domingo, 4 de setembro de 2022

A metamorfose de José da Conceição



Foi na festa do seu 40º aniversário que José da Conceição tomou consciência de nunca ter deixado que alguém o tratasse por “Zé”. Da mesma forma, e talvez por isso, ainda era virgem. Até chamar de “festa” a festa de aniversário era um exagero: não passava de um simples jantar com a mãe e a tia Januária, uma senhora com setenta e muitos anos que escapava à morte como o cu fugia à seringa.

O José vivia com a mãe, Maria da Conceição. O pai, António da Conceição, foi pedreiro até ao dia em que as costas o traíram. Quando se viu forçado a ficar em casa e a depender da mulher, António foi-se em menos de um ano, entregue a borracheiras que se tornaram lendárias na vizinhança.

José foi para o seminário para regozijo da mãe, beata por vocação. Tinha sérias dúvidas sobre a sua vocação para padre, mas não queria contrariar a mãe, que se sacrificara para o criar quando ainda estava em idade para procurar outros destinos. A única vez que o fez foi quando, poucos anos depois, decidiu desistir do seminário, após chegar à conclusão de que não gostava que lhe dissessem o que pensar, como pensar e onde pensar, a cada instante da sua vida. Deu por isso um desgosto à mãe, prometendo a ele próprio que nunca mais aconteceria na vida. Não se deu conta de que, a partir desse dia, seria a mãe a dizer-lhe o que pensar, como pensar e onde pensar, a cada instante da sua vida. 

Quando concluiu o ensino médio, empregou-se numa firma de construção civil como escriturário. Tinha um horário fixo e trabalho. Raramente falava com os colegas, preferindo ficar em silêncio o dia todo, matraqueando a máquina de escrever. Duas vezes por semana acompanhava a mãe à igreja e cantava no coro. Quando regressava a casa sozinho e era abordado pelas prostitutas, mantinha-se calado ou chegava mesmo a fugir. Tudo o que via na rua era o que a mãe apelidava de podridão e pecado. Preferia fechar os olhos e enterrar a cabeça numa areia virtual, como faziam as avestruzes, deixando que a vida lhe passasse ao lado, escorrendo lentamente, dia após dia, até este momento. Pode dizer-se que, aos 40 anos, José acordou de uma longa e auto-infligida letargia.

Entra em cena Madalena, recém-chegada de outras paragens. Prima de Luzia, namorada de Gastão, primo de José. Mais por brincadeira do que a sério, decidiram juntar os dois, sabendo de antemão que se tratava de duas pessoas de naturezas opostas. Ele, um beato convicto, a pessoa mais quadrada que alguma vez existira; ela, uma artista que vivia do que vendia na rua, um espírito livre. Tinha tido uma série de desgostos amorosos e não procurava ninguém que lhe terminasse a solidão. Vivia com o seu cão e isso chegava-lhe para armar a confusão.

Luzia e Gastão convidaram-nos para jantar em casa deles, inventando um pretexto qualquer. A mãe do José não quis ir, inventando, também ela, um pretexto qualquer. José sabia a verdadeira razão: Gastão e a Luzia não eram casados e já tinham um filho. Viviam, no entendimento da senhora, em pecado e em rota de colisão com Deus, direitos ao Inferno, sem passar pela casa de Partida nem receber 2000, como diziam no Monopólio.

No final do jantar são deixados a sós, apenas José e Madalena na pequena sala do igualmente pequeno apartamento de Loures.

– Estão à espera que nos conheçamos – disse José, para quebrar o incómodo silêncio que se instalara na sala de jantar.

Madalena ri-se. Tem um riso ingénuo, quase infantil. É o riso próprio de quem não tem de prestar contas a ninguém, pensou José.

– São uns queridos. E o José, o que faz?

– Sou escriturário. Agora brinco com janelas no computador. Aquilo dá-me cabo da cabeça. Preferia a máquina de escrever.

– Pois eu escrevo mesmo à mão, no papel que em própria faço. Sou artesã, trabalho com barro, metal e papel. Também pinto, mas não sou grande pintora.

– A minha mãe diz que a arte não é um emprego a sério.

– Não? E tem razão… Não é um emprego, é uma paixão. O José tem alguma paixão?

José ia dizer que não, mas depois voltou atrás.

– Gosto de música. O meu pai tocava acordeão e ensinou-me algumas coisas. Depois que ele morreu, o acordeão é meu, mas a minha mãe não gosta que eu toque.

– Deixe-me adivinhar: a música também não é um emprego a sério?

José sorriu.

– Para além disso, o som do instrumento lembra-lhe o meu pai.

– Portanto, o José não toca porque a sua mãe não quer. Há alguma coisa que o José faça que a contrarie?

José abanou a cabeça. Explicou a saída do seminário e a promessa que tinha feito.

– Ela é a mulher mais forte que conheço.

– Mas o José tem direito a viver a sua vida. Ela já vive a vida dela conforme ela quer e entende. Não tem direito a impedir-lhe as suas paixões.

No regresso a casa, depois de se despedir, o José ia com a cabeça carregada com pensamentos novos e a lembrança do sorriso puro de Madalena. Tudo o que ele gostava de fazer, fazia-o pela mãe. A forma de vestir, de comer, de agir, era tudo à medida da mãe. Ele não passava de uma sombra.  

Decidiu começar a mudança na manhã seguinte, sábado.

Primeiro, recusou acompanhar a mãe às compras. Desculpou-se dizendo que não se sentia bem. Ela estranhou, ficando com a pulga atrás da orelha, mas depois saiu de casa, batendo a porta com desconfiança. José tirou o acordeão da caixa onde estava fechado há três anos e trancou-se no quarto. Sentou-se na cama e pegou no acordeão. Limpou-o cuidadosamente, como o pai lhe tinha ensinado. Depois passou o braço pela alça de couro a cheira a bolor e sentiu os botões de madrepérola. Começou a tocar.

Os primeiros sons foram surpreendentes. Os gatos miaram, os cães dos vizinhos ladraram em coro com os berros de reclamação dos próprios donos. Ele sempre gostara de tocar, o que não significava que o fizesse bem. Afinal, uma paixão significa apenas uma promessa, um contrato emocional – não implica qualquer tipo de milagre. 

Passada uma hora, mais minuto, menos minuto, a mãe chegou das compras e bateu furiosamente à porta fechada do quarto

– José, pára imediatamente que os vizinhos vão chamar a polícia!

– Está bem, mãe.

José parou. Guardou o instrumento na caixa e abriu a porta.

– Desculpe, mãe.

José deu um beijo de reconciliação, mas, na primeira oportunidade, saiu de casa com a caixa do acordeão na mão, apanhou a camioneta para o monte mais próximo, onde só as cabras podiam protestar. Depois de algumas horas a praticar, teve de dar a mão à palmatória: era mau e sozinho nunca evoluiria, pelo que se inscreveu nas aulas de acordeão.

No dia seguinte, parou numa loja de roupa. Chegou a casa num estilo mais desportivo, que o tornava bastante mais novo. A mãe desconfiou logo da Madalena, que, segunda ela, era uma mulher da má vida, uma rameira que queria desviar o filho do caminho da virtude. Na realidade, Madalena era um pretexto para que José regressasse do trabalho pelo caminho mais longo. Duas vezes por semana tinha aulas de acordeão. Abandonou o coro, mas continuava a acompanhar a mãe à igreja.  

Numa tarde,  José pediu a Madalena que o ensinasse a trabalhar o barro.

– O meu avô era artífice. A minha mãe não gosta de recordar isso porque foi o que a minha avó lhe dizia, porque o dinheiro era sempre pouco naquela casa. Mas ele sempre amou a arte. Ensina-me.

– Vais-te sujar, José.

– Não importa… a água limpa.

Houve uma troca de risos. Algumas semanas depois, deram o primeiro beijo e partilharam a mesma cama. Ele tinha a perfeita noção de que estava a pecar. A questão era que o caminho da virtude ele já conhecia, mas nunca o levara a lugar nenhum.

A mãe berrou quando ele decidiu sair de casa. Tentou chamar-lhe a razão, mas ele estava decidido a mudar de vida. Foi viver com Madalena, saiu da empresa, tornou-se artista e músico de rua. Juntos, correram o país de lés a lés. Tiveram o primeiro filho em Reguengos, o segundo no Porto. Em todo o lado conhecia gente, que é o que normalmente acontece quando se escancara a porta para a vida. Agora é conhecido como o Zé do Acordeão e gosta de ser chamado assim.


domingo, 3 de julho de 2022

O Executivo




O Jaguar atravessou a selva citadina num passo rápido, com a segurança própria de quem sabe que a cidade lhe pertence. No interior do habitáculo impecavelmente climatizado, o executivo tinha pressa em chegar a casa, depois de mais um dia de massacrantes reuniões. Ter uma conta bancária com sete dígitos implicava algumas cedências. Sorriu. Um som indicou uma chamada. Uma voz feminina fez-se ouvir no sistema de som, substituindo o Konzert für 2 violinen de Bach. A esposa ia sair novamente com as amigas. A filha estava em Espanha. O filho no Algarve. Era um dos raros momentos em que podia dizer que estava sozinho e, ao contrário do comum dos mortais, o Executivo considerava a solidão como sendo um bem precioso. 

Tinha sido assim desde sempre, sem tempo para nada. Os pais queriam que ele fosse o melhor em tudo. Piano, Inglês, Francês, explicações. Ao fim de semana tinha de os acompanhar nos eventos sociais onde era apresentado às pessoas mais desinteressantes que pensava existirem no mundo. Ao crescer deu-se conta do seu erro: o número de pessoas desinteressantes era infindável, enquanto que as pessoas realmente interessantes era ridiculamente pequeno e raramente consideravam os executivos como pessoas minimamente interessantes. Para as pessoas que o surpreendiam, o dinheiro, o poder, o carro ou a casa eram completamente irrelevantes. No mundo dele, eram essas as únicas coisas que interessavam.  

Chegou ao portão da casa, que abriu pelo telemóvel. Abriu também a porta da garagem, onde normalmente estava o Mercedes da mulher e o BMW eléctrico da filha. Estranhou os espaços vazios, mas era uma estranheza agradável. Reconheceu a falta do vazio na sua vida, tal como tinha notado antes a falta de solidão. Estacionou o Jaguar e saiu. Percorreu o corredor que automaticamente acendia as luzes à sua passagem. Afinal, não estava sozinho, havia outra entidade inteligente em casa. Por mais artificial que fosse a sua inteligência, era sempre diferente do que falar para as paredes. Pelo menos a casa respondia-lhe. 

Percorreu os corredores luxuosos até chegar ao seu destino, uma porta com um teclado numérico. Digitou o código com a mão direita, tapando-a com a mão esquerda como fazia normalmente, não fosse haver uma câmera escondida. Entrou numa divisão relativamente pequena, cuja luz acendeu manualmente. Ali, o técnico que tratara dos automatismos da casa não tivera acesso. Nem sequer a mulher ou os filhos, quanto mais o técnico… Tinha sido indicado no contrato que tinha feito com a esposa. Ele tinha de ter uma divisão da casa só para ele. Tinha de ter direito aos seus segredos. Ela fartara-se de reclamar, mas o Executivo mostrou a mesma fibra que demonstrava nas reuniões dos Conselhos de Administração.  

Tirou a gravata, deixando-a espalhada pelo chão. Isso seria um sacrilégio no entendimento da esposa, bem como a cerveja gelada que tirou do frigorífico. Para ela, só podia haver vinho naquela casa. Cerveja era coisa de gente pobre. Ele sorriu. Depois abriu a garrafa com um isqueiro. Simulou um brinde à esposa e aproximou-se da mesa onde estava uma construção gigantesca feita de Legos. Sentou-se, tirou algumas peças coloridas de uma caixa e, depois de algum planeamento, dedicou-se à sua actividade favorita: a recuperação da infância.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O edifício

O edifício desenhava-se na noite, ao mesmo tempo imponente e sóbrio. Olhei para os lados, antes de atravessar a rua pela parte menos iluminada. Ao contrário do que era habitual, não se via ninguém - nem pessoas, nem carros. O silêncio incómodo era o meu único companheiro. Sabia os riscos que corria se fosse apanhado pela polícia. O meu pai teria sido contra esta ideia, tal como tinha sido contra a maioria das minhas ideias. Eu era Ateu praticante. Apreciava a prosa profana de Bukowski e a instabilidade poética de Pessoa. Ele, Comunista convicto, tinha como sagrados apenas três livros: a Constituição da República Portuguesa, o Manifesto Comunista e o Novo Testamento. Ao contrário de alguns dos seus co-religionários, aceitava Cristo como o primeiro dos Comunistas. Eu era adepto do Benfica, ele fanático do Sporting, que só não pintou de verde todo o nosso pequeno apartamento de Algés porque a minha falecida mãe bateu o pé. Ex-militar de Abril, lutara por essa mesma liberdade que agora tínhamos perdido, no Estado de Emergência pandémico que atravessávamos. Se eu fosse apanhado na rua, depois da hora do recolhimento obrigatório, teria de pagar uma multa para a qual não tinha dinheiro – por conseguinte, problema resolvido. Se fosse apanhado dentro do edifício que me propunha invadir, seria preso e faria as primeiras páginas dos matutinos. 

Magda esperava por mim na esquina, conforme combinado. Entraria como se eu fosse, tal como ela, um funcionário do turno da noite. Mesmo à luz fraca do candeeiro da rua, conseguia ver o cansaço acumulado no seu rosto. Era uma boa amiga, porque só os bons amigos se comprometem quando estamos desesperados: e eu estava. 

Entrei com ela à socapa, pela porta menos vigiada do edifício. Indicou-me o vestiário. Eu trazia o uniforme num saco de plástico. Lá dentro, um homem trocava de roupa. Cumprimentei-o com naturalidade. Por dentro, o meu coração parecia explodir. Vesti o uniforme e saí do vestiário e segui Magda pelos corredores do hospital. O bulício contrastava com a desertidão do exterior. Ninguém tinha tempo para reparar em mim, vestido, tal como eles, com a bata, a touca e a máscara. Magda indicou-me o quarto onde o meu pai estava ligado ao ventilador, em coma induzido. Banhado em lágrimas, dei-lhe um abraço. O último.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

A Estátua Infinita

     O poeta pensa na vida, na sua estranha imobilidade tensa. O pálido sol bate-lhe na cabeça, o vento abana os ramos do carvalho debaixo do qual pararam a sua cadeira de rodas. O poeta ainda é novo, como todos os poetas. O seu pensamento perde-se no infinito, longe do seu corpo atrofiado pela esclerose. Ainda sonha, ao contrário de muitos que abandonaram a luta. Cada dia é um novo dia. Regressa do infinito. Dá um toque no comando da cadeira, que se mexe exactamente cinco centímetros na direcção certa, e a estátua em que se transformou há dez anos mexe-se. Esboça um ténue sorriso. Uma criança passa a correr. Pára. Interroga-se sobre aquele estranho velho, sentado na cadeira, com as finas pernas amaradas uma à outra. O contraste é evidente e emociona o poeta. A poesia e o sonho são as únicas coisas que têm de comum. Imagina uma estrofe. A mais bela de todas. Nela se interliga a vida, o sonho e a vontade de viver. Um sonho infinito, tal como é infinita a vontade de ser. A criança desaparece. Sentado no seu pedestal, o poeta acredita mesmo que nunca terá existido. Não passa de uma miragem num deserto sem gente. 

    A sua atenção prende-se agora num jovem que se senta num banco de jardim à sua frente, a atenção dominada pelo seu telemóvel, num autismo voluntário. O mundo resumido a um rectângulo de 5” na diagonal. O poeta abana a cabeça. Rezaria pelas almas desatentas e pelos destinos perdidos, caso não se tivesse divorciado de Deus aos 15 anos, numa sexta-feira de chuva. O ateu é um triste solitário que só tem diálogos internos com ele próprio. Ouve música. Uma batida constante, irritante, neutra, intoxicante. Pum. Pum. Pum. A alma dilacera-se, desintegra-se a cada pum. Um casal senta-se ao lado do poeta. São pouco mais velhos do que o jovem que levanta o olhar para se fixar no decote avantajado da rapariga. Sempre há esperança, pensa o poeta. O namorado dela não gosta da brincadeira. Insinua uma cena, a rapariga acalma-o, o jovem faz um gesto apaziguador. Nada acontece. A música continua. O poeta percebe que vem da mochila do namorado da rapariga.  Não consegue pensar. Eles riem. Beijam-se. Acariciam-se. Para eles, o poeta não passa de uma estátua, não existe. Refugia-se novamente no infinito. Os ecos da música tornam-se efémeros, distantes. Estranhamente agradáveis. Ele está de pé. No infinito, o corpo obedece a todos os pedidos. A juventude é o infinito, percebe o poeta. Gostaria de conseguir falar para explicar ao jovem casal esta epifania, mas percebe, pelo silêncio, que eles já não estão lá. O poeta percebe que o jovem fixa o seu olhar nele. Vê-lhe o brilho da curiosidade. Há esperança, pensa o poeta, mais contente. 

    A menina regressa, com os pais. Faz uma festa ao passar pelo poeta. Ele sorri. Há algo de puro na infância que perdemos ao longo da vida. O amadurecimento é uma armadilha, um logro. A velhice uma fraude. A infância é a única fase das nossas vidas onde somos, realmente, nós próprios. 

    Viemos do pó e, no final, somos todos transformados em poeira cósmica. No infinito. 


Jorge Santos
1 de Março de 2021

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Uma estrela amarela

 Tive o privilégio de entrevistar Ezra Manishewitz por ocasião do único concerto que o pianista deu no auditório da Aula Magna em Lisboa. Foi, talvez, a entrevista que mais me marcou na minha carreira de jornalista. Ezra já passava dos setenta anos de idade, mas tinha um olhar bastante jovial e uma energia invulgar que explodia quando se sentava ao piano. Ouvi-lo ao vivo foi uma experiência mesmerizante. Ele confundia-se com o piano, tornavam-se um ser único, mas nada disso importava, apenas a música que não conseguia deixar ninguém indiferente. Encontrámo-nos no bar do hotel onde ficara hospedado. Cumprimentei-o. A sua mão era extraordinariamente forte, quase um contra-senso para a sensibilidade musical que tinha. Mais parecia a mão calejada de um mineiro. Lucy, a sua intérprete de linguagem gestual, apresentou-se. Ezra sofria de surdez profunda desde a infância, isso não o impedia de ser um dos melhores pianistas do mundo. Respondeu às minhas perguntas com uma calma e um sorriso que nunca o abandonava. Quando terminámos, bebemos os três uma taça de champanhe francês. 

“O Sr. Ezra tem um pedido especial para lhe fazer”, disse-me Lucy. Fiquei surpreendido. Sabia que Ezra era uma pessoa reservada, bastante cioso da sua vida privada. 

“Ele tem uma dívida de gratidão para com o seu país. Gostaria de retribuir. E o senhor pode ter um papel importante nisso. Ele conhece a sua obra. Aceitaria fazer a sua biografia?”

Sabem quando alguém pousa um pote de ouro à nossa frente e ainda duvidamos da nossa sorte? Foi o que aconteceu comigo naquele dia. Por mais projectos que tivesse em curso, nunca se rejeita a oportunidade de fazer a biografia de alguém que é, ao mesmo tempo, tão famoso e misterioso como Ezra Manishewitz. Aceitei de imediato, e Ezra exibiu um sorriso de orelha a orelha. Combinámos que ele escreveria as suas memórias e que me enviaria por carta a partir de Nova Iorque. Ficou também combinado que o visitaria na Primavera, caso a sua agenda permitisse. Recebi a sua primeira carta duas semanas depois, e abri-a com uma excitação quase infantil. Tinha quase dez páginas, escritas num inglês básico e numa letra quase incompreensível. Resumo aqui as partes mais importantes.


Nasci a 16 de Abril de 1930, em Cracóvia. O meu pai era professor de piano. A minha mãe tinha sido aluna dele e também tocava muito bem. Comecei a tocar muito cedo. Lembro-me de que, aos cinco anos de idade, o meu pai organizou uma pequena audição privada para alguns conhecidos. Eu nem altura tinha para chegar aos pedais: toquei ao colo dele, sendo ele próprio a carregar nos pedais. Lembro-me da paz e serenidade que havia na altura. Pouco depois começou a ouvir-se os ecos de que alguma coisa se iria passar na vizinha Alemanha. Convencemo-nos de que a  França e a toda-poderosa Inglaterra  não iriam permitir que tudo voltasse a acontecer, mas parecia que o mundo tinha fechado os olhos. Em 1938 começaram a chegar notícias de perseguições ao meu povo na Alemanha. Chamaram-lhe o pomposo nome de Noite de Cristal. Sinagogas e negócios de Judeus foram queimados e milhares de pessoas foram presas. Eu tinha oito anos e lembro-me de que o meu pai reuniu toda a família para rezarmos uma oração pelos nossos irmãos na Alemanha. Uma noite ouvi-o dizer à minha mãe que os alemães iam invadir a Polónia e que o mais seguro seria fugirem para a Bélgica. Ela, que já na altura tinha uma saúde bastante debilitada, disse-lhe que ele deveria fazê-lo, para salvar os filhos. Ele percebeu que iria sozinho e, por amor, não o fez. 

Em 1939 Hitler invade a Polónia, forçando a Inglaterra a declarar guerra à Alemanha. Tudo mudou. Ficámos confinados a uma zona da cidade. O meu pai deixou de ter alunos e foi forçado a procurar trabalho numa fábrica. Chegava a casa cansado e amargurado. Nunca mais o ouvi tocar. 

Lembro-me da minha mãe estar a coser uma horrível estrela amarela na nossa roupa. Mesmo com a sua saúde debilitada, nunca a tinha visto chorar, mas nesse dia as lágrimas escorriam-lhe pela cara. Passado um mês, o meu pai não voltou para casa. Algumas pessoas avisaram a minha mãe. Tinham-no visto a ser preso por soldados da Wehrmacht.  Nunca mais o vi. O meu tio tomou conta de nós. A minha mãe continuou a dar-nos aulas de piano. Todos os dias tinha de tocar duas outras três horas, sempre com os olhos postos na porta, à espera que o meu pai entrasse para nos abraçar. Até que perdi a esperança de o voltar a ver. Isso foi pouco tempo antes de eu ser espancado na rua por um oficial da Wehrmacht. Tinham descoberto que eu levava dois pães escondidos debaixo do casaco. Queriam saber onde o tinha ido buscar, mas eu não disse, por isso deram-me pontapés na cabeça. Deixaram-me caído na rua, numa poça do meu próprio sangue. 

Quando acordei estava na minha cama, a minha mãe usava os restos de um lençol para me fazer o curativo. Mexia a boca e devia estar a falar, mas eu só ouvia um zumbido intenso. Senti o seu pânico quando se apercebeu do meu estado de surdez. Mais do que o meu próprio estado de ansiedade, queria sossegá-la. Eu tinha 9 anos, na altura, mas a guerra obriga-nos a crescer. Não saber do paradeiro do meu pai obrigou-me a crescer. Eu só tinha a minha mãe e os meus irmãos. Agora nem tinha sequer a minha música. Lembro-me da primeira vez que me sentei ao piano depois de ficar surdo. Carreguei numa tecla e não ouvi nada para além do maldito zumbido que se sobrepunha a todos os sons que amava. Já não conseguia ouvir a voz da minha mãe nem o riso dos meus irmãos. Não conseguia ouvir o som do piano. Com uma raiva imensa massacrei o teclado, tocando de memória uma peça de Mozart.  Percebi que, se não conseguia ouvir, o meu corpo conseguia sentir o som. Era como se estivesse a ouvir, mas não com os meus ouvidos. Sentia a vibração. Creio que renasci nesse dia e esse sentimento acompanhou-me toda a vida. 

(...)

Lembro-me do meu tio entrar pela porta dentro, já de noite, com um nervosismo que não conhecia. Percebi que os meus irmãos já estavam preparados para viajar. Íamos fugir. Lá fora estava um carro negro, onde já estavam os meus primos e a minha tia. Senti que havia algo que não estava bem, no olhar da minha mãe. Percebi que ela não iria e agarrei-me a ela, supostamente aos berros, porque nem os meus próprios berros conseguia ouvir. Tiveram de me arrancar dos braços dela à força. Foi a última vez que a vi. Ela estava triste, mas não chorava – secara as lágrimas de tanto chorar em segredo, nos últimos meses. Entrei para o carro com os olhos postos na nossa casa, até deixar de a ver na primeira curva do caminho. Fora dos limites da cidade juntámo-nos a um grupo chefiado pelo rabi Chaim Tzvi Kruger. Fomos para Bruxelas e depois percorremos diversos consulados portugueses, misturados na multidão de pessoas em fuga. A notícia que corria era a de que em Bordéus havia um cônsul português que estava a dar vistos temporários. Fomos para lá e ficámos diversos dias na fila, até que o rabi conseguiu convencer o cônsul, Aristides Sousa Mendes, a conceder vistos para todos, contrariando a sua vontade inicial que era a de conceder vistos apenas ao rabi e à sua família. Eu estava com os meus tios e observava toda a agitação sem perceber nada do que se passava. Assim que teve o seu visto na mão, o meu tio separou-se do grupo do rabi. Tinham decido tentar chegar a Portugal por sítios diferentes. O meu tio ficou mais alguns dias em França. Quando finalmente tentou passar a fronteira, descobriu que as autoridades espanholas tinham cancelado os vistos. O meu tio ficou destroçado. Estávamos todos na estrada, junto à fronteira, quando vimos chegar um carro com a bandeira portuguesa. Parou à nossa beira. O passageiro no banco de trás desceu o vidro. Reconheci o cônsul português imediatamente, no seu fato branco. Tinha o semblante carregado. Parecia doente. Falou com o meu tio. Olhou para nós. Nunca vou esquecer esse olhar. Quando dei por mim estávamos todos dentro do carro diplomático, a atravessar a fronteira. A minha vida começou naquele momento. Carregava comigo apenas as saudades dos meus pais, o cheiro do bolo de maçã que a minha mãe fazia e os longos passeios de bicicleta que dava com os meus irmãos. 

Chegámos a Lisboa e esperámos pelo avião que nos levaria para os Estados Unidos. 

(...)


 Terminei a leitura absolutamente exausto. Esperei ansioso por uma segunda carta, que chegou seis meses depois da primeira. Anunciava que Ezra tinha morrido durante a noite, com um ataque cardíaco fulminante. Estava, finalmente, em silêncio.



_________________________

Nota do autor: Embora Ezra Manishewitz seja uma personagem fictícia, nem o Rabi Chaim Tzvi Kruger nem Aristides Sousa Mendes são personagens fictícias. Escrevi este texto como uma singela homenagem a Aristides Sousa Mendes, um homem cujos princípios se sobrepunham às suas obrigações e ao sofrimento de um povo que nunca será demais recordar, para que nos sirva de lição.    

 

Jorge Santos 

Outubro de 2020

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Os dois destinos de Anália




Anália (com N) encontrou a morte numa noite fria de Outono. Ou a morte encontrou-a já caída na rua, o sangue escorrendo abundantemente de sete feridas profundas provocadas pelo punhal de um amante em fúria. O dia começara estranhamente feliz, eles num estreito abraço onde o mundo parecia fazer sentido para a caixa de supermercado de 27 anos. Ela tinha um segredo. Guardara-o em silêncio durante as últimas semanas, receosa da reacção de Fábio. Mas como se guarda o silêncio da vida que lhe crescia no ventre? Naquela noite contar-lhe-ia e seriam felizes, os três.

Na esplanada da Brasileira, Manuel releu o que tinha escrito. Aquele era o início de um livro policial que tinha em mente há alguns meses. Cravou o isqueiro à empregada de cabelo multicolor que sem o saber seria uma das personagens do livro. Ele limitou-se a agradecer no seu cinismo habitual que a crítica não lhe poupava. Diziam que nas veias dele já não jorrava sangue mas apenas tinta, mas ele estava-se a cagar: desde que os livros vendessem, podia-lhe jorrar no sangue até a vodka com que se encharcava todas as noites.
Uma rapariga aproximou-se. Era magra, tinha uma tatuagem grosseira no braço. Os olhos eram pequenos, quase sumidos. Estavam fixos nele e transpareciam uma raiva imensa. “Porreiro, mais uma leitora ofendida”, pensou Manuel, apenas um segundo antes que ela se sentasse à sua frente.
– Desculpe, mas não me lembro de a conhecer nem de a convidar a sentar-se. – Exclamou, com uma raiva evidente.
– Chamo-me Anália. Aquela que acabou de matar.
Manuel ficou em silêncio durante alguns segundos.
– Estou, portanto, à frente de uma personagem de um dos meus livros. Ou será isto uma brincadeira de mau gosto?
– O Fábio ama-me. Pode ter os seus defeitos, como todas as pessoas. Mas o senhor, como monstro que é, decidiu que eu devo morrer logo à noite, depois de lhe contar que estou grávida.
– É apenas uma história de ficção.
Uma história de ficção, uma grandecíssima ova! Eu estou viva. Sou real. Pelo menos até logo à noite.
– Já percebi. E o que pretende?
– Pretendo o que toda a gente quer: a felicidade. Quero poder viver e ser mãe. Só isso.
Manuel olhou para ela. Para a personagem do seu livro que estava perfeitamente desesperada. A ideia de alterar o livro era perfeitamente disparatada – ele precisava de um crime. Só assim fazia sentido um livro policial. Não estava no ADN dele fazer histórias cor de rosa ou numa gradação de cinzento. Acreditava piamente que, por algum motivo, estava à frente da personagem do seu livro. Convivia com a ficção diariamente, pelo que não lhe custava pensar nessa possibilidade. Via até a possibilidade dele próprio não passar de uma personagem de um texto de um autor qualquer de qualidade duvidosa.
– Muito bem, deixe-me pensar nisso. A sua personagem vai viver, não sei muito bem como. Tenho de alterar tudo.
Anália sorriu e levantou-se. Deu a Manuel um beijo na face e afastou-se. Manuel acendeu finalmente o cigarro e consultou o relógio. Estava a ficar atrasado. Fechou o portátil e guardou-o na pasta de couro Louis Vuitton que comprara em Paris no Natal passado. Pagou e dirigiu-se ao parque de estacionamento. Sentiu passos atrás de si. Pensou que fosse um dos muitos turistas que calcorreavam Braga em qualquer altura do ano. Virou-se e deu de caras com um homem novo, dos seus trinta e poucos anos, que investiu sobre ele. Manuel sentiu uma pressão enorme na barriga. Viu o sangue e o aço da navalha a sair-lhe do corpo, depois de lhe rasgar a carne. O agressor deu-lhe mais seis golpes antes de aproximar a boca do ouvido de Manuel e sussurrar-lhe: “Isto é para aprender a não se meter com a mulher dos outros”.


FIM


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Tiro Certeiro

A casa estava praticamente às escuras. Desorientado, Antunes percorre o corredor no silêncio da noite. Ouve um barulho. O coração dispara. Um homem mascarado surge do nada e aponta-lhe uma arma. Acorda agitado, mais uma vez. Já tivera aquele sonho no hospital e não conseguia descortinar o seu significado, como era hábito nos sonhos. No seu caso, no entanto, era mais do que isso: os médicos tinham-no informado de que teria problemas causados pelo traumatismo craniano que sofrera. Não se sabia se esses mesmos problemas seriam definitivos. Aliados às outras sequelas físicas, o diagnóstico era simples: ele, Diogo Antunes,  43 anos, investigador privado, divorciado e falido, estava uma merda.
Pegou na garrafa quase vazia que tinha debaixo da cama. O whisky queimou-lhe a garganta, mas era a única forma que tinha de conseguir pensar. Estava no seu minúsculo apartamento que lhe servia de escritório. Não tinha luz nem água. Estava a um ponto de ser posto na rua: seria mais um mendigo na população de sem-abrigo de Lisboa. Pelo menos já conhecia alguns.
Levantou-se penosamente. Arrastou-se para o quarto-de-banho onde usou a água de um balde para se lavar. O plano para aquele dia era simples. Usar o saldo que ainda tinha no telemóvel para ligar aos clientes que lhe deviam dinheiro. Contactar amigos.
Amigos?
A palavra provocava-lhe o riso. Enquanto estivera internado só fora visitado por um tio que vivia afastado. Estar sozinho no mundo tinha uma vantagem: podia sempre saber com o que podia contar. Sentou-se à secretária e começou a telefonar. Uma e outra vez. O saldo diminuía assustadoramente. Tinha apenas dinheiro para mais uma chamada. José Calado era um industrial do ramo do calçado que desconfiava que a mulher o estava a trair. Diogo aceitou o serviço e descobriu que Inês Calado, mulher deslumbrante, ex-modelo, tinha, efectivamente, um amante. O estranho, neste caso, foi que o amante desaparecera do mapa pouco tempo depois de Diogo descobrir.
Marcou o número. Esperava ouvir uma voz masculina, mas em vez disso ouviu uma voz sedutora.
– Sim?
– Daqui fala Diogo Antunes, sou um conhecido do senhor José Calado. Será que poderia falar com ele? É um assunto privado.
– Eu sei, Diogo, mas o meu marido não pode atender. Por favor, não volte a ligar para este número.
– Mas… – tal como ela ameaçara, a ligação telefónica foi cortada, deixando-o bastante confuso. Ela sabia? Ele tinha a certeza de ter falado com Inês Calado, a quem perseguira durante uma semana. Sabia tudo sobre ela. Tinha-se apaixonado secretamente pela morena alta de olhos negros profundos que enfeitiçavam qualquer homem. Ele conhecia-lhe a voz.
Ela sabia?
Diogo meditou sobre o assunto e depois abanou a cabeça. Tomou a decisão de falar com José Calado. Era a sua única hipótese de ganhar dinheiro. Foi no carro que o tio lhe tinha emprestado até ao Carregado, onde ficava a sede da empresa de José Calado. Ali, pediu na recepção para falar com ele. A menina pareceu surpreendida e informou-o de que José Calado estava numa viagem prolongada aos Estados Unidos. Abatido, Diogo regressou a Lisboa. Havia ali qualquer coisa que não estava bem, pensou, enquanto o motor do carro resmungava pelo caminho.
Parou num café. Carregou a bateria do telemóvel e acedeu à internet da rede WIFI. Pediu um café e um pão com queijo enquanto pesquisava nas redes sociais. Tal como pensava, José Calado não tinha viajado. Ninguém sabia do seu paradeiro e Inês Calado tinha assumido temporariamente o seu cargo nas empresas.   
Um homem menos desesperado teria desistido, mas Diogo Antunes não o fez.
– Posso falar consigo? – perguntou Diogo à funcionária da empresa que o tinha atendido. Ela tinha pouco mais de vinte anos, um aspecto quase angelical e estava genuinamente surpreendida – afinal, não era todos os dias que um desconhecido a abordava no corredor dos congelados no supermercado.
– É o senhor que perguntou pelo Sr. Calado? Não contava vê-lo aqui.
– E eu contava vê-lo a ele naquele dia. Posso pagar-lhe o café?
Ela aceitou. Sentaram-se no café que ficava no mesmo quarteirão do supermercado.
– Por que razão o procura?
– Posso ser franco consigo? É uma questão de vida ou morte. Da minha vida ou morte. Ele contratou-me para seguir a esposa e nunca me chegou a pagar.
Ela abriu muito a boca.
– Parece mais surpreendida do que eu esperava.
– Posso estar a fazer confusão, mas o Sr. Calado enviou o cheque para um investigador privado. Foi de uma conta privada, mas eu tenho acesso. A D. Inês nunca soube disto e também nunca contei à polícia. O Sr. Calado pediu-me para guardar segredo absoluto, mas não sei se fiz bem. Ele continua desaparecido, a polícia já esteve em todo o lado. Pode ser importante.  
– Precisava da cópia do cheque.
Ela acedeu. Combinaram no mesmo café, no dia seguinte. Trazia um envelope fechado.
– Encontre-o, por favor. Não consigo trabalhar com a D. Inês. O Sr. Calado era um bom patrão.
Diogo não prometeu nada. Abriu o envelope e leu a cópia do cheque. Conhecia bem a empresa Silva Esteves. Eram concorrentes dele. A data do cheque era posterior ao serviço que Diogo lhe tinha prestado.
Ele tinha-lhe pago a eles, mas não a ele. Diogo tentou ignorar esse facto. A cabeça doía-lhe terrivelmente. Voltou para casa e tomou um analgésico com mais uma dose de whisky. A última. Atirou a garrafa vazia para o lixo. Tentou pensar. O que ia fazer a seguir era perigoso, mas viver era um risco. Foi a pé até à Silva Esteves para poupar o combustível do carro, era noite cerrada e tinha começado a chover. Diogo levava a gabardina cinzenta escura do seu kit de detective, como costumava chamar-lhe a ex-mulher. Ela tinha umas piadas interessantes, que agora contava a outro.
Abriu a porta da entrada com uma gazua. Subiu as escadas internas. Já tinha estado ali antes, mas nunca à luz da lanterna. Entrou no arquivo e vasculhou até encontrar o que procurava, uma pasta com o nome “José Calado”. Tirou fotografias a todos os documentos com o smartphone e saiu.
A fotografia mostrava Inês Calado a sair de um restaurante com um homem de barba e bigode. Tinham evidente cumplicidade, mas o homem não era o amante que Diogo tinha descoberto. Leu os relatórios. Além da fotografia, eles não tinham descoberto nada. O homem era hábil a evitar deixar vestígios. Um autêntico fantasma. Quanto mais lia, mais Diogo ficava intrigado. Na prática, tinha voltado à estava zero. Só havia uma pessoa que poderia saber do paradeiro de José Calado: a própria esposa. Ninguém lhe conseguia tirar da cabeça de que ela deveria estar implicada no seu desaparecimento. Decidiu segui-la, como faziam nos filmes em Hollywood. O problema é que a realidade do investigador privado era bem menos romântica do que nos filmes. Ele nem dinheiro tinha para se alimentar em condições. Foi com todo o esforço e dedicação que seguiu Inês Calado até ao ponto de lhe conhecer todas as rotinas, nunca descobrindo o misterioso amante. Para todos os efeitos, Inês Calado era uma esposa devota de um marido desaparecido. Repartia o seu tempo entre a empresa, a casa e a igreja onde ia regularmente. Aqui e ali ia ter com amigas a um salão de chá da baixa.
Diogo estava nas últimas, tal como o depósito do carro. Seguiu Inês num sábado à tarde. Ela saiu de Lisboa, passou por Sintra e foi para norte, junto à costa. Ele não tirava os olhos do ponteiro do combustível. Tinha a certeza de que teria de voltar a pé. Não se importou com isso. Se fosse necessário voltaria à boleia, não seria a primeira vez.
A casa ficava no meio do nada, a poucas centenas de metros de uma costa com mar revolto e falésias profundas. A chuva não parava. Diogo parou o carro e seguiu a pé. Caiu um relâmpago que iluminou a casa. Ele espreitou pela janela. No interior, Inês parecia estar sozinha. Diogo deixou-se ficar à chuva. Lá dentro, Inês olhava para o smartphone e parecia divertida. A certa altura, levantou-se, aproximou-se da garrafeira, encheu dois copos e Diogo deixou de a ver. Seria o amante? Seria José Calado? Diogo tirou a pistola da algibeira e destravou-a.
– Isso é para mim? – Perguntou Inês Calado. Ela estava a dois metros dele, com dois copos na mão. A água colava-lhe a roupa ao corpo, o olhar era sensual, irresistível. Chamava por ele como um demónio do inferno. O que é que ele tinha a perder? Aceitou o copo e seguiu-a para o interior da casa.
Ela mostrou-lhe no smartphone a imagem das câmaras de vigilância do exterior. Enquanto ele tinha estado à chuva, ela tinha-se divertido à sua custa.
– O Zé comprou-me esta casa pelo meu aniversário. É o meu refúgio. Fazes-me companhia?
Na mesa da sala havia uma travessa de carne fumegante.
– Estava à minha espera.
– Está como sei que gostas.
Diogo olhou para a carne e reconheceu que ela estava certa. A cada passo tinha um deja vu, aquela sensação incómoda de se sentir que estamos a viver uma situação já vivida. Ele já tinha estado ali.
– Pareces surpreendido, Diogo. Deixamos as perguntas para depois? Estou cheia de fome.
Jantaram. Ele abriu uma garrafa de vinho que sabia ser caro. Olhou para a parede em frente enquanto abria o vinho. Aquela era a parede que via no seu sonho e tinha um espelho. Ao ver a sua imagem reflectida descobriu que o ladrão que via no sonho era ele próprio. Lentamente ia desenrolando toda a história.
– Eu matei-os. – Concluiu Diogo.
– O Inácio era um imbecil que julgou que me podia chantagear. Ninguém sente a falta dele.
– Eu fiz-te um favor.
– Tu fizeste-nos um favor, amor. Tenho pena de que não te lembres.
Ela levantou-se e aproximou-se dele. Fizeram um brinde e beijaram-se. Ele envolveu-a nos seus braços e pegou nela.
– Eu sei o caminho. – Disse ele, subindo as escadas com a cabeça dela encostada à sua. Pelo caminho, revivia o que tinha acontecido. Ele, com uma máscara na cabeça, a fazer-se passar por um ladrão. Subiu as escadas, percorreu o corredor com a arma na mão. Abriu a porta e ali estava José Calado, que dormia ao lado de Inês. Ele apontou a arma à cabeça do industrial e disparou.
Ele tinha matado José Calado. Depois tinham desfeito o corpo num tanque de ácido na garagem, tal como tinham feito antes com Inácio. A cabeça doía-lhe. Sentia um misto de confusão e arrependimento. O que é que isso interessava quando se tinha a mulher dos nossos sonhos a olhar para nós como Inês Calado olhava para Diogo Antunes? Ele cedeu completamente à tentação, ignorando todos os sinais de aviso. Fizeram amor como dois animais no cio. Quando, finalmente, se deram por satisfeitos, ela adormeceu nos braços dele.

– Bom dia, amor.
Era já de dia. Diogo estava apenas coberto pelo lençol branco, deitado exactamente no mesmo sítio onde morrera José Calado. Era tudo claro na sua memória, especialmente o que acontecera depois. Mas nada disso interessava. Inês sorria-lhe e isso faria dele o homem mais feliz do mundo, não fosse a arma que ela lhe apontava à cabeça.
– Foste tu que provocaste o meu acidente. – Disse Diogo, surpreendentemente calmo.
– Não podiam haver pontas soltas. Eu consegui o que queria, livrar-me de um homem que eu odiava profundamente. Tu foste uma peça no puzzle, uma peça que ele próprio me enviou. A pessoa mais idiota que eu alguma vez conheci. Não é à toa que estás falido, Diogo. E nem sabes da aflição que me causaste quando sobreviveste ao acidente. Eu droguei-te. Depois foi só destravar o carro e fazê-lo cair na ravina. Mas tu sobreviveste, apenas com problemas de memória como numa novela de segunda categoria. Agora, tudo vai ficar resolvido. – Diz Inês, com o olhar carregado de ódio.
O tiro ecoou no quarto. O corpo nu de Inês tombou inanimado no chão. O tiro certeiro que Diogo disparara com a arma escondida por baixo do lençol.
– Sim. Já está tudo resolvido, amor.