunca tentei.”

“Raios, homem! Nesse caso, como é que sabe que não é possível mudar? Pior: não impeça os outros de tentar mudá-lo! É quase como dizer ao sonhador para não sonhar. Mesmo sabendo que se não sonhar, a pessoa pura e simplesmente morre.”

E foi à sua vida. Durante o dia, Jeremias brincou, jogou, animou. Chegado à noite, juntaram-se todos no refeitório e tiveram a ceia possível. Jeremias era, de todos, o mais animado, não dando mostras da quantidade de medicamentos que tomava. Fizeram uma pequena troca de presentes. Coisas pequenas, camisolas, meias, gorros. Cada um que recebia o seu presente fazia uma festa, era quase como se recebesse um Rolex último modelo. No meio dos risos e das anedotas, Jeremias pediu para ir para o quarto. Simões abriu-lhe a porta, com a noção exacta de que seria a última vez que o faria. Era um pressentimento estranho, algo que sabia dever ser tomado como certo e definitivo. Jeremias despediu-se como fazia todas as noites, desta vez dando parte de cansado.

No dia seguinte, Simões abriu a porta do quarto e deu com a cama vazia. Ou melhor: havia um boneco que Simões reconheceu e enfiou imediatamente no bolso, num gesto dissimulado para que não fosse visível nas câmeras de vigilância dos quartos. Na parede havia uma porta toscamente desenhada a giz. Simões deu o alarme. O diretor pediu para ver o vídeo. Nele via-se Jeremias a entrar no quarto. Simões despede-se e fecha a porta. Jeremias senta-se na cama e espera até às 24h. No último segundo levanta-se, vai até à parede e desenha uma porta, não se esquecendo do puxador. Depois olhou para a câmera e disse adeus. Pousou a mão no puxador desenhado a giz e a porta abriu-se. Do outro lado veio uma luz imensa que fez com que não se visse nada na gravação. Quando desapareceu, levou com ela Jeremias. 

O diretor abanou a cabeça. 

“O que vamos dizer, senhor diretor?”, perguntou Simões. 

O diretor disse apenas: “Ele fugiu. Só precisam saber disso.”

“E quem era ele?”

O diretor não sabia. Tinha suspeitas que mantinha em segredo para não parecer ridículo. Simões foi para casa. No metro, não parava de pensar no assunto. Em cada rosto que via, parecia estar a ver Jeremias. O sorriso aberto, os olhos a brilhar. O Natal fazia aquilo às pessoas. Transformava-as. Só era pena que durasse tão pouco tempo.

No bolso trazia um boneco. Um action man. Exatamente igual ao que tinha pedido quando era criança. E ele sabia que já não estavam à venda. Foi com esse pensamento na cabeça que entrou no apartamento minúsculo onde vivia com Luísa e o filho de ambos, o Lucas, um autêntico dínamo de seis anos e um intenso cabelo vermelho. Simões tirou o boneco do bolso e ofereceu-o ao filho. 

“Gostas?”

“É giro, papá. Quem é que te deu?”

“Foi o Pai Natal.”, respondeu Simões, sem qualquer dúvida. E no sorriso aberto do filho reconheceu o sorriso de Jeremias.

domingo, 4 de setembro de 2022

A metamorfose de José da Conceição



Foi na festa do seu 40º aniversário que José da Conceição tomou consciência de nunca ter deixado que alguém o tratasse por “Zé”. Da mesma forma, e talvez por isso, ainda era virgem. Até chamar de “festa” a festa de aniversário era um exagero: não passava de um simples jantar com a mãe e a tia Januária, uma senhora com setenta e muitos anos que escapava à morte como o cu fugia à seringa.

O José vivia com a mãe, Maria da Conceição. O pai, António da Conceição, foi pedreiro até ao dia em que as costas o traíram. Quando se viu forçado a ficar em casa e a depender da mulher, António foi-se em menos de um ano, entregue a borracheiras que se tornaram lendárias na vizinhança.

José foi para o seminário para regozijo da mãe, beata por vocação. Tinha sérias dúvidas sobre a sua vocação para padre, mas não queria contrariar a mãe, que se sacrificara para o criar quando ainda estava em idade para procurar outros destinos. A única vez que o fez foi quando, poucos anos depois, decidiu desistir do seminário, após chegar à conclusão de que não gostava que lhe dissessem o que pensar, como pensar e onde pensar, a cada instante da sua vida. Deu por isso um desgosto à mãe, prometendo a ele próprio que nunca mais aconteceria na vida. Não se deu conta de que, a partir desse dia, seria a mãe a dizer-lhe o que pensar, como pensar e onde pensar, a cada instante da sua vida. 

Quando concluiu o ensino médio, empregou-se numa firma de construção civil como escriturário. Tinha um horário fixo e trabalho. Raramente falava com os colegas, preferindo ficar em silêncio o dia todo, matraqueando a máquina de escrever. Duas vezes por semana acompanhava a mãe à igreja e cantava no coro. Quando regressava a casa sozinho e era abordado pelas prostitutas, mantinha-se calado ou chegava mesmo a fugir. Tudo o que via na rua era o que a mãe apelidava de podridão e pecado. Preferia fechar os olhos e enterrar a cabeça numa areia virtual, como faziam as avestruzes, deixando que a vida lhe passasse ao lado, escorrendo lentamente, dia após dia, até este momento. Pode dizer-se que, aos 40 anos, José acordou de uma longa e auto-infligida letargia.

Entra em cena Madalena, recém-chegada de outras paragens. Prima de Luzia, namorada de Gastão, primo de José. Mais por brincadeira do que a sério, decidiram juntar os dois, sabendo de antemão que se tratava de duas pessoas de naturezas opostas. Ele, um beato convicto, a pessoa mais quadrada que alguma vez existira; ela, uma artista que vivia do que vendia na rua, um espírito livre. Tinha tido uma série de desgostos amorosos e não procurava ninguém que lhe terminasse a solidão. Vivia com o seu cão e isso chegava-lhe para armar a confusão.

Luzia e Gastão convidaram-nos para jantar em casa deles, inventando um pretexto qualquer. A mãe do José não quis ir, inventando, também ela, um pretexto qualquer. José sabia a verdadeira razão: Gastão e a Luzia não eram casados e já tinham um filho. Viviam, no entendimento da senhora, em pecado e em rota de colisão com Deus, direitos ao Inferno, sem passar pela casa de Partida nem receber 2000, como diziam no Monopólio.

No final do jantar são deixados a sós, apenas José e Madalena na pequena sala do igualmente pequeno apartamento de Loures.

– Estão à espera que nos conheçamos – disse José, para quebrar o incómodo silêncio que se instalara na sala de jantar.

Madalena ri-se. Tem um riso ingénuo, quase infantil. É o riso próprio de quem não tem de prestar contas a ninguém, pensou José.

– São uns queridos. E o José, o que faz?

– Sou escriturário. Agora brinco com janelas no computador. Aquilo dá-me cabo da cabeça. Preferia a máquina de escrever.

– Pois eu escrevo mesmo à mão, no papel que em própria faço. Sou artesã, trabalho com barro, metal e papel. Também pinto, mas não sou grande pintora.

– A minha mãe diz que a arte não é um emprego a sério.

– Não? E tem razão… Não é um emprego, é uma paixão. O José tem alguma paixão?

José ia dizer que não, mas depois voltou atrás.

– Gosto de música. O meu pai tocava acordeão e ensinou-me algumas coisas. Depois que ele morreu, o acordeão é meu, mas a minha mãe não gosta que eu toque.

– Deixe-me adivinhar: a música também não é um emprego a sério?

José sorriu.

– Para além disso, o som do instrumento lembra-lhe o meu pai.

– Portanto, o José não toca porque a sua mãe não quer. Há alguma coisa que o José faça que a contrarie?

José abanou a cabeça. Explicou a saída do seminário e a promessa que tinha feito.

– Ela é a mulher mais forte que conheço.

– Mas o José tem direito a viver a sua vida. Ela já vive a vida dela conforme ela quer e entende. Não tem direito a impedir-lhe as suas paixões.

No regresso a casa, depois de se despedir, o José ia com a cabeça carregada com pensamentos novos e a lembrança do sorriso puro de Madalena. Tudo o que ele gostava de fazer, fazia-o pela mãe. A forma de vestir, de comer, de agir, era tudo à medida da mãe. Ele não passava de uma sombra.  

Decidiu começar a mudança na manhã seguinte, sábado.

Primeiro, recusou acompanhar a mãe às compras. Desculpou-se dizendo que não se sentia bem. Ela estranhou, ficando com a pulga atrás da orelha, mas depois saiu de casa, batendo a porta com desconfiança. José tirou o acordeão da caixa onde estava fechado há três anos e trancou-se no quarto. Sentou-se na cama e pegou no acordeão. Limpou-o cuidadosamente, como o pai lhe tinha ensinado. Depois passou o braço pela alça de couro a cheira a bolor e sentiu os botões de madrepérola. Começou a tocar.

Os primeiros sons foram surpreendentes. Os gatos miaram, os cães dos vizinhos ladraram em coro com os berros de reclamação dos próprios donos. Ele sempre gostara de tocar, o que não significava que o fizesse bem. Afinal, uma paixão significa apenas uma promessa, um contrato emocional – não implica qualquer tipo de milagre. 

Passada uma hora, mais minuto, menos minuto, a mãe chegou das compras e bateu furiosamente à porta fechada do quarto

– José, pára imediatamente que os vizinhos vão chamar a polícia!

– Está bem, mãe.

José parou. Guardou o instrumento na caixa e abriu a porta.

– Desculpe, mãe.

José deu um beijo de reconciliação, mas, na primeira oportunidade, saiu de casa com a caixa do acordeão na mão, apanhou a camioneta para o monte mais próximo, onde só as cabras podiam protestar. Depois de algumas horas a praticar, teve de dar a mão à palmatória: era mau e sozinho nunca evoluiria, pelo que se inscreveu nas aulas de acordeão.

No dia seguinte, parou numa loja de roupa. Chegou a casa num estilo mais desportivo, que o tornava bastante mais novo. A mãe desconfiou logo da Madalena, que, segunda ela, era uma mulher da má vida, uma rameira que queria desviar o filho do caminho da virtude. Na realidade, Madalena era um pretexto para que José regressasse do trabalho pelo caminho mais longo. Duas vezes por semana tinha aulas de acordeão. Abandonou o coro, mas continuava a acompanhar a mãe à igreja.  

Numa tarde,  José pediu a Madalena que o ensinasse a trabalhar o barro.

– O meu avô era artífice. A minha mãe não gosta de recordar isso porque foi o que a minha avó lhe dizia, porque o dinheiro era sempre pouco naquela casa. Mas ele sempre amou a arte. Ensina-me.

– Vais-te sujar, José.

– Não importa… a água limpa.

Houve uma troca de risos. Algumas semanas depois, deram o primeiro beijo e partilharam a mesma cama. Ele tinha a perfeita noção de que estava a pecar. A questão era que o caminho da virtude ele já conhecia, mas nunca o levara a lugar nenhum.

A mãe berrou quando ele decidiu sair de casa. Tentou chamar-lhe a razão, mas ele estava decidido a mudar de vida. Foi viver com Madalena, saiu da empresa, tornou-se artista e músico de rua. Juntos, correram o país de lés a lés. Tiveram o primeiro filho em Reguengos, o segundo no Porto. Em todo o lado conhecia gente, que é o que normalmente acontece quando se escancara a porta para a vida. Agora é conhecido como o Zé do Acordeão e gosta de ser chamado assim.


domingo, 3 de julho de 2022

O Executivo




O Jaguar atravessou a selva citadina num passo rápido, com a segurança própria de quem sabe que a cidade lhe pertence. No interior do habitáculo impecavelmente climatizado, o executivo tinha pressa em chegar a casa, depois de mais um dia de massacrantes reuniões. Ter uma conta bancária com sete dígitos implicava algumas cedências. Sorriu. Um som indicou uma chamada. Uma voz feminina fez-se ouvir no sistema de som, substituindo o Konzert für 2 violinen de Bach. A esposa ia sair novamente com as amigas. A filha estava em Espanha. O filho no Algarve. Era um dos raros momentos em que podia dizer que estava sozinho e, ao contrário do comum dos mortais, o Executivo considerava a solidão como sendo um bem precioso. 

Tinha sido assim desde sempre, sem tempo para nada. Os pais queriam que ele fosse o melhor em tudo. Piano, Inglês, Francês, explicações. Ao fim de semana tinha de os acompanhar nos eventos sociais onde era apresentado às pessoas mais desinteressantes que pensava existirem no mundo. Ao crescer deu-se conta do seu erro: o número de pessoas desinteressantes era infindável, enquanto que as pessoas realmente interessantes era ridiculamente pequeno e raramente consideravam os executivos como pessoas minimamente interessantes. Para as pessoas que o surpreendiam, o dinheiro, o poder, o carro ou a casa eram completamente irrelevantes. No mundo dele, eram essas as únicas coisas que interessavam.  

Chegou ao portão da casa, que abriu pelo telemóvel. Abriu também a porta da garagem, onde normalmente estava o Mercedes da mulher e o BMW eléctrico da filha. Estranhou os espaços vazios, mas era uma estranheza agradável. Reconheceu a falta do vazio na sua vida, tal como tinha notado antes a falta de solidão. Estacionou o Jaguar e saiu. Percorreu o corredor que automaticamente acendia as luzes à sua passagem. Afinal, não estava sozinho, havia outra entidade inteligente em casa. Por mais artificial que fosse a sua inteligência, era sempre diferente do que falar para as paredes. Pelo menos a casa respondia-lhe. 

Percorreu os corredores luxuosos até chegar ao seu destino, uma porta com um teclado numérico. Digitou o código com a mão direita, tapando-a com a mão esquerda como fazia normalmente, não fosse haver uma câmera escondida. Entrou numa divisão relativamente pequena, cuja luz acendeu manualmente. Ali, o técnico que tratara dos automatismos da casa não tivera acesso. Nem sequer a mulher ou os filhos, quanto mais o técnico… Tinha sido indicado no contrato que tinha feito com a esposa. Ele tinha de ter uma divisão da casa só para ele. Tinha de ter direito aos seus segredos. Ela fartara-se de reclamar, mas o Executivo mostrou a mesma fibra que demonstrava nas reuniões dos Conselhos de Administração.  

Tirou a gravata, deixando-a espalhada pelo chão. Isso seria um sacrilégio no entendimento da esposa, bem como a cerveja gelada que tirou do frigorífico. Para ela, só podia haver vinho naquela casa. Cerveja era coisa de gente pobre. Ele sorriu. Depois abriu a garrafa com um isqueiro. Simulou um brinde à esposa e aproximou-se da mesa onde estava uma construção gigantesca feita de Legos. Sentou-se, tirou algumas peças coloridas de uma caixa e, depois de algum planeamento, dedicou-se à sua actividade favorita: a recuperação da infância.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O edifício

O edifício desenhava-se na noite, ao mesmo tempo imponente e sóbrio. Olhei para os lados, antes de atravessar a rua pela parte menos iluminada. Ao contrário do que era habitual, não se via ninguém - nem pessoas, nem carros. O silêncio incómodo era o meu único companheiro. Sabia os riscos que corria se fosse apanhado pela polícia. O meu pai teria sido contra esta ideia, tal como tinha sido contra a maioria das minhas ideias. Eu era Ateu praticante. Apreciava a prosa profana de Bukowski e a instabilidade poética de Pessoa. Ele, Comunista convicto, tinha como sagrados apenas três livros: a Constituição da República Portuguesa, o Manifesto Comunista e o Novo Testamento. Ao contrário de alguns dos seus co-religionários, aceitava Cristo como o primeiro dos Comunistas. Eu era adepto do Benfica, ele fanático do Sporting, que só não pintou de verde todo o nosso pequeno apartamento de Algés porque a minha falecida mãe bateu o pé. Ex-militar de Abril, lutara por essa mesma liberdade que agora tínhamos perdido, no Estado de Emergência pandémico que atravessávamos. Se eu fosse apanhado na rua, depois da hora do recolhimento obrigatório, teria de pagar uma multa para a qual não tinha dinheiro – por conseguinte, problema resolvido. Se fosse apanhado dentro do edifício que me propunha invadir, seria preso e faria as primeiras páginas dos matutinos. 

Magda esperava por mim na esquina, conforme combinado. Entraria como se eu fosse, tal como ela, um funcionário do turno da noite. Mesmo à luz fraca do candeeiro da rua, conseguia ver o cansaço acumulado no seu rosto. Era uma boa amiga, porque só os bons amigos se comprometem quando estamos desesperados: e eu estava. 

Entrei com ela à socapa, pela porta menos vigiada do edifício. Indicou-me o vestiário. Eu trazia o uniforme num saco de plástico. Lá dentro, um homem trocava de roupa. Cumprimentei-o com naturalidade. Por dentro, o meu coração parecia explodir. Vesti o uniforme e saí do vestiário e segui Magda pelos corredores do hospital. O bulício contrastava com a desertidão do exterior. Ninguém tinha tempo para reparar em mim, vestido, tal como eles, com a bata, a touca e a máscara. Magda indicou-me o quarto onde o meu pai estava ligado ao ventilador, em coma induzido. Banhado em lágrimas, dei-lhe um abraço. O último.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A Estátua Infinita

     O poeta pensa na vida, na sua estranha imobilidade tensa. O pálido sol bate-lhe na cabeça, o vento abana os ramos do carvalho debaixo do qual pararam a sua cadeira de rodas. O poeta ainda é novo, como todos os poetas. O seu pensamento perde-se no infinito, longe do seu corpo atrofiado pela esclerose. Ainda sonha, ao contrário de muitos que abandonaram a luta. Cada dia é um novo dia. Regressa do infinito. Dá um toque no comando da cadeira, que se mexe exactamente cinco centímetros na direcção certa, e a estátua em que se transformou há dez anos mexe-se. Esboça um ténue sorriso. Uma criança passa a correr. Pára. Interroga-se sobre aquele estranho velho, sentado na cadeira, com as finas pernas amaradas uma à outra. O contraste é evidente e emociona o poeta. A poesia e o sonho são as únicas coisas que têm de comum. Imagina uma estrofe. A mais bela de todas. Nela se interliga a vida, o sonho e a vontade de viver. Um sonho infinito, tal como é infinita a vontade de ser. A criança desaparece. Sentado no seu pedestal, o poeta acredita mesmo que nunca terá existido. Não passa de uma miragem num deserto sem gente. 

    A sua atenção prende-se agora num jovem que se senta num banco de jardim à sua frente, a atenção dominada pelo seu telemóvel, num autismo voluntário. O mundo resumido a um rectângulo de 5” na diagonal. O poeta abana a cabeça. Rezaria pelas almas desatentas e pelos destinos perdidos, caso não se tivesse divorciado de Deus aos 15 anos, numa sexta-feira de chuva. O ateu é um triste solitário que só tem diálogos internos com ele próprio. Ouve música. Uma batida constante, irritante, neutra, intoxicante. Pum. Pum. Pum. A alma dilacera-se, desintegra-se a cada pum. Um casal senta-se ao lado do poeta. São pouco mais velhos do que o jovem que levanta o olhar para se fixar no decote avantajado da rapariga. Sempre há esperança, pensa o poeta. O namorado dela não gosta da brincadeira. Insinua uma cena, a rapariga acalma-o, o jovem faz um gesto apaziguador. Nada acontece. A música continua. O poeta percebe que vem da mochila do namorado da rapariga.  Não consegue pensar. Eles riem. Beijam-se. Acariciam-se. Para eles, o poeta não passa de uma estátua, não existe. Refugia-se novamente no infinito. Os ecos da música tornam-se efémeros, distantes. Estranhamente agradáveis. Ele está de pé. No infinito, o corpo obedece a todos os pedidos. A juventude é o infinito, percebe o poeta. Gostaria de conseguir falar para explicar ao jovem casal esta epifania, mas percebe, pelo silêncio, que eles já não estão lá. O poeta percebe que o jovem fixa o seu olhar nele. Vê-lhe o brilho da curiosidade. Há esperança, pensa o poeta, mais contente. 

    A menina regressa, com os pais. Faz uma festa ao passar pelo poeta. Ele sorri. Há algo de puro na infância que perdemos ao longo da vida. O amadurecimento é uma armadilha, um logro. A velhice uma fraude. A infância é a única fase das nossas vidas onde somos, realmente, nós próprios. 

    Viemos do pó e, no final, somos todos transformados em poeira cósmica. No infinito. 


Jorge Santos
1 de Março de 2021

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Uma estrela amarela

 Tive o privilégio de entrevistar Ezra Manishewitz por ocasião do único concerto que o pianista deu no auditório da Aula Magna em Lisboa. Foi, talvez, a entrevista que mais me marcou na minha carreira de jornalista. Ezra já passava dos setenta anos de idade, mas tinha um olhar bastante jovial e uma energia invulgar que explodia quando se sentava ao piano. Ouvi-lo ao vivo foi uma experiência mesmerizante. Ele confundia-se com o piano, tornavam-se um ser único, mas nada disso importava, apenas a música que não conseguia deixar ninguém indiferente. Encontrámo-nos no bar do hotel onde ficara hospedado. Cumprimentei-o. A sua mão era extraordinariamente forte, quase um contra-senso para a sensibilidade musical que tinha. Mais parecia a mão calejada de um mineiro. Lucy, a sua intérprete de linguagem gestual, apresentou-se. Ezra sofria de surdez profunda desde a infância, isso não o impedia de ser um dos melhores pianistas do mundo. Respondeu às minhas perguntas com uma calma e um sorriso que nunca o abandonava. Quando terminámos, bebemos os três uma taça de champanhe francês. 

“O Sr. Ezra tem um pedido especial para lhe fazer”, disse-me Lucy. Fiquei surpreendido. Sabia que Ezra era uma pessoa reservada, bastante cioso da sua vida privada. 

“Ele tem uma dívida de gratidão para com o seu país. Gostaria de retribuir. E o senhor pode ter um papel importante nisso. Ele conhece a sua obra. Aceitaria fazer a sua biografia?”

Sabem quando alguém pousa um pote de ouro à nossa frente e ainda duvidamos da nossa sorte? Foi o que aconteceu comigo naquele dia. Por mais projectos que tivesse em curso, nunca se rejeita a oportunidade de fazer a biografia de alguém que é, ao mesmo tempo, tão famoso e misterioso como Ezra Manishewitz. Aceitei de imediato, e Ezra exibiu um sorriso de orelha a orelha. Combinámos que ele escreveria as suas memórias e que me enviaria por carta a partir de Nova Iorque. Ficou também combinado que o visitaria na Primavera, caso a sua agenda permitisse. Recebi a sua primeira carta duas semanas depois, e abri-a com uma excitação quase infantil. Tinha quase dez páginas, escritas num inglês básico e numa letra quase incompreensível. Resumo aqui as partes mais importantes.


Nasci a 16 de Abril de 1930, em Cracóvia. O meu pai era professor de piano. A minha mãe tinha sido aluna dele e também tocava muito bem. Comecei a tocar muito cedo. Lembro-me de que, aos cinco anos de idade, o meu pai organizou uma pequena audição privada para alguns conhecidos. Eu nem altura tinha para chegar aos pedais: toquei ao colo dele, sendo ele próprio a carregar nos pedais. Lembro-me da paz e serenidade que havia na altura. Pouco depois começou a ouvir-se os ecos de que alguma coisa se iria passar na vizinha Alemanha. Convencemo-nos de que a  França e a toda-poderosa Inglaterra  não iriam permitir que tudo voltasse a acontecer, mas parecia que o mundo tinha fechado os olhos. Em 1938 começaram a chegar notícias de perseguições ao meu povo na Alemanha. Chamaram-lhe o pomposo nome de Noite de Cristal. Sinagogas e negócios de Judeus foram queimados e milhares de pessoas foram presas. Eu tinha oito anos e lembro-me de que o meu pai reuniu toda a família para rezarmos uma oração pelos nossos irmãos na Alemanha. Uma noite ouvi-o dizer à minha mãe que os alemães iam invadir a Polónia e que o mais seguro seria fugirem para a Bélgica. Ela, que já na altura tinha uma saúde bastante debilitada, disse-lhe que ele deveria fazê-lo, para salvar os filhos. Ele percebeu que iria sozinho e, por amor, não o fez. 

Em 1939 Hitler invade a Polónia, forçando a Inglaterra a declarar guerra à Alemanha. Tudo mudou. Ficámos confinados a uma zona da cidade. O meu pai deixou de ter alunos e foi forçado a procurar trabalho numa fábrica. Chegava a casa cansado e amargurado. Nunca mais o ouvi tocar. 

Lembro-me da minha mãe estar a coser uma horrível estrela amarela na nossa roupa. Mesmo com a sua saúde debilitada, nunca a tinha visto chorar, mas nesse dia as lágrimas escorriam-lhe pela cara. Passado um mês, o meu pai não voltou para casa. Algumas pessoas avisaram a minha mãe. Tinham-no visto a ser preso por soldados da Wehrmacht.  Nunca mais o vi. O meu tio tomou conta de nós. A minha mãe continuou a dar-nos aulas de piano. Todos os dias tinha de tocar duas outras três horas, sempre com os olhos postos na porta, à espera que o meu pai entrasse para nos abraçar. Até que perdi a esperança de o voltar a ver. Isso foi pouco tempo antes de eu ser espancado na rua por um oficial da Wehrmacht. Tinham descoberto que eu levava dois pães escondidos debaixo do casaco. Queriam saber onde o tinha ido buscar, mas eu não disse, por isso deram-me pontapés na cabeça. Deixaram-me caído na rua, numa poça do meu próprio sangue. 

Quando acordei estava na minha cama, a minha mãe usava os restos de um lençol para me fazer o curativo. Mexia a boca e devia estar a falar, mas eu só ouvia um zumbido intenso. Senti o seu pânico quando se apercebeu do meu estado de surdez. Mais do que o meu próprio estado de ansiedade, queria sossegá-la. Eu tinha 9 anos, na altura, mas a guerra obriga-nos a crescer. Não saber do paradeiro do meu pai obrigou-me a crescer. Eu só tinha a minha mãe e os meus irmãos. Agora nem tinha sequer a minha música. Lembro-me da primeira vez que me sentei ao piano depois de ficar surdo. Carreguei numa tecla e não ouvi nada para além do maldito zumbido que se sobrepunha a todos os sons que amava. Já não conseguia ouvir a voz da minha mãe nem o riso dos meus irmãos. Não conseguia ouvir o som do piano. Com uma raiva imensa massacrei o teclado, tocando de memória uma peça de Mozart.  Percebi que, se não conseguia ouvir, o meu corpo conseguia sentir o som. Era como se estivesse a ouvir, mas não com os meus ouvidos. Sentia a vibração. Creio que renasci nesse dia e esse sentimento acompanhou-me toda a vida. 

(...)

Lembro-me do meu tio entrar pela porta dentro, já de noite, com um nervosismo que não conhecia. Percebi que os meus irmãos já estavam preparados para viajar. Íamos fugir. Lá fora estava um carro negro, onde já estavam os meus primos e a minha tia. Senti que havia algo que não estava bem, no olhar da minha mãe. Percebi que ela não iria e agarrei-me a ela, supostamente aos berros, porque nem os meus próprios berros conseguia ouvir. Tiveram de me arrancar dos braços dela à força. Foi a última vez que a vi. Ela estava triste, mas não chorava – secara as lágrimas de tanto chorar em segredo, nos últimos meses. Entrei para o carro com os olhos postos na nossa casa, até deixar de a ver na primeira curva do caminho. Fora dos limites da cidade juntámo-nos a um grupo chefiado pelo rabi Chaim Tzvi Kruger. Fomos para Bruxelas e depois percorremos diversos consulados portugueses, misturados na multidão de pessoas em fuga. A notícia que corria era a de que em Bordéus havia um cônsul português que estava a dar vistos temporários. Fomos para lá e ficámos diversos dias na fila, até que o rabi conseguiu convencer o cônsul, Aristides Sousa Mendes, a conceder vistos para todos, contrariando a sua vontade inicial que era a de conceder vistos apenas ao rabi e à sua família. Eu estava com os meus tios e observava toda a agitação sem perceber nada do que se passava. Assim que teve o seu visto na mão, o meu tio separou-se do grupo do rabi. Tinham decido tentar chegar a Portugal por sítios diferentes. O meu tio ficou mais alguns dias em França. Quando finalmente tentou passar a fronteira, descobriu que as autoridades espanholas tinham cancelado os vistos. O meu tio ficou destroçado. Estávamos todos na estrada, junto à fronteira, quando vimos chegar um carro com a bandeira portuguesa. Parou à nossa beira. O passageiro no banco de trás desceu o vidro. Reconheci o cônsul português imediatamente, no seu fato branco. Tinha o semblante carregado. Parecia doente. Falou com o meu tio. Olhou para nós. Nunca vou esquecer esse olhar. Quando dei por mim estávamos todos dentro do carro diplomático, a atravessar a fronteira. A minha vida começou naquele momento. Carregava comigo apenas as saudades dos meus pais, o cheiro do bolo de maçã que a minha mãe fazia e os longos passeios de bicicleta que dava com os meus irmãos. 

Chegámos a Lisboa e esperámos pelo avião que nos levaria para os Estados Unidos. 

(...)


 Terminei a leitura absolutamente exausto. Esperei ansioso por uma segunda carta, que chegou seis meses depois da primeira. Anunciava que Ezra tinha morrido durante a noite, com um ataque cardíaco fulminante. Estava, finalmente, em silêncio.



_________________________

Nota do autor: Embora Ezra Manishewitz seja uma personagem fictícia, nem o Rabi Chaim Tzvi Kruger nem Aristides Sousa Mendes são personagens fictícias. Escrevi este texto como uma singela homenagem a Aristides Sousa Mendes, um homem cujos princípios se sobrepunham às suas obrigações e ao sofrimento de um povo que nunca será demais recordar, para que nos sirva de lição.    

 

Jorge Santos 

Outubro de 2020

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Os dois destinos de Anália




Anália (com N) encontrou a morte numa noite fria de Outono. Ou a morte encontrou-a já caída na rua, o sangue escorrendo abundantemente de sete feridas profundas provocadas pelo punhal de um amante em fúria. O dia começara estranhamente feliz, eles num estreito abraço onde o mundo parecia fazer sentido para a caixa de supermercado de 27 anos. Ela tinha um segredo. Guardara-o em silêncio durante as últimas semanas, receosa da reacção de Fábio. Mas como se guarda o silêncio da vida que lhe crescia no ventre? Naquela noite contar-lhe-ia e seriam felizes, os três.

Na esplanada da Brasileira, Manuel releu o que tinha escrito. Aquele era o início de um livro policial que tinha em mente há alguns meses. Cravou o isqueiro à empregada de cabelo multicolor que sem o saber seria uma das personagens do livro. Ele limitou-se a agradecer no seu cinismo habitual que a crítica não lhe poupava. Diziam que nas veias dele já não jorrava sangue mas apenas tinta, mas ele estava-se a cagar: desde que os livros vendessem, podia-lhe jorrar no sangue até a vodka com que se encharcava todas as noites.
Uma rapariga aproximou-se. Era magra, tinha uma tatuagem grosseira no braço. Os olhos eram pequenos, quase sumidos. Estavam fixos nele e transpareciam uma raiva imensa. “Porreiro, mais uma leitora ofendida”, pensou Manuel, apenas um segundo antes que ela se sentasse à sua frente.
– Desculpe, mas não me lembro de a conhecer nem de a convidar a sentar-se. – Exclamou, com uma raiva evidente.
– Chamo-me Anália. Aquela que acabou de matar.
Manuel ficou em silêncio durante alguns segundos.
– Estou, portanto, à frente de uma personagem de um dos meus livros. Ou será isto uma brincadeira de mau gosto?
– O Fábio ama-me. Pode ter os seus defeitos, como todas as pessoas. Mas o senhor, como monstro que é, decidiu que eu devo morrer logo à noite, depois de lhe contar que estou grávida.
– É apenas uma história de ficção.
Uma história de ficção, uma grandecíssima ova! Eu estou viva. Sou real. Pelo menos até logo à noite.
– Já percebi. E o que pretende?
– Pretendo o que toda a gente quer: a felicidade. Quero poder viver e ser mãe. Só isso.
Manuel olhou para ela. Para a personagem do seu livro que estava perfeitamente desesperada. A ideia de alterar o livro era perfeitamente disparatada – ele precisava de um crime. Só assim fazia sentido um livro policial. Não estava no ADN dele fazer histórias cor de rosa ou numa gradação de cinzento. Acreditava piamente que, por algum motivo, estava à frente da personagem do seu livro. Convivia com a ficção diariamente, pelo que não lhe custava pensar nessa possibilidade. Via até a possibilidade dele próprio não passar de uma personagem de um texto de um autor qualquer de qualidade duvidosa.
– Muito bem, deixe-me pensar nisso. A sua personagem vai viver, não sei muito bem como. Tenho de alterar tudo.
Anália sorriu e levantou-se. Deu a Manuel um beijo na face e afastou-se. Manuel acendeu finalmente o cigarro e consultou o relógio. Estava a ficar atrasado. Fechou o portátil e guardou-o na pasta de couro Louis Vuitton que comprara em Paris no Natal passado. Pagou e dirigiu-se ao parque de estacionamento. Sentiu passos atrás de si. Pensou que fosse um dos muitos turistas que calcorreavam Braga em qualquer altura do ano. Virou-se e deu de caras com um homem novo, dos seus trinta e poucos anos, que investiu sobre ele. Manuel sentiu uma pressão enorme na barriga. Viu o sangue e o aço da navalha a sair-lhe do corpo, depois de lhe rasgar a carne. O agressor deu-lhe mais seis golpes antes de aproximar a boca do ouvido de Manuel e sussurrar-lhe: “Isto é para aprender a não se meter com a mulher dos outros”.


FIM