sábado, 4 de agosto de 2012

Origami


Ele colocou o boneco feito de papel em cima do banco de jardim. Estava sentado, olhando para o pequeno lago. Depois, José deu dois passos para trás para admirar melhor a sua obra. Satisfeito, continuou o seu passeio.
Mais à frente, pegou numa folha do seu caderno de Origamis (faltavam poucas, não tinha dinheiro para comprar mais), dobrou-a com toda a paciência habitual de quem tinha esse vício desde adolescente e colocou o resultado final - uma flor de papel - no chão.
Estava a semear Origamis pelo jardim público, como se fosse o novelo que Teseu desenrolou para conseguir saber o caminho de saída do labirinto do Minotauro – mas José desconhecia a lenda grega: sentira necessidade de deixar o seu rasto no jardim (ou no mundo?), por alguma razão estranha. Aquele seu hábito dava com a mulher em doida: por toda a casa tinha pequenas miniaturas de papel dobrado. Desde que a empresa o tinha dispensado, não fazia outra coisa. Estava tantos anos num emprego de que não gostava, mas quando se viu sem ele, ficou admirado com a falta que sentia. Antes um emprego de que não gostava, do que nenhum emprego para não gostar.
Andou mais uns passos e tirou mais uma folha. Dobrou-a para formar uma criança pequena. Depois colocou-a no chão. Representava o filho pequeno, a quem José ensinara a fazer pequenas dobras, para alegria do petiz (que no entanto preferia as longas horas a torrar o seu pequeno cérebro à frente de uma televisão – José ficava louco por isto).
Atirou ao lixo o caderno, agora vazio de folhas, e foi-se sentar no banco de jardim. Tirou um papel do bolso, uma carta que indicava o fim do pagamento do subsídio de desemprego. Releu-a pela décima vez: precisava de uma luz para voltar a ter esperança. Tinha piada que um papel lhe tivesse terminado a vida, quando tinha passado a vida a dobrar papéis.
Uma menina ficou à sua frente, magra, ar sorridente. Nas mãos tinha os Origamis que José tinha espalhado por todo o jardim.
“Gostas?”, perguntou ele.
Ela disse que sim, com a cabeça. Uma mulher aproximou-se, mas ficou a alguma distância, como se não quisesse interromper a nossa conversa. José cumprimentou-a com um ligeiro acenar de cabeça, depois voltou a sua atenção para a menina.          
            “Queres que te ensine a fazer um?”, perguntou. A menina não disse nada, mas o seu olhar faiscou e o sorriso abriu-se ainda mais. José pegou no único papel que tinha, a comunicação do fim do seu Subsídio de Desemprego, e ensinou a menina a fazer as dobras de um pato, a figura mais simples que sabia fazer. A menina tentou uma e outra vez, até conseguir fazer um pato, mais ou menos convincente.
            “Está muito bem feito. Queres que te ensine a fazer outro?”
            A menina disse “Sim”, de uma forma quase inaudível. Isso causou alguma agitação na mulher, que se aproximou ligeiramente. José desfez a figura do pato e ensinou a menina a fazer um sapo. Depois ela foi brincar com o sapo de papel, saltando por todo o jardim, sem nunca se afastar da mulher, que se aproximou de José.
            “O que fez foi fantástico”, disse-lhe ela.
            “Não foi nada. Qualquer um sabe dobrar papel”
            Ela riu-se.
            “Não. Vou explicar. Esta menina não fala há um ano, desde que perdeu os pais num acidente de viação. E tenho outras crianças na mesma situação.”, disse ela, explicando depois que era terapeuta e que fazia a reabilitação de crianças traumatizadas.
            “Posso fazer-lhe uma proposta de trabalho?”, disse ela. José disse que sim, com um sorriso aberto, estranhamente parecido com os Origamis que fazia: tinha encontrado a sua Luz.
    

sábado, 7 de julho de 2012

Adeus, Amor


O Amor observou o olhar duro dos dois cônjuges, avaliou o ódio premente e decidiu abandonar a casa, fechando a porta: não voltaria ali.

Mais uma vez, pensou.

Estava farto. Mais um lar desfeito e não podia fazer nada: quando o Amor desaparecia do lar raramente voltava, pelo menos na sua forma original. Podia, quando muito, vir encapotado como Pena e Compaixão, suas irmãs bastardas, mas nunca como Amor. À saída, abatido, cruza-se com o seu irmão Ódio, carregado de malas: via-se que vinha para ficar.

No início, a casa tinha sido habitada pela sua irmã Atracção. Os dois membros do casal viveram este período apaixonadamente, sempre juntos. Faziam amor em qualquer sítio e em qualquer lugar, mesmo naqueles sítios onde não era suposto ou permitido. Não lhes importava: a Atracção forçava-os a isso, aliada à sua meia-irmã Paixão. As duas eram poderosíssimas, até ao momento em que se desvaneciam, consumidas pelo rame-rame do dia-a-dia, e o Amor tomava conta deles. Mas mesmo esse não fazia todo o trabalho e podia desaparecer, se não fosse alimentado. Era esse o grande problema do amor. A sua eterna fome. Os dois tinham de trabalhar para o manter, como mais um membro da casa, mais um filho invisível que mantém tudo unido, não se dando por ele até ao momento em que sai de casa. Nesse momento, tudo cai e é-lhe dado o merecido valor.

O Amor ouve ainda os gritos da discussão dentro de casa, abana a cabeça e desaparece na noite, rumo a outro casal com a Atracção a desvanecer.  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Romeu


Romeu esperou que Julieta fosse dormir. Fazia-o todas as noites, quando o livro estava fechado – se alguém o lia, e isso ultimamente era raro, ele seguia o enredo normal: enamorava-se, lutava e morria por amor. Depois o livro era fechado e colocado na estante, à espera da próxima pessoa que sentisse curiosidade em lê-lo. Era no entanto falso que as personagens só tivessem vida na cabeça do leitor, como uma mancha intelectual que era lançada pelo escritor directamente à mente de quem lia a história. Até faziam um jogo: se mexia com o leitor, o escritor recebia a pontuação completa: 100 pontos. Se só causasse cócegas, 50. Se lhe passasse completamente ao lado, era o fracasso. E Romeu tinha conhecido alguns fracassados, que tinham pegado no livro e logo a seguir pousado, intimidados pelo linguajar estranho e anacrónico.

Romeu gostava de sair do livro, para escândalo das outras personagens, mais atinadas, mais resignadas ao seu papel. Tinha dois sonhos secretos: queria conhecer melhor quem o lia, e, ainda mais secreto, queria conhecer um escritor. Não o seu escritor, que tinha morrido há quinhentos anos, mas alguém mais comum, e, de preferência, ainda a respirar. Costumava sair pela lombada, por uma pequena abertura que fizera aos poucos. A primeira vez que se viu fora do livro espantou-se por ver que o mundo era enooooooorme. Mesmo se o que achava ser o mundo, não passasse de uma prateleira de uma estante. Deambulou um bocado, olhando com interesse para as capas dos outros livros. Repetiu a proeza na noite seguinte, quando tinha a certeza que não havia leitores por perto, e sempre depois da Julieta adormecer – sabia perfeitamente que ela estava a dormir, porque roncava (e isto Shakespeare não tinha contado). Não roncava muito, era certo, mas o suficiente para ser incómodo.

Romeu cumpriu o seu primeiro sonho percorrendo livros de Biografias e compêndios de História. O segundo sonho foi cumprido pouco tempo depois. E o culpado fui eu, com esta mania de escrever fora de horas – quando dei por mim, tinha uma personagem de um livro quinhentista ao meu lado, a observar com interesse o que fazia.
- Diz-me, senhor, que fazeis?
Eu olhei para a personagem, uma figura humana, com a forma delineada a frases Shakespearianas e da altura de um livro, que se sentava de pernas cruzadas junto ao portátil. E eu, que escrevo este conto e sei que não passa de um produto da minha pobre imaginação, digo-lhe, de uma forma algo ríspida: - Fala direito, Romeu. Já ninguém fala assim.
A personagem olha para mim, com os seus olhos de personagem, e diz-me que concorda. Já tinha aprendido muito, dos livros que lera.
- Certo, mano, bute lá, posso fazer-te uma pergunta? – perguntou o Romeu.
Eu ri-me do que tinha escrito. O anacronismo era completo, e senti o Shakespeare a dar uma volta na tumba.
- Chuta – disse-lhe eu.
- Porque é que escreves? – perguntou.
Eu esperava uma pergunta mais complexa. Aquela era simples. Escrevo para provocar o leitor.
Romeu digeriu a resposta, concordou comigo. Se o leitor não se sentir minimamente provocado, não lê. Expliquei-lhe que ele pertencia a uma das mais importantes histórias de amor de todos os tempos. Até podia afirmar que o amor, tal como o conhecemos, a sua visão romântica, nascera com ele.
- Eu sou o pai do amor actual? – perguntou.
Achei a pergunta mais complexa. Não muito mais complexa, porque tinha nascido da minha imaginação – pensei algum tempo na resposta.
- De certa forma, sim – respondi, por fim. A nossa visão romântica vinha de Romeu. Talvez isso explicasse o facto dele estar ali, à minha frente, de papel e letras. Pertencia ao imaginário colectivo de todo um planeta – isso devia valer de alguma cousa.
Senti-me cansado desta conversa. Despedi-me dele com um aperto de mão/letra. Vi-o a dirigir-se para o seu livro, a desaparecer num buraco da lombada. Nunca mais o vi. Os seus dois sonhos tinham sido satisfeitos – podia voltar agora para os braços da sua Julieta roncadora.    


Autor: Jorge Santos  (8 de Junho de 2012)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Amor em tempo de crise (Rui)


         Rui divorciara-se há pouco tempo. Comprou um T1 na baixa e procurou uma empregada para o ajudar das lides domésticas, coisa para a qual ele não tinha a mínima queda. Teve várias, cada qual com a sua particularidade que ele abominava, até que surgiu Diana, que ele considerou perfeita a todos os níveis. Era de tal forma surpreendente que o Rui, que namorava com uma mulher linda mas sem o mínimo espírito, começou a sentir-se cada vez atraído por Diana, e tinha a certeza de que o sentimento era recíproco. Sabia que era errado, mas estava-se a borrifar para o que os outros diziam. A vida era dele. Diana foi uma surpresa em todos os sentidos, e o Rui deixou-se levar por um sentimento que já não sentia há muito tempo.
Mas a sua paixão por Diana estava comprometida. Havia um segredo que ela não contava, que a impedia de ser dele a tempo inteiro, para sempre. Rui, obcecado pela ideia de descobrir o segredo de Diana seguiu-a até uma casa de aspecto velho, na zona mais pobre da cidade. Tocou à campainha. Trazia na mão um casaco dela. O seu coração estava acelerado. Tudo lhe dizia que aquilo que ele estava a fazer era errado. Diana tinha direito a ter os seus segredos. Ele arriscava-se a perdê-la, e isso seria inimaginável.
         A porta foi aberta por um homem da idade do Rui, em cadeira de rodas.
         “Boa tarde. Eu sou o patrão da Diana, ela deixou isto lá em casa” , disse o Rui, sem saber onde se meter, mostrando o casaco que Diana deixara lá em casa.
         O homem, de aspecto jovial, pegou no casaco de Diana.
         “Entre, entre. A minha mulher fala muito de si. Eu chamo-me Filipe.”, disse  o marido de Diana. E o Rui, sentindo-se miseravelmente, entrou. Filipe serviu-lhe um cálice de Vinho do Porto, uma das poucas garrafas que tinham guardado para as ocasiões festivas, como aquela visita do patrão de Diana. Ela estava visivelmente incomodada, mas menos do que o Rui, que não sabia o que dizer nem onde se meter. Falaram essencialmente sobre futebol e sobre carros. Filipe tinha pena de não poder correr (dava alguns passos, mas a muito custo). A doença roubara-lhe o corpo, mas não a dignidade, dizia ele. Era fácil ver que Diana amava o marido. Rui via isso na intimidade do gesto e do olhar. Na forma como falavam, o Rui via-se como um intruso. Sentia-se francamente mal. O Filipe saiu da sala para ir à casa de banho. Rui olhou para Diana, mas esta não olhou para ele, enquanto arrumava a louça. “Podias ter-me dito”, disse ele. Diana olhou finalmente para ele, e o olhar disse-lhe tudo aquilo que as palavras poderiam falar. Filipe veio antes do tempo. Ouvira eventualmente as palavras do Rui. Se ouviu, o Rui nunca chegou a saber. Queria sair dali. Ir-se embora para o seu mundo, onde não era enganado pela mulher que amava. Olhou para o relógio e apresentou uma desculpa qualquer. Cumprimentou o Filipe e Diana acompanhou-o à porta. Beijou-a na face, ela acariciou-lhe o braço, para lhe acalmar a fúria. Ele não sabia o que pensar, mas lia no olhar dela uma certeza estranha. “Acalma-te, tudo se vai resolver”, pediu ela, numa voz suave que o acalmou instantaneamente. “Segunda-feira”, disse ela, apenas, antes de fechar a porta. O Rui desceu a escada, com alguma amargura, mas uma pequena luz de esperança a iluminar-lhe o caminho.

         Diana ouviu o Rui a descer a escada, mesmo com a porta fechada (merda de material, costumava dizer o marido). O Filipe fitava-a muito sério.
“Gostei dele”, disse. E depois continuou com uma frase que a fez chorar: “Tens muito jeito para escolher amantes.”
Diana deixou-se escorregar pela parede a baixo, junto à cadeira de rodas de Filipe. As mãos apoiadas na roda, numa atitude de súplica. Não adiantava esconder, porque o marido conseguia percebê-la, como nenhum homem conseguira antes. Entendia-lhe todos os sentidos das palavras que ela dizia, todos os silêncios. Percebia os gestos. Por isso mesmo, ele percebia a razão da tristeza dela, do abatimento constante, do choro nocturno quando ela pensava que ele já dormia. Maldita Esclerose que lhe tinha roubado o corpo, ainda em vida.
“Tu ainda és nova e cheia de vida”, disse ele. Propôs-lhe então o divórcio. Ele sacrificava-se para que ela fosse feliz. Diana rejeitou essa hipótese. O marido dela era ele, não o queria abandonar.
“Então, tenho algo a propor”, sugeriu ele.

Segunda-feira. Rui começou a ficar nervoso – não era do feitio da Diana atrasar-se. Isso poderia significar que o marido não concordava com que ela trabalhasse na casa dele. Ou não: a porta a bater anunciou a chegada de Diana.
“Pensava que já não vinhas”, disse ele. Ela abanou a cabeça, com um sorriso nos lábios: “Nunca”. E explicou o acordo que fizera com o seu marido. Algo que era completamente imoral, mas ainda mais imoral seria fazer três pessoas sofrer. Ela amava o marido, e enquanto ele fosse vivo, não queria separar-se dele, mas enquanto mulher precisava do Rui, que ficou algum tempo a meditar no que ela acabara de propor: na prática, por amor à esposa, o marido de Diana aceitava ser corno. 
“Consegues viver assim?”, perguntou ela, ansiosa, 4 segundos antes do Rui a beijar.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Amor em tempo de crise (Inês)



            Inês trabalhava na fábrica de calçado quando conheceu o Manuel. Sentiu algo de diferente desde o momento em que o viu pela primeira vez, o secreto desejo de o tornar no seu mundo, de ser dela. Para isso tinha de lutar com a cobiça das suas próprias colegas, que não podiam ver alguém mais giro, para começarem a invejar. Mas primeiro, Inês tinha de enterrar mágoas antigas. Ainda adolescente, fugira para Espanha com o namorado da altura. Quando voltou, sozinha e esfomeada, nunca mais seria a mesma, e o mesmo podia dizer da confiança dos pais. Tinha sido uma aventura estúpida, com remorsos que levariam anos a curar. E agora aparecera alguém que a podia fazer esquecer tudo. Investiu o pouco que tinha no cabeleireiro e na secção de roupa do hipermercado, insinuou-se discretamente, como tinha visto os predadores caçarem as suas presas nos documentários na televisão, muito diferente do espalhafato que as suas colegas faziam perante ele. Tal como o predador reconhece os outros predadores, ela reconhecia as colegas que estavam à caça do Manuel, especialmente pelo perfume barato e roupas decotadas. Mas Inês sabia que ele não gostava de mulheres excessivamente provocantes. Com o tempo, os olhares dele denunciavam o seu interesse – daí ao primeiro beijo passaram-se alguns dias, e no fim desse mesmo mês, o Manuel revelava-lhe os seus talentos como amante. A presa caíra, mas festejavam juntos, em união de vidas e de corpos.
Pelo fim do ano já viviam no mesmo apartamento. O Pedro seria a nova aquisição da equipa, ela grávida e feliz, ele expectante, muito mais nervoso do que ela.

Depois do nascimento do Pedro, houve um descuido chamado Simão. Se o Pedro tinha um ar de safado encantador, o mesmo ar do pai, já o Simão era mais calmo e pensativo. Foram anos de muita luta. Entre o trabalho dos dois na fábrica, o tratar dos filhos e da casa, sobrava pouco para Manuel e Inês, mas o pouco que sobrava era bem aproveitado e valia a pena o tempo roubado ao descanso. O corpo agradecia na mesma, e talvez em dobro. Inês sentia-se feliz, não imaginando a tempestade que estava para vir. Os sinais eram evidentes: subsídios por pagar, depois vencimentos em falta. Por todo o lado ouviam as mesmas notícias, era óbvio que a empresa estava a atravessar um mau momento. Em Agosto, depois das férias, os funcionários encontraram as portas fechadas. Conheceram assim o real significado das palavras “Insolvência” e “Assembleia de Credores”. De funcionários tinham-se tornado credores da firma. Para Manuel e Inês, parecia que o paraíso acabara. O subsídio de desemprego sabia a pouco e não dava para comer. Manuel só arranjava alguns biscates, insuficientes para garantir a comida na mesa. Com tempo, tudo se agudizou. A renda ficara por pagar, o subsídio de desemprego era usado para pagar a luz, a água e o gás.
Manuel encontrou então uma oportunidade de trabalho no Porto. Saía de manhã cedo, apanhava o primeiro comboio, e voltava ao fim do dia. O primeiro vencimento foi festejado com um jantar no McDonalds, para regozijo dos miúdos.
A partir do primeiro mês, Inês notou uma diferença no comportamento do Manuel. Uma tristeza estranha, uma melancolia sem sentido. Aparecia com dinheiro fora do fim do mês. Por vezes trazia os bolsos cheios de comida, algo que Inês estranhava. Até que Matilde tocou à campainha da porta. O Pedro foi abrir a porta. Inês notou o súbito nervosismo do Manuel e antecipou-se a ele. Deu de caras com uma senhora alta e bem parecida. Era bastante elegante, mas não se podia dizer que fosse especialmente bonita. Apresentou-se como amiga do Manuel. “Amiga, uma ova!”, pensou a Inês, a ferver por dentro. Por momentos, voltou a sentir-se a predadora dos tempos em que lutava pela atenção do Manuel. Convidou-a para lanchar. Estava a divertir-se com a mais-do-que-evidente atrapalhação do seu macho. Como se ela não soubesse já que ele tinha outra. Mais: desconfiava que era ela que lhes pagava as contas lá em casa. Mas ele voltava sempre para Inês, e ele sabia que ele a amava, pelo que fechava os olhos. Confiava cegamente nele, mas pelo sim, pelo não, mantinha os olhos abertos. Era uma confiança cega, de olhos abertos.
Matilde era uma pessoa simples, mas tinha dinheiro. Tinha sido abandonada pelo marido, que saíra do país há anos. Inês sentiu estranhamente que podia confiar nela. Um sentimento de cumplicidade que não podia explicar. Sabia que Matilde nunca lhe tiraria Manuel. Sentia-se sozinha, solitária. Sentiu-lhe a tristeza e o abandono; fez o que nenhuma das amigas da Inês alguma vez faria: fechou os olhos. Mesmo quando o Manuel lhe anunciou que iria trabalhar para Lisboa e que só viria aos fins-de-semana, Inês percebeu, e confiou.

E fingiu viver feliz para sempre.  

Amor em tempo de crise


Não restava qualquer dúvida, ao Manuel, de que amava Inês. Como não havia dinheiro para casarem, alugaram um apartamento pequeno nos arredores; tiveram dois filhos e eram felizes até que ficaram, os dois, desempregados. Depois disso continuaram felizes, mas com uma sombra de incerteza muito grande em cima da cabeça deles. Com várias rendas em atraso, contas por pagar e sem dinheiro para pôr comida na mesa, Manuel sentiu que tinha de sair; foi procurar trabalho numa cidade próxima. Encontrou Matilde, uma mulher divorciada a quem ocultou o facto de ter uma família. Quando podia, regressava em segredo para junto de Inês, trazia dinheiro e comida da despensa de Matilde, até ao dia em que tocaram à porta da sua casa, que partilhava com Inês e os dois filhos - foi um deles que foi abrir, contrariando a vontade do pai, mas ele era assim. “Quem é, Pedro?”, perguntou Manuel, chegando junto à porta onde deu de caras com Matilde. Ela olhou para ele, com um sorriso matreiro. Inês chegou ainda antes dele poder falar com ela.
         “Quem é?”, perguntou Inês, a limpar as mãos ao avental. Manuel responde que é uma amiga. Não consegue disfarçar o nervosismo na voz. Matilde ajuda-o: “Conhece-mo-nos no comboio. Ele esqueceu-se disto... (trazia na mão um casaco de malha que Inês não via há muito tempo)". Inês comentou que já tinha dado pela falta do casaco. Manuel estava a um ponto de ter um ataque, enquanto que Inês convida Matilde para lanchar. Para desespero do Manuel, esta aceita; entra na casa deles, observando com interesse todos os detalhes. A casa do Manuel e da Inês era tão diferente da casa dela, como da água para o vinho. Os filhos não abrandavam a algazarra, estavam excitados por terem uma visita, ainda por cima uma senhora tão bem vestida e vistosa como Matilde. Sentaram-se à mesa da sala. Inês trouxe chá, tostas e umas latas pequenas.
“O Manuel diz que isto é bom”, diz ela, abrindo as latas e colocando-as na mesa.
“É caviar”, explicou Matilde, “eu também gasto desta marca.”
Manuel não sabia onde se meter. Não abriu a boca o tempo todo. Inês discutia pormenores sobre os filhos. Matilde estava genuinamente interessada em saber. Pareciam dar-se bem.
A campainha tocou. Um dos filhos deles foi abrir. Anunciou uma visita, e Inês foi até à porta. Manuel ouviu-a a falar e percebeu que ia demorar.
“O que é que estás aqui a fazer?”, perguntou, quando percebeu que Inês estava longe e os miúdos entretidos a ver televisão.
Matilde serviu-se do caviar, do caviar que era DELA.  
“Eu não convivo bem com a falsidade. Queria saber quem tu eras. Agora já sei: és um pulha.”
Manuel não podia refutar o óbvio.
“Vais dizer-lhe?”, perguntou ele, o coração aos saltos.
“Tem calma. Eu sei o que custa um lar desfeito. Creio que podemos chegar a um acordo. Se me responderes a uma pergunta”
“Diz”, disse ele, enquanto ouvia a Inês a dar uma gargalhada histérica.
“Tu sentes-te atraído por mim? Já sei que amas a Inês. Mas é importante, para mim, saber isto. Eu não vou contar nada, qualquer que seja a tua resposta.”
Manuel disse que sim. Não a amava, mas sentia uma atracção forte por ela.
“Muito bem. Eu consigo viver sozinha, mas não absolutamente sozinha. E gosto muito de ti, muito mais do que qualquer outro namorado que tive, desde que o palhaço do meu marido me abandonou. O acordo é este.”
Matilde explicou o acordo, em voz baixa, pressentindo o regresso de Inês. Manuel ficou de pensar.

No fim do lanche, Manuel ficou aliviado ao ver as curvas sedutoras da Matilde a sair de casa. Inês esperou que ela desaparecesse na rua, e olhou furiosa para ele. Nada que ele já não esperasse.
“Eu não sei o que se passou aqui, mas esta serigaita não é tua amiga, coisíssima nenhuma. Ai de ti se trazes alguma amante cá para casa outra vez. Não me importa o que faças com ela: esta é, e será sempre, a nossa casa. Eu sou, e serei sempre, a tua mulher.”
Novamente, Manuel não conseguiu refutar o óbvio. Nunca mais Inês ouviu falar em Matilde, que se mudou para Lisboa e arranjou por lá um trabalho para o Manuel. O trabalho de sonho, que ele sempre ambicionara. Inês, no entanto, não queria saber em ir viver para Lisboa.  Ao dia de semana, Manuel vivia secretamente em Lisboa com a Matilde, e vinha ao fim de semana para casa.

E viveram, os três, estranhamente felizes para sempre.




segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais uma página em BRANCO


Mais uma página em BRANCO
Bolas, mais uma página em BRANCO, e agora? É do caraças. Toca a inventar uma personagem - branca, como a página. Mas também poderia ser negra, azul ou às pintinhas. No dia em que o milímetro de epiderme definir a pessoa pelo seu todo, as galinhas terão dentes, e pelo mesmo motivo: o da estupidez, pura e dura. Mas adiante. A minha personagem chamar-se-á Pedro. Tem um pequeno escritório de contabilidade, vive sozinho num apartamento normalíssimo. Aliás, toda a sua vida é absolutamente normal, tão normal que ele tem a impressão de não ter vida. Talvez seja essa a razão dele não conseguir ter um relacionamento mais estável: a sua insustentável normalidade de pessoa normal, heterossexual assumido, algo quadrado nas atitudes. Gosta de música dos anos 70 e 80, abomina o que é tocado nas discotecas e bares. Por essa e por outras, Pedro sente-se sozinho e tem tendências para a depressão. Até brinca com isso: “Mais deprimido do que eu, só mesmo a situação económica do país”, matuta ele, enquanto termina mais um modelo 22. Mas ainda mais adiante: Pedro está apaixonado. Descobriu há pouco tempo, e mudou completamente o seu mundo cinzento. A culpada chama-se Céu Vermelho. Não, não é brincadeira. Ele está apaixonado por um perfil anónimo que habita no seu Facebook. Nunca viu sequer uma fotografia dela, mas todas as conversas que tiveram deu-lhe essa certeza, a certeza de ter conhecido a sua alma gémea. Não se trata apenas da concordância de gostos, mas também a concordância nos maus gostos, ainda mais importantes. Os dois gostavam das mesmas coisas, coisas essas que as outras pessoas pensavam não ter valor absolutamente nenhum. Foi com espanto, por exemplo, que Pedro descobriu que Céu Vermelho tinha, como ele próprio, um fascínio pelos filmes pornográficos do início dos anos 80. Nunca tinha conhecido uma mulher que gostasse daquilo, mas Céu Vermelho gostava, e isso tinha feito o clique: Pedro passou o seu estado civil para SOLTEIRO, MAS APAIXONADO. Quando chegou a essa conclusão, passou a tentar, de todas as formas, encontrar-se com ela. Sabia que viviam na mesma cidade. Sabia que passavam pelos mesmos sítios. Mas ela não queria encontrar-se com ele. Continuava a mesma presença indefinida no seu Facebook. Se calhar, pensava ele, talvez fosse um fantasma. A rede social estaria habitada por fantasmas: almas gémeas não corporizadas, virtuais. Comentários seguintes deram-lhe, no entanto, pistas do contrário. Céu Vermelho conhecia-o pessoalmente. Sabia os seus hábitos. Isso limitava o seu âmbito de procura: do mundo, passou à cidade onde vivia, depois delimitou a zona da cidade, as ruas, até que finalmente chegou à conclusão, certa e definitiva, de que costumava ir ao café onde tomava o pequeno-almoço todos os dias. A partir desse momento, passou a observar tudo e todos no café: clientes, empregadas, baixas, magras, gordas, obesas, altas. Todas eram escrutinadas, e, por um motivo ou outro, postas de lado. Havia no entanto uma empregada por quem ele tinha especial fascínio. Talvez fosse pela sua forma simples de ser, pela sua simpatia genuína. Mas havia um senão: ela namorava. Seria a sua alma gémea comprometida? Que desperdício de gemelaridade. Ela não dava pistas, mesmo assim, pelo que ele abandonou a procura.
            “Desisto”, escreveu ele no chat.
        “Desistes facilmente. Eu bem vejo que tu procuras. Mas não procuras no lugar certo”, foi a resposta, e ela não voltou a tocar no assunto.
         Não existe um lugar certo para se procurar aquilo que não se sabe que se procura. Entretanto, Pedro conversa cada vez mais com a empregada do café, quando esta está sozinha. É uma conversa estranha – ele a beberricar um café horrível (porque a simpatia da empregada era inversamente proporcional ao seu talento para tirar cafés), ela do outro lado do balcão a fazer coisa nenhuma, sempre em movimento, para que pareça estar a trabalhar à vista das câmaras que o patrão instalara. O assunto veio à baila quando ele se sentiu mais à vontade para falar dele:  perguntou-lhe abertamente se ela era a pessoa que usava a alcunha de “Céu Vermelho” no Facebook. Ela disse que não. Nem tinha Facebook. “E o que lhe faz pensar que é uma mulher?”, perguntou ela. Ele reconheceu que ela tinha razão. A sua alma gémea, fantasma da Internet, ou o que quer que fosse, nunca se tinha assumido como mulher, nem muito menos como homem. Mas sabia que ela(e) ia àquele café. As conversas entre ele e a empregada do café continuaram, tornaram-se mais frequentes e mais profundas. Ela não era a empregada de café típica. Aluna de letras, tinha sido obrigada a sair da universidade por não poder pagar as propinas – mas mesmo assim conseguia manter o encanto e o bom-humor. Concordou em tentar descobrir quem era Céu Vermelho. O Pedro abanou a cabeça, olhou para ela e disse-lhe para não o fazer. Para quê procurar quem não queria ser encontrado, se o que ele queria estava à sua frente? 


Pseudo-epílogo

Só muito mais tarde, já depois de morarem juntos, é que a empregada do café, a futura Sra. Pedro, lhe revelou a mentira. Céu Vermelho era ela, mas nunca acreditaria num homem que se apaixonasse por uma presença anónima numa rede social. Durante meses ela dera pistas do que sentia, mas ele não lhe prestava atenção. Esse Pedro de antigamente era bem burro, comentou o Pedro de agora, com a certeza de que, desta vez, seria feliz.