sábado, 25 de abril de 2015

A estranha história de Henriqueta

        Farta de estar em casa, Henriqueta fez o que qualquer outra pessoa faria no seu caso e dirigiu-se ao balcão do Centro de Emprego na Loja do Cidadão da cidade onde vivia. Tirou a senha e esperou de pé pela sua vez de ser atendida, porque as pessoas eram tantas que não havia lugar para se sentar. Nos seus rostos via espelhadas a ânsia e a mágoa. Não precisava que lhe contassem as suas histórias para saber o sofrimento que lhes ia na alma. Quando chegou a sua vez, dirigiu-se ao balcão 17 para ser atendida por um rapaz dos seus trinta anos.
        - Bom dia. Chamo-me Filipe. Em que posso ser útil? – perguntou ele.
        - Bom dia, senhor Filipe. Chamo-me Henriqueta. Procuro trabalho.
        Filipe escreveu qualquer coisa no computador, depois virou-se para ela, pensando que estava preparado para ouvir qualquer história de vida, sem saber quão errado estava.
        - Muito bem. O seu nome, por favor.
        - Henriqueta.
        Filipe escreveu e depois ficou à espera do resto. Virou-se então para a senhora, muito sério.
        - Sobrenome?
        Henriqueta abanou a cabeça.
        - Não tenho. Sempre me chamaram de Henriqueta.
        Filipe afastou-se, então, do teclado.
        - A senhora esteve horas para ser atendida para agora brincar comigo? Já viu a quantidade de gente que está aqui para ser atendida? – exclamou Filipe, visivelmente irritado.
        - Eu não estou a brincar. Chamo-me apenas Henriqueta.
        - Muito bem, Henriqueta. Qual foi a sua última ocupação?
        A senhora, que deveria ter os seus cinquenta anos, hesitou antes de responder.
        - Já sei que lhe vai custar acreditar, nesta época em que ninguém acredita em magia, mas eu fui Fada-madrinha.
        Filipe esboçou um sorriso, estando apenas a um passo de chamar os seguranças da Loja do Cidadão.
        - Muito bem. Digamos que estou disposto a acreditar nisso. Que idade tem? – disse Filipe. Por trás de Henriqueta estavam dezenas de rostos ansiosos pela sua vez. Ele queria, rapidamente, despachar aquele assunto, só por isso decidiu cooperar na loucura daquela senhora. Não lhe competia a ele dizer-lhe que devia procurar ajuda psiquiátrica.
        - Fiz, na passada terça-feira, 1352 anos.
        Filipe controlou-se. O rosto da senhora mantinha-se sério e calmo. Transmitia uma estranha bondade.
        - Sabe que a sua idade, num país onde os empresários consideram as pessoas velhas para o trabalho depois dos 35 anos, pode ser um factor complicado, não sabe?
        Henriqueta assentiu. Era uma Fada-Madrinha, mas sabia, perfeitamente, a situação sócio-económica do país e o perfil dos empresários.
        - Muito bem. Quais são as suas qualificações?
        - Qualificações? Eu nunca fui à escola.
        Filipe sorriu. Finalmente, uma situação familiar.
        - É, portanto, analfabeta?
        Henriqueta abanou a cabeça.
        - Não. Sei ler e escrever. Sei latim e grego. Percebo a linguagem dos animais e da terra.
        Filipe deita as mãos à cabeça. Estava cada vez mais farto de aturar aquela doida.
        - Mas nunca andou na escola, logo, não tem qualificações. Sem qualificações e com 1350 anos.
        - Tenho 1352 anos. E agora não tenho o que fazer. Deixaram de acreditar na magia. Já ninguém precisa da minha ajuda. E eu que ajudei tanta gente…
        Foi nesse exacto momento que Filipe perdeu as estribeiras.
        - Oiça, senhora Henriqueta. Eu vou ser muito sincero consigo. Acho que, antes de procurar emprego, tem de procurar ajuda psiquiátrica. Não existe magia, nem fadas, nem nada disso. A senhora é apenas uma mulher de meia-idade, como tantas que esperam a sua vez para serem atendidas. Porque que não faz a magia de as respeitar a elas, já nem falo de me respeitar a mim, e ir procurar ajuda?
        Henriqueta pareceu algo envergonhada, mas acabou por se levantar, para alívio de Filipe.
        - Vê, senhor Filipe? É por isso que eu estou sem trabalho. Já ninguém acredita na magia. Nem sequer o senhor. – disse ela, afastando-se.
        Filipe chamou a pessoa seguinte. Henriqueta continuava de pé, a olhar para ele enquanto um homem dos seus quarenta anos se sentava na cadeira.
        - Mas sabe uma coisa? O Filipe costumava acreditar. Um dia caiu de uma árvore, mas não se magoou. Lembra-se? Eu estava lá. Fui eu que o ajudei. – disse Henriqueta, saindo da Loja de Cidadão.
        Filipe levou algum tempo para digerir aquelas palavras, depois pediu desculpa, levantou-se e correu para a porta, mas já não viu Henriqueta, que parecia ter-se esfumado no ar.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O gato do Diabo



  Ontem vi um gato na rua. Não era especialmente bonito, posso até dizer, com alguma segurança, que o encaixei na categoria dos gatos mais feios que já vi na vida. Tinha o pêlo branco e grande, o que já por si não é habitual nos gatos vadios, e o olhar carregado com um misto de desconfiança e ódio. Enquanto comia, junto ao balde do lixo, olhou para mim com aquele ar de dúvida de quem se interroga se seria eu o antigo dono. Tenho vontade de lhe dizer que não. Se tivesse sido o dono, só por vontade dele viveria na rua. Mas adiante: aquilo que me fez olhar com mais atenção para este animal foi uma particularidade da sua fisionomia, combinada com o seu ar selecto, característica típica destes animais, mesmo os que parecem ter fugido da máquina de lavar a roupa em pleno ciclo de centrifugação. 
  Não sei o nome deste gato, provavelmente nunca mais o verei na vida. No entanto, é fácil inventar-lhe uma história, à qual chamarei de “O gato do Diabo”. Desiluda-se quem pensar que é uma história de terror. A menos que estejamos a falar na perspectiva do próprio gato, do qual, como já disse, não sei o nome (se não sei o nome, inventa-se um rapidamente).
  O Número 5 nasceu numa noite fria de início de Março. Foi o quinto filhote a sair da barriga da mãe. Era uma pequena bola de pêlo que mal conseguia andar. Pela diferença de tamanho dos irmãos, a mãe imaginou, enquanto o lambia, que este quinto filho não vingaria. Não seria o primeiro que perderia – miaria de dor durante algum tempo e depois iria à sua vida de gata, que ter mais 4 crias para cuidar não era fácil, mesmo estando numa casa quente, com criados que lhe faziam todas as vontades. Quando queria, a gata, uma persa de pêlo cinzento, sabia escapulir-se para a rua e perdia-se por lá em longas e ruidosas orgias. Da última nasceria aquela ninhada. Quando já não os tivesse com ela – e queria que não demorasse muito – voltaria a fazê-lo, tão cedo quanto a sua natureza o ordenasse. Vivia para aquilo. Já tinha visto os donos a procriar. Ela observara-os, quieta e curiosa. No final, ficara com a sensação que eles não sabiam o que era viver à séria. Claro que, para saberem isso, era preciso serem gatos, não aquelas criaturas desajeitadas, que andavam em duas pernas e cheiravam horrivelmente mal. Quando estava perto de uma, sentia necessidade de limpar o nariz com a pata, sinal que eles pareciam tomar como estando a fazer a sua limpeza, quando era precisamente o contrário: ela estava a tapar as narinas com saliva, para diminuir o cheiro. De resto, desde que houvesse comida e conforto, a gata estava bem. 
  O Número 5 olhava para os irmãos que mamavam descontroladamente. Ele, em vez de se conseguir aproximar do corpo da mãe, via-se projectado para trás à força de patadas. A certa altura fartou-se. Não adiantava discutir com os mais fortes. Sabia que era mais ágil e rápido. Usou essas características para saltar por cima dos corpos agitados dos irmãos e, mergulhando entre eles como se fosse uma cobra de pêlo, lá conseguiu chegar à teta e tomou, de uma só vez, o pequeno-almoço e o almoço. Isso mesmo: um brunch felino. E foi assim que o Número 5 escapou ao vaticínio da mãe. Quando já tinha alguns meses, viu os irmãos desaparecerem para sempre, levados por humanos desconhecidos. No fim, só restou ele e a mãe, que já o tinha afastado de si. Estava por sua conta, percebeu. Mas não esteve por sua conta durante muito tempo, porque duas mãos carinhosas pegaram nele. 
  "A sério que posso ficar com ele?", perguntou uma voz de criança, uma rapariga sardenta que olhava, através de uns óculos grossos, para o gato. Depois, toda animada, levou-o com ela, aconchegado ao peito. O Número 5 deu uma última olhadela para a mãe que, longe de estar triste, parecia pensar já na próxima orgia e procurava uma forma de escapar. Ele não se importou: o colo da menina era o lugar mais confortável onde tinha estado.
        Ao chegar à nova casa, demorou algum tempo a ambientar-se. Marcou toda a cozinha como seu território, passando depois à sala, para horror da mãe da menina, que começou a gritar com ele, convencida, talvez, que ele percebia humanês. Ele limitou-se a ficar quieto a olhar para ela, divertido por vê-la mudar de cor, e depois foi-se embora para a cozinha. Tinha fome, queria comer. A mensagem foi rápida e eficientemente entendida. O Número 5, que agora se chamava Lince pela sua parecença com os seus primos selvagens, tinha uma autêntica vida de lorde. Para justificar o (muito) que comia, por vezes fazia habilidades. Continuava rápido e era extremamente esperto, mostrando que conseguia abrir portas e janelas e dançar quando dava algum programa mais animado na televisão (grande invenção, pensava ele, para os seus longos bigodes). 
  Com o tempo, a dona começou a gabar o gato às vizinhas. 
  “É muito esperto”, dizia ela. 
  “Ai, só falta falar”, gabava-se a senhora. 
  “Só falta saber escrever”, respondia uma vizinha. 
  E o gato, ao ouvir isto, e mesmo sem perceber o que a criadagem dizia, lá fazia mais uma pirueta. Sabia que logo a seguir vinham as cócegas, a habilidade mais sublime que os humanos faziam. Não sabia ele que o paraíso duraria menos tempo do que ele estava a pensar. Na altura deveria ter uns cinco anos. Já tinha sido castrado, mas não se importou muito: só lhe interessava a comida e um lugar quente e confortável onde assentar o corpo, cansado de nada fazer. Foi então que a menina, que agora tinha crescido e era do tamanho da restante criadagem, disse para a mãe: “Ó mamã, já viste o que o gato tem na cabeça?”
  E a senhora lá foi ver. Teve de olhar bem de perto e tactear a cabeça (coisa que o Lince pensou tratar-se de mais uma dose de cócegas, pelo que se apressou a apresentar o corpo para uma sensação mais plena – mas ela limitou-se a mexericar-lhe na cabeça e logo o largou no chão, levando as mãos à sua própria cabeça).
  “Corno? O meu gato tem um corno? Mas pode lá ser?”, gritou ela. Logo uma vizinha bateu à porta, como se lhe cheirasse a desgraça. 
  “Então que se passa, vizinha, que a vejo com tão má cara?”
  A dona do Lince estava indecisa entre contar ou não contar, mas, como precisava de um conselho, foi buscar o dito.
  “Veja, vizinha, como está o meu gato!”
  A vizinha começou por não ver nada, mas depois deu um salto para trás, ao ver o corno que nascia a um dos lados da cabeça do animal.
  “Ai, que é o gato do demónio!”, disse a vizinha. A dona do Lince ficou a olhar para ela e para o gato, que antes de ter o corno era o gato mais esperto das redondezas – agora era motivo de vergonha e de medo. Nem por um momento pensou em ir ao veterinário, porque a crise alastrava também por aqueles lados. Só podia fazer uma coisa. Virou-se para o marido, na ausência da filha, e pediu-lhe para levar o gato para o ponto mais afastado da freguesia vizinha, e o deixasse lá. E o homem lá foi, castrado que era por natureza, sem nada contrapor. A verdade é que aquilo também lhe custava a ele, que se tinha afeiçoado ao animal. Mas nada de contrariar a sua senhora. Ele pegou no gato assim que a filha saiu de casa e levou-o para um longo passeio de carro. Quando parou num sítio que lhe pareceu mais propício, pegou nele, que estava mais nervoso e parecia pressentir o que ia acontecer a seguir, e colocou-o no chão, com uma bacia de leite e uma lata de comida. O Lince rendeu-se à comida e nem deu pela falta do dono, que já tinha seguido em grande velocidade e com uma lágrima no olho. Depressa se habituou à vida na rua, esperto como sempre tinha sido, mas sentia falta do colo confortável da rapariga que pela primeira vez tinha pegado nele.  


Epílogo
  Quando a filha chegou a casa, a mãe inventou que o gato tinha fugido. A rapariga desatou imediatamente a procurá-lo na rua. O marido da senhora, agora com o peso na consciência que demorara demasiado tempo a aparecer, voltou secretamente ao sítio onde tinha deixado o gato, sem o conseguir encontrar. E o gato lá ficou, a viver na rua. 
  Encontrei-o num sábado de manhã, enquanto ele comia um rabo de peixe que tinha caído de um saco do lixo. Olhou-me com desconfiança, dizendo-me, com a sua atitude agressiva, que aquela comida era dele, só dele, e mandando-me ir procurar a minha própria comida. Depois, voltou para o seu lugar favorito, de onde podia ver a casa onde sempre tinha vivido e para onde o orgulho de ferido de gato o impedia de voltar.

sábado, 18 de abril de 2015

O estranho talento de um homem banal


Era uma vez…

(Raios, vou mesmo começar assim este conto? Não. É melhor começar de novo… :) ) 

Ele era o homem mais banal do mundo. Tão banal que já nem me lembro do seu nome. Acho que ninguém se lembra, não fosse um pequeno pormenor que descobrira quando era ainda criança e desejava o que todas as crianças da sua idade desejavam. Na altura, não era o último jogo da PSP Vita, porque ainda não existia, e os pais eram tão pobres que ele sabia, exactamente, até onde podiam ir os seus desejos. Não, ele não desejava nada de material. Queria apenas bom tempo para uma tarde de sábado bem passada com os amigos, não aquela chuva chata e o vento frio, tão normal em Dezembro. Ele olhou para o céu pela janela e desejou, com toda a força, que estivesse bom tempo. Sol e calor. Desejou-o com tanta força, fechando os olhos. Imaginou as densas nuvens negras dissiparem-se, dando lugar ao sol. De repente, estranhou o súbito calor que sentia e ficou absolutamente atónito quando descobriu que era verdade. Enquanto que em toda a cidade o frio e a chuva imperavam, na rua onde o rapaz morava abrira-se uma clareira nas nuvens e o sol quente espreitava. Ele não ligou muito ao fenómeno. Correu a chamar os amigos e, de facto, parecia ser o prenúncio de uma tarde bem passada, não fosse o facto de que o fenómeno tinha sido notado, não só na cidade, mas no país inteiro, e a rua encheu-se de jornalistas e carros e curiosos e tanta gente que eles tiveram de parar de brincar, porque havia demasiados carros e uma autêntica multidão na estrada. Só então o rapaz pensou no que tinha feito. 

O rapaz banal, que não tinha talento para coisa alguma, tinha, afinal, um talento escondido, e que podia tê-lo feito um homem rico, não fosse o facto dele não querer tornar-se uma figura do circo. Se aquele episódio da sua infância demonstrara algo, era que o talento podia virar-se contra ele. Não contou a ninguém, nem sequer aos pais. Guardou o segredo durante os anos da sua juventude como adolescente banal, tirou um curso absolutamente normal, que lhe permitiu conseguir um emprego onde passava os dias por trás de uma secretária a olhar para papéis. Conheceu a mulher dos seus sonhos absolutamente banais, conseguiu convencê-la, a custo, de que era o homem dos seus próprios sonhos. 

Casamento marcado, mãe desfeita em lágrimas, noiva em histeria: dizem que um casamento é abençoado quando acontece num dia de chuva. No caso deles, a bênção caía em catadupa, num dia de tempestade onde tudo ameaçava ir pelos ares. Ele olhou para a mãe e para a noiva e fez a única coisa que podia fazer um homem desesperado: desejou, com toda a força, que a tempestade parasse. E aconteceu um fenómeno que ainda hoje é motivo de falatório. Onde quer que ele estivesse, abria-se uma clareira no céu, deixava de chover e o sol aparecia. Todos os convidados ficaram espantados com o que acontecia. Alguns, amigos antigos, lembravam-se ainda de um fenómeno idêntico que tinha acontecido na infância deles, mas ninguém conseguia ligar o facto àquele homem que escondia o seu estranho talento por trás da sua incomensurável banalidade.

No final do Copo de Água, com alguns convidados na piscina enquanto o resto do país tentava resistir à chuva e ao vento, o pai dele, um senhor de uma respeitável idade e que levava uma existência quase tão banal como a do filho, perguntou-lhe, em segredo: “Gostaste da minha prenda?”
O filho coçou a cabeça, não tendo qualquer ideia sobre o que o pai lhe estava a dizer, pelo que este passou a explicar: “O bom tempo, filho. Não consigo explicar como funciona, nem gosto de o fazer, mas eu consigo manipular o tempo. Fi-lo agora, para que tivesses o teu dia, tal como o fiz quando eras criança e te vi fechar os olhos à janela, num dia de chuva.”

E o noivo percebeu, então, a verdade. Agradeceu ao pai e preparou-se para ter uma vida verdadeiramente banal: agora que sabia que não tinha talentos estranhos para esconder, podia ser realmente feliz. 

Jorge Santos
18.04.2015

sábado, 18 de outubro de 2014

Turistas

«É ele!»
Foi apenas um sussurro. Uma coisa mínima que poderia ter-se misturado com o vento daquele dia de Outono, mas eu tinha percebido. Virei ligeiramente a cabeça, só o suficiente para conseguir ver três jovens vestidos de negro que, sentados na berma do passeio, olhavam disfarçadamente para mim. Mas eu tinha percebido que eu era «ele». Eu, que nunca tinha feito nada na vida que fosse merecedor daquele tipo de atenção. Fiquei com a pulga atrás da orelha e segui caminho.
Devia ter-me esquecido do acontecido, mas o facto é que, por algum motivo, aquilo ficou-me retido teimosamente na memória. Relembrei-me disso alguns dias depois, quando uma rapariga de aspecto estranho pareceu ficar especada à minha frente. Não estava na mesma rua, nem era a mesma hora, e nenhum dos três rapazes estava por ali. No entanto, aquela rapariga tinha corado, e normalmente sou que coro. Passava-se algo. Era complicado ligar os dois acontecimentos, mas eu era mestre em ligar acontecimentos complicados, especialmente quando voltaria a acontecer novamente, dois dias depois.
Embora ela estivesse longe, apercebi-me que uma senhora me fotografava à distância, também ela vestindo uma mistura ao mesmo tempo anacrónica e futurista que a tornava tão visível como um gótico a dar catequese. Tentei aproximar-me dela, mas ela desapareceu.
Eram agora duas pulgas atrás da orelha, as quais provocavam uma comichão mental de dimensão considerável, e, como já tinham havido 3 vezes, de certeza que haveria uma quarta vez.
Desta vez estava à espera, mas tive de aguentar quase uma semana até ver um casal de máquina fotográfica que estava nitidamente interessado em mim. Interpelei-os.
«Desculpem, posso fazer-vos uma pergunta?»
Eles pareceram assustados. Não esperavam que eu falasse com eles.
«Eu não vos faço mal. É só uma pergunta.»
O marido olhou para a mulher. Não consegui compreender o olhar que trocaram.
«Eu tenho direito a saber porque é que, de um momento para o outro, toda a gente parece interessada em mim.»
O homem lá se decidiu a falar. Tinha um sotaque estranho, quase imperceptível.
«Nós não podemos. É contra as regras. Nós somos turistas. Estamos a aproveitar uma promoção para conhecer pessoas famosas. Mas não estamos autorizados a falar com essas pessoas.»
Fui aos arames. Nada daquilo fazia sentido.
«Eu não sou famoso! Vocês enganaram-se na pessoa!», exclamei.
 A senhora sorriu timidamente.
«O senhor ainda não é. Mas vai ser. Nós não somos de cá. Ou melhor, não somos de agora.»
Aquilo era de doidos. Antes de conseguir que me respondessem a algumas das milhares de questões que me atormentavam o espírito, eles seguiram caminho, num passo rápido e desaparecendo no nada depois de dobrarem a esquina. E eu fiquei ali, lixado da vida, nunca mais vendo ninguém verdadeiramente estranho, à excepção de algumas aves-raras que habitavam na cidade.
A verdade é que sempre tive muitos sonhos na cabeça. A diferença é que agora sabia que um deles me levaria ao sucesso. Só faltava descobrir qual.

domingo, 14 de setembro de 2014

1915

      - Assim, avô?
      - Não, estás a fazer isso mal, Heinrich. Endireita mais o corpo. Puxa mais as rédeas. Sente o cavalo. Só depois de o compreenderes é que o podes controlar.
      E eu tento fazer isso, enquanto cavalgo o Blau o melhor que posso pelo terreiro da quinta do meu avô. Adorava passar lá as férias da escola, enquanto ele me contava histórias de quando era cavaleiro no Exército da Prússia, as batalhas em que combatera e do conceito de honra que havia então. Foram essas histórias que me levaram a alistar no exército, mas não consigo encontrar a honra na lama da trincheira. Sinto falta dele, do meu avô. Ele saberia o que eu deveria fazer. Mas ele perdeu a sua última batalha para o cancro, sem qualquer honra nem dignidade.
      Hoje parece seguro tirar a máscara, ao contrário de ontem. Os nossos superiores dizem que foram os Bifes que mandaram a porcaria do gás, mas um amigo que veio do lado norte diz que desconfiam que é nosso. Alguém deitou demasiado perto do nosso lado e o vento encarregou-se de o trazer para a trincheira. O Hans ter-se ia rido disso. Ele passava o tempo a contar anedotas as poucas que um rapaz de 18 anos poderia saber. Mas ele disse a última anedota antes de sair da trincheira, na última investida, e agora o seu cadáver jaz em Terra de Ninguém. Chamam-lhe assim porque ninguém tem coragem de voltar lá para ir buscar os corpos dos nossos companheiros. Ou dos companheiros dos Bifes. A história é a mesma. Estamos num impasse. À espera. Investimos e respondemos às investidas deles. E entretanto morremos sem sabermos muito bem porquê.
      Dizem que é hoje que eles vêm. Há notícias de que vai ser em grande. Eu verifico mais uma vez a minha arma, uma Maschinengewehr 08, ou simplesmente MG como me ensinaram na formação em artilharia. Está perfeita. Melhor do que qualquer outra naquele sector. O meu avô ensinara-me a ter cuidado com o material.
      Espreito pelo buraco para o outro lado, por entre os sacos de areia e a malha de arame farpado. Está tudo calmo. Mas eles estão lá. O Sargento vem ter comigo. Dá-me uma ordem, olha pelo buraco e vai-se embora. Está nervoso. Talvez mais do que eu. De certeza mais do que eu. Diz-se que passa o tempo na latrina, e que a verdadeira guerra se trava nas suas tripas. Diz-se tanta coisa, penso eu, enquanto abro uma lata de feijões. Começa a chover. Vou buscar o oleado. Não dou duas horas até que a lama atinja vinte centímetros de altura. Ou mais. Nos dias em que a lama é muita, chamamos a trincheira de piscina. Um homem habitua-se a tudo. Mesmo os de 18 anos como eu. Pelo menos, acho que ainda tenho 18 anos. O Sargento passa, mais agitado. Ouço apitos e gritos. De repente, tudo muda. Começa a cair fogo de morteiro, e oiço o matraquear das metralhadoras. Largo os feijões e amarro-me à minha arma, espreitando pelo buraco. De início, não vejo nada. Depois, ao longe vejo um vulto. Um, não, um grupo. Correm na minha direcção. Eu carrego no gatilho. Eles caem no chão, vítimas de uma saraivada de balas da minha MG. Ouço-lhes os gritos, mas logo vêm mais. Alguns são apanhados por outras metralhadoras, outros pela minha.
      E continuam a vir. Já me custa carregar no gatilho e enoja-me o cheiro a queimado habitual na MG. Eles são jovens como eu. Tento não pensar nisso, mas não o consigo evitar. Não há honra nem valor na guerra, apenas a sorte ou o azar de estarmos no sítio correcto. Aparece mais uma investida. Há já um monte de soldados ingleses a contorcer-se de dores ou completamente imóvel. Jovens, como eu. Páro de disparar. Uma lágrima cai-me do olho. O sargento aparece, e aos berros ordena-me que dispare.
      - Encravou, meu Sargento! – grito eu, mas o homem está completamente doido. Arranca-me das mãos a metralhadora e carrega ele próprio no gatilho. A máquina dispara mais uma rajada, ceifando a vida a mais três rapazes ingleses.
      - Dispara! – ordenou ele.
      Eu continuo com os braços para baixo, sabendo perfeitamente os riscos que corria. Ele deu-me uma estalada na cara. Senti algo a partir, dentro da minha cabeça. A dor rapidamente alastrou ao resto do meu corpo. Depois senti o cano da pistola do Sargento na minha cabeça.
   Nunca desobedecer a um superior. Esse tinha sido um ensinamento valioso do meu avô. Ele, que tinha sido mais superior na minha vida do que qualquer outro oficial nesta guerra sem sentido. Só havia uma forma de ter honra, pensei, levantando-me, de braços abertos.
      O tiro do Sargento foi a última coisa que ouvi ou senti.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dizem que o nosso amor acabou

Dizem que o nosso amor acabou. Ouço-o no silêncio da casa, no vazio que substituiu o reboliço alegre com que me preenchias a vida. Vejo-o no quadro inclinado que já não te tem a ti para pôr, teimosamente, direito e na janela fechada que era a primeira coisa que abrias quando acordavas. Sinto-o na cama triste pela tua partida. Noto-o no canto sentido do canário que te ofereci no único aniversário que passámos juntos. Provo-o quando bebo o vinho que te tornava alegre só com o cheiro, como se fosse possível alguma coisa tornar-te ainda mais alegre do que eras. Regresso vencido à minha solidão de outrora, sempre fria e imunda. Roubaste-me o sorriso e a vontade. Fraca é agora a força para me levantar. 

Dizem que o nosso amor acabou. Triste e ao mesmo tempo doce é o engano dessas pessoas: o amor nunca acaba, apenas morre uma ilusão. 

sábado, 19 de julho de 2014

Teoria do D




Há quem sofra por ele e quem se perca num novelo de sonhos sem nunca o ter. 
Há quem o prenda num abraço forçado para não o deixar fugir, sem se dar conta que, assim, não consegue crescer. 
Há quem o tenha, sem saber, e quem dele muito fale, sem o ter. 
Mas só eu sei onde mora: no sorriso aberto, em forma de D, com que me brindas a cada manhã.