terça-feira, 29 de maio de 2012

Amor em tempo de crise


Não restava qualquer dúvida, ao Manuel, de que amava Inês. Como não havia dinheiro para casarem, alugaram um apartamento pequeno nos arredores; tiveram dois filhos e eram felizes até que ficaram, os dois, desempregados. Depois disso continuaram felizes, mas com uma sombra de incerteza muito grande em cima da cabeça deles. Com várias rendas em atraso, contas por pagar e sem dinheiro para pôr comida na mesa, Manuel sentiu que tinha de sair; foi procurar trabalho numa cidade próxima. Encontrou Matilde, uma mulher divorciada a quem ocultou o facto de ter uma família. Quando podia, regressava em segredo para junto de Inês, trazia dinheiro e comida da despensa de Matilde, até ao dia em que tocaram à porta da sua casa, que partilhava com Inês e os dois filhos - foi um deles que foi abrir, contrariando a vontade do pai, mas ele era assim. “Quem é, Pedro?”, perguntou Manuel, chegando junto à porta onde deu de caras com Matilde. Ela olhou para ele, com um sorriso matreiro. Inês chegou ainda antes dele poder falar com ela.
         “Quem é?”, perguntou Inês, a limpar as mãos ao avental. Manuel responde que é uma amiga. Não consegue disfarçar o nervosismo na voz. Matilde ajuda-o: “Conhece-mo-nos no comboio. Ele esqueceu-se disto... (trazia na mão um casaco de malha que Inês não via há muito tempo)". Inês comentou que já tinha dado pela falta do casaco. Manuel estava a um ponto de ter um ataque, enquanto que Inês convida Matilde para lanchar. Para desespero do Manuel, esta aceita; entra na casa deles, observando com interesse todos os detalhes. A casa do Manuel e da Inês era tão diferente da casa dela, como da água para o vinho. Os filhos não abrandavam a algazarra, estavam excitados por terem uma visita, ainda por cima uma senhora tão bem vestida e vistosa como Matilde. Sentaram-se à mesa da sala. Inês trouxe chá, tostas e umas latas pequenas.
“O Manuel diz que isto é bom”, diz ela, abrindo as latas e colocando-as na mesa.
“É caviar”, explicou Matilde, “eu também gasto desta marca.”
Manuel não sabia onde se meter. Não abriu a boca o tempo todo. Inês discutia pormenores sobre os filhos. Matilde estava genuinamente interessada em saber. Pareciam dar-se bem.
A campainha tocou. Um dos filhos deles foi abrir. Anunciou uma visita, e Inês foi até à porta. Manuel ouviu-a a falar e percebeu que ia demorar.
“O que é que estás aqui a fazer?”, perguntou, quando percebeu que Inês estava longe e os miúdos entretidos a ver televisão.
Matilde serviu-se do caviar, do caviar que era DELA.  
“Eu não convivo bem com a falsidade. Queria saber quem tu eras. Agora já sei: és um pulha.”
Manuel não podia refutar o óbvio.
“Vais dizer-lhe?”, perguntou ele, o coração aos saltos.
“Tem calma. Eu sei o que custa um lar desfeito. Creio que podemos chegar a um acordo. Se me responderes a uma pergunta”
“Diz”, disse ele, enquanto ouvia a Inês a dar uma gargalhada histérica.
“Tu sentes-te atraído por mim? Já sei que amas a Inês. Mas é importante, para mim, saber isto. Eu não vou contar nada, qualquer que seja a tua resposta.”
Manuel disse que sim. Não a amava, mas sentia uma atracção forte por ela.
“Muito bem. Eu consigo viver sozinha, mas não absolutamente sozinha. E gosto muito de ti, muito mais do que qualquer outro namorado que tive, desde que o palhaço do meu marido me abandonou. O acordo é este.”
Matilde explicou o acordo, em voz baixa, pressentindo o regresso de Inês. Manuel ficou de pensar.

No fim do lanche, Manuel ficou aliviado ao ver as curvas sedutoras da Matilde a sair de casa. Inês esperou que ela desaparecesse na rua, e olhou furiosa para ele. Nada que ele já não esperasse.
“Eu não sei o que se passou aqui, mas esta serigaita não é tua amiga, coisíssima nenhuma. Ai de ti se trazes alguma amante cá para casa outra vez. Não me importa o que faças com ela: esta é, e será sempre, a nossa casa. Eu sou, e serei sempre, a tua mulher.”
Novamente, Manuel não conseguiu refutar o óbvio. Nunca mais Inês ouviu falar em Matilde, que se mudou para Lisboa e arranjou por lá um trabalho para o Manuel. O trabalho de sonho, que ele sempre ambicionara. Inês, no entanto, não queria saber em ir viver para Lisboa.  Ao dia de semana, Manuel vivia secretamente em Lisboa com a Matilde, e vinha ao fim de semana para casa.

E viveram, os três, estranhamente felizes para sempre.




segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais uma página em BRANCO


Mais uma página em BRANCO
Bolas, mais uma página em BRANCO, e agora? É do caraças. Toca a inventar uma personagem - branca, como a página. Mas também poderia ser negra, azul ou às pintinhas. No dia em que o milímetro de epiderme definir a pessoa pelo seu todo, as galinhas terão dentes, e pelo mesmo motivo: o da estupidez, pura e dura. Mas adiante. A minha personagem chamar-se-á Pedro. Tem um pequeno escritório de contabilidade, vive sozinho num apartamento normalíssimo. Aliás, toda a sua vida é absolutamente normal, tão normal que ele tem a impressão de não ter vida. Talvez seja essa a razão dele não conseguir ter um relacionamento mais estável: a sua insustentável normalidade de pessoa normal, heterossexual assumido, algo quadrado nas atitudes. Gosta de música dos anos 70 e 80, abomina o que é tocado nas discotecas e bares. Por essa e por outras, Pedro sente-se sozinho e tem tendências para a depressão. Até brinca com isso: “Mais deprimido do que eu, só mesmo a situação económica do país”, matuta ele, enquanto termina mais um modelo 22. Mas ainda mais adiante: Pedro está apaixonado. Descobriu há pouco tempo, e mudou completamente o seu mundo cinzento. A culpada chama-se Céu Vermelho. Não, não é brincadeira. Ele está apaixonado por um perfil anónimo que habita no seu Facebook. Nunca viu sequer uma fotografia dela, mas todas as conversas que tiveram deu-lhe essa certeza, a certeza de ter conhecido a sua alma gémea. Não se trata apenas da concordância de gostos, mas também a concordância nos maus gostos, ainda mais importantes. Os dois gostavam das mesmas coisas, coisas essas que as outras pessoas pensavam não ter valor absolutamente nenhum. Foi com espanto, por exemplo, que Pedro descobriu que Céu Vermelho tinha, como ele próprio, um fascínio pelos filmes pornográficos do início dos anos 80. Nunca tinha conhecido uma mulher que gostasse daquilo, mas Céu Vermelho gostava, e isso tinha feito o clique: Pedro passou o seu estado civil para SOLTEIRO, MAS APAIXONADO. Quando chegou a essa conclusão, passou a tentar, de todas as formas, encontrar-se com ela. Sabia que viviam na mesma cidade. Sabia que passavam pelos mesmos sítios. Mas ela não queria encontrar-se com ele. Continuava a mesma presença indefinida no seu Facebook. Se calhar, pensava ele, talvez fosse um fantasma. A rede social estaria habitada por fantasmas: almas gémeas não corporizadas, virtuais. Comentários seguintes deram-lhe, no entanto, pistas do contrário. Céu Vermelho conhecia-o pessoalmente. Sabia os seus hábitos. Isso limitava o seu âmbito de procura: do mundo, passou à cidade onde vivia, depois delimitou a zona da cidade, as ruas, até que finalmente chegou à conclusão, certa e definitiva, de que costumava ir ao café onde tomava o pequeno-almoço todos os dias. A partir desse momento, passou a observar tudo e todos no café: clientes, empregadas, baixas, magras, gordas, obesas, altas. Todas eram escrutinadas, e, por um motivo ou outro, postas de lado. Havia no entanto uma empregada por quem ele tinha especial fascínio. Talvez fosse pela sua forma simples de ser, pela sua simpatia genuína. Mas havia um senão: ela namorava. Seria a sua alma gémea comprometida? Que desperdício de gemelaridade. Ela não dava pistas, mesmo assim, pelo que ele abandonou a procura.
            “Desisto”, escreveu ele no chat.
        “Desistes facilmente. Eu bem vejo que tu procuras. Mas não procuras no lugar certo”, foi a resposta, e ela não voltou a tocar no assunto.
         Não existe um lugar certo para se procurar aquilo que não se sabe que se procura. Entretanto, Pedro conversa cada vez mais com a empregada do café, quando esta está sozinha. É uma conversa estranha – ele a beberricar um café horrível (porque a simpatia da empregada era inversamente proporcional ao seu talento para tirar cafés), ela do outro lado do balcão a fazer coisa nenhuma, sempre em movimento, para que pareça estar a trabalhar à vista das câmaras que o patrão instalara. O assunto veio à baila quando ele se sentiu mais à vontade para falar dele:  perguntou-lhe abertamente se ela era a pessoa que usava a alcunha de “Céu Vermelho” no Facebook. Ela disse que não. Nem tinha Facebook. “E o que lhe faz pensar que é uma mulher?”, perguntou ela. Ele reconheceu que ela tinha razão. A sua alma gémea, fantasma da Internet, ou o que quer que fosse, nunca se tinha assumido como mulher, nem muito menos como homem. Mas sabia que ela(e) ia àquele café. As conversas entre ele e a empregada do café continuaram, tornaram-se mais frequentes e mais profundas. Ela não era a empregada de café típica. Aluna de letras, tinha sido obrigada a sair da universidade por não poder pagar as propinas – mas mesmo assim conseguia manter o encanto e o bom-humor. Concordou em tentar descobrir quem era Céu Vermelho. O Pedro abanou a cabeça, olhou para ela e disse-lhe para não o fazer. Para quê procurar quem não queria ser encontrado, se o que ele queria estava à sua frente? 


Pseudo-epílogo

Só muito mais tarde, já depois de morarem juntos, é que a empregada do café, a futura Sra. Pedro, lhe revelou a mentira. Céu Vermelho era ela, mas nunca acreditaria num homem que se apaixonasse por uma presença anónima numa rede social. Durante meses ela dera pistas do que sentia, mas ele não lhe prestava atenção. Esse Pedro de antigamente era bem burro, comentou o Pedro de agora, com a certeza de que, desta vez, seria feliz.

domingo, 20 de maio de 2012

Destino




Era o seu destino, aconteceu naquele dia. Tinha planeado ir a outro sítio, mas os amigos levaram-no aquele parque de diversões, que ele nem sabia que estava aberto. Mas era o seu destino ir lá, naquele preciso dia. Divertiram-se como era hábito deles, depois dispersaram-se. Ele, ao contrário dos outros, não namorava com ninguém do grupo. Aliás, estava, como ele costumava dizer, entre dois amores, só que começava a desesperar com a espera.

Viu então um cartaz que lhe chamou a atenção. “Veja o seu futuro”, podia ele ler no cartaz. Ele, que nunca acreditara nessas coisas, resolveu deixar as suas descrenças para trás e entrou na tenda, sentindo logo o intenso cheiro a algo que ele resolveu não perguntar o que era. A bruxa, de Iphone na mão e bola de cristal em cima da mesa, olhou para ele e disse-lhe, simplesmente: “Um momento, que estou a actualizar o meu perfil no facebook”. Ela escreveu uma mensagem, ou pareceu estar a escrever, fez um sorriso estranho, e olhou para ele.

- Vejo que pretende ver o seu futuro.

“Uau”, pensou ele, “ela é mesmo boa. Nunca pensaria isso. Talvez viesse comprar costeletas.”

- Prefira carnes brancas. – disse ela. E ele sentiu um arrepio na espinha e tentou não pensar em nada. Já estava arrependido de ter entrado ali.

- Não há nada a temer, à excepção da verdade – disse ela, olhando para a bola de cristal. – Ou se calhar até há.

- Vou morrer? – perguntou ele.         

Ela disse que sim.

- Mas todos morremos. Consegue ver quando vai ser? Eu gostava de ter tempo para ver os meus filhos crescer.

Ela olhou para ele com preocupação. Ele ficou aflito.

- Então, eu aconselhava que se despachasse, porque só tem 24 horas de vida – sentenciou ela.

Ele saltou imediatamente da cadeira.

- Você está doida! – gritou ele, saindo da tenda. Depois, apercebeu-se de que não tinha pago, e voltou para trás. Ela estava à espera dele, com a mão preparada para receber o dinheiro.

“Vou morrer nas próximas 24 horas”, pensou ele. “Ela está doida!”

Mas, mesmo pensando que ela pudesse estar doida, ele, que não contou a ninguém o sucedido para não alarmar ninguém, passou a ter cuidado com tudo e com todos. Não queria correr riscos absolutamente nenhuns. Esperava sempre que os carros parassem antes de passar na passadeira, evitou comer fora de casa, evitou insultar os outros condutores enquanto conduzia, se via um gato preto afastava-se, e, se via uma escada, rodeava-a. Foram as 24 horas mais aborrecidas que ele tinha vivido, sem correr riscos absolutamente nenhuns.

Voltou então à feira, quando estava quase a completar o prazo. Entrou na tenda quando faltavam poucos minutos para as 24 horas, e disse à vidente: “Como vê, ainda estou vivo.”

A vidente olhou para ele, muito séria, pegou na bola de cristal e atirou-a à cabeça dele, que caiu inanimado no chão.

“Eu não gosto que me contradigam”, foi a última coisa que ele ouviu.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

O meu Novo EU

Quando vi no jornal a notícia, nem queria acreditar


O Meu Novo EU



Q
uando vi no jornal a notícia, nem queria acreditar. Era aquilo que eu procurava: “Saia de si próprio, mude de vida. Seja outro.” Era aquilo, sem tirar nem pôr. A Laura não se queixava, mas eu invejava secretamente a elegância e o aspecto dos outros. Queria deixar de usar os óculos grossos, de ser baixo, gordo e calvo. E músculos, queria ter músculos, não aquela massa amorfa de banha. A Laura não se queixava, mas eu sim. E agora aquele anúncio. Liguei de imediato, tão imediato que nem dei pelo facto de ter pegado no telemóvel e marcado o número. Do outro lado foram muito simpáticos e marcaram uma entrevista, como qualquer outro vendedor, quando pretende marcar uma entrevista para vender o que quer que fosse, e eu queria comprar – queria MUITO comprar um outro EU.

A entrevista correu bem. Explicaram-me que era um processo que estava na fase final dos testes, pelo que seria bastante barato. Ficaria a pagar uma mensalidade.

“E o que acontece se não puder pagar?”, perguntei eu. Eles responderam que me devolviam o meu antigo-EU. “Está bem, então”, disse eu, radiante, e sem querer saber o que eles iriam fazer com o meu antigo-Eu; mas eles explicaram-me o processo: o meu antigo-EU, biológico, seria colocado num congelador, enquanto que a minha personalidade e memórias seriam passadas, na íntegra, para um corpo sintético, absolutamente igual a um corpo biológico, só que sem a possibilidade de ter filhos (a Laura também não podia ter filhos, pelo que já tínhamos pensado em adoptar); além disso, seria eterno. Viveria para sempre. Essa possibilidade interessou-me de imediato: uma eternidade com um corpo decente, em vez de uma vida limitada com este corpo defeituoso. Aceitei de imediato. Faria uma surpresa à Laura com o meu corpo novo, um presente de aniversário (já lhe tinha comprado coisas mais caras, afinal).

Fizeram-me um questionário sobre o corpo que preferia. Olhos? Azuis. Cabelo? Castanho. Altura? 1 metro e oitenta.  Sexo? Masculino XXL. À medida que completava o questionário -parecia que estava na fila do McDonalds para escolher as opções do menu McEU-,  cheguei à conclusão que ficaria absolutamente perfeito.

Perfeito.

Assinei o contrato e paguei o sinal de entrada. Demoraria um mês a ficar pronto. Fiquei todo contente. Escondi todo o processo da Laura, e continuámos a nossa vidinha de sempre, sem lhe referir o facto de que iria ter uma versão renovada de MIM. Um MIM 2.0, muito melhor. Perfeito. Devastadoramente atraente. Só para ela.

Aquele mês demorou muitos meses a passar, até que, finalmente, o dia chegou. Observei o meu novo EU deitado, inerte, e senti-me orgulhoso. Eu iria passar a ser assim. Deitei-me e fui adormecido, de forma a ser feita a passagem das memórias e da personalidade.

Acordei e abri os olhos de imediato. Apercebi-me, imediatamente, de que estava diferente. Via, cheirava e ouvia muito melhor. Levantei-me e tentei dar alguns passos, sem grande dificuldade. Ainda vi levarem o meu corpo antigo (e parecia realmente feio e disforme). Vi-me ao espelho. Tinha realmente um bom aspecto.
Mas.

Havia sempre um mas, bem grande por sinal. A minha cara.

Observei-a mais de perto, ao espelho.

“Porque é que não consigo sorrir?”, perguntei, tendo logo outro susto ao ouvir a minha voz. Era fria, seca, muito diferente da minha voz antiga, bastante quente. Laura gostava da minha voz. Responderam-me que podiam ajustar a voz, e que os músculos da cara iriam ao sítio num par de dias.

Acreditei neles. Saí do edifício convencido de que Laura iria ter uma boa surpresa.
Mas não teve, tive muito trabalho para que ela acreditasse que era eu. E ela então disse-me que não gostava. Não era Eu. Ela amava o meu EU antigo, não aquele pedaço de borracha perfeito. Ela gostava das minhas imperfeições, sentia um arrepio na espinha sempre que ouvia a minha voz antiga. Não conseguia amar este novo EU. Perfeito demais. Seria como amar um manequim.

Tive a mesma reacção de toda a gente com quem falei. Apreciavam o meu EU anterior. Preferiam a minha imperfeição. A decisão estava tomada. Mesmo que as outras mulheres se sentissem visivelmente atraídas por este novo eu, a única que eu queria que se sentisse atraída não estava, pelo que a decisão seguinte era fácil de tomar: tirar o meu EU antigo do congelador, e voltar a vesti-lo.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Questões

Existem questões
Existem questões
sem resposta, mas não existem
respostas sem questões. Perguntar é uma arte
que se aprende                                   bem cedo,
desde que
         nos aperce-
        bemos das
     diferenças
  e começa-
mos a duvi-
         dar das se-
      melhanças.
   Porque é
  que o mar
  é azul, e a
  terra casta-
  nha, e as fo-
  lhas das árvo-
  res são verdes?
  E por que é que
  no   Outono   as
  folhas mudam  de
  cor e caem? E por-
  que é que o avô é
  tão diferente do
   papá? E onde

          está a avó?
      E para que é esta
coisa que tenho no meio
das pernas? E  porque  é
 que   as   meninas    são  
   diferentes? E como
       é que eu nasci?


E porque é que os papás se casam com as mamãs? Tanta questão, e a escola só dá respostas, quando devia ajudar a fazer as perguntas. Em especial a grande pergunta: papá, já sabes tudo? E eu digo que não, mas sei fazer perguntas. A procura das respostas faz parte do meu caminho.

O Sonho

Penso que dormes

O Sonho



P
enso que dormes. Penso que durmo. Confundo sempre o sonho com a realidade, quando estou Contigo. A música envolve-me. Ninguém a ouve. Só eu. E tu. São músicas diferentes, sempre foram; até ao momento em que a ouvimos juntos. Olho para ti. Penso que dormes. Ou brincas, como é teu hábito. Mesmo assim ouço a tua música no contorno suave da tua pele. O leve sorriso revela-te. O olho abre-se. Contempla-me. Sequioso. A música sobe de tom. Toco-te. O mundo desaparece. Só existimos os dois, num abraço, pele com pele, carne com carne. A junção perfeita, ou mais que perfeita. Nada mais existe: és a minha pele, sou a tua carne, o mundo é irrelevante: não existe. O único som que ouço é o da nossa música. Os acordes perfeitos ao acordar. Todos os dias diferentes. Nossos. Não existe mais nada quando eu estou em ti. Nem tu, nem eu. Somos nós. Prolongamos o prazer muito para além do prazer, para não sentirmos, tão cedo, a irrelevância dos corpos, que um Deus cruel separou à nascença e que desejam estar sempre juntos.
Ou terei sonhado? Olho para ti.
Penso que dormes.






sábado, 12 de maio de 2012

A Princesa Valente

A princesa valente







A princesa valente

Uma história de desencantar














Último Capítulo










E o príncipe valente, vencendo o último monstro, libertou a princesa e regressaram ao Castelo, onde casaram e viveram felizes para sempre.











FIM











Epílogo




viveram felizes para sempre, UMA GRANDECÍSSIMA OVA!, PENSOU A PRINCESA, quando se fartou, finalmente, das  constantes saídas do príncipe. Aquela sua carreira de Salvador estava a dar cabo do casamento deles.
Estava farta.
Aquilo eram monstros, monstrinhos e monstrecos, que apareciam de tudo o que era lado.
E a vida sexual deles, quem a salvava? Perguntava-se ela, que desesperava por um filho.
Desanimada, desforrava-se em grandes Farras com as amigas. As bebedeiras eram TANTAS que a sorte dela era o CAVALO saber o caminho para o castelo.
-ENGANA-O! – dizia uma amiga, doutorada no assunto. O marido tinha um par de cornos de tal tamanho, que podia ser usados como bengaleiro.
Mas ela, apesar da distância, tinha apenas uma certeza: AMAVA-O.
E assim passava os seus dias, triste e desconsolada. Sabendo do seu estado, não eram poucos os oportunistas que tentavam a sua sorte. A todos ela dizia a mesma coisa: “Vão ter com a minha amiga, com ela terão melhor sorte. Eu, só penso no meu príncipe.”

Teve então uma ideia .
Não sabia como é que ainda não tinha pensado nisso. Ela era, de certo, princesa para isso e para muito mais. Procurou um soldado de confiança, coisa rara, nos dias que corriam - mas ele tinha sido amigo dela, e, muito embora a princesa fosse a mulher mais bela do reino, nunca trairia a sua amizade, por muito que, secretamente, a amasse.

“Ensina-me a ser valente”, pediu a princesa.

O soldado olhou-a com o seu único olho, e disse: “Mas já sois valente, minha princesa. A mulher mais valente do reino.”

“Então, ensina-me a ser valente como um homem, porque a minha valentia de mulher não me leva a lado nenhum.”, disse ela.       

O soldado, vendo que a vontade dela era grande, começou a treiná-la nas artes da guerra, a manejar a espada, a lança e a besta. E, se no princípio a princesa andava ali às aranhas, sempre a cair e a falhar, rapidamente começou a andar aos leões. A mestria dela era tanta, que 
o soldado já
não conseguia
ganhar-lhe.
Aconteceu que, a pedido da princesa, eles treinavam numa gruta perto do castelo. Os lavradores ouviam os barulhos dos gritos que vinham da montanha, e convenceram-se de que havia um monstro a habitar nela.
Com medo de assustar a princesa, falaram com o alcaide, que mandou secretamente chamar o príncipe, porque não queria, também ele, alarmar a princesa.
O príncipe chegou, alguns dias depois, secretamente, porque também ele não queria alertar a princesa. Nem o monstro.



A
peou-se junto da entrada da caverna, tirou a sua melhor espada e o escudo do alforge, e seguiu pelo carreiro que conhecia desde criança. Começou a ouvir os gritos do monstro que, ao contrário dos outros homens, que ficavam paralisados de medo ao ouvir semelhante grito, ainda lhe deu mais vontade de entrar.

Descobriu, rapidamente, a origem dos gritos, que ele conhecia perfeitamente das noites com a sua princesa. Encontrou-a vendada, a lutar com um dos seus soldados de confiança. Fez-lhe um sinal para manter silêncio, e trocaram de posições, passando a ser o príncipe a lutar com a princesa. O soldado, para que ela não estranhasse, continuava a dar recomendações, e ela, embora estranhando a alteração na forma do seu professor lutar, continuava a dar os seus gritos.
  
“Achas que o meu príncipe vai ficar orgulhoso de mim?”, perguntou ela, parando de lutar, arfando, toda suada, mas sem tirar a venda.

“O teu príncipe já está orgulhoso de ti”, disse o príncipe, enquanto lhe tirava a venda dos olhos.


O príncipe reconheceu a sua falha, e a mulher passou a acompanhá-lo nas suas aventuras, até que nasceu o primeiro de muitos monstros. Digo, filhos.
Com quem eles lutaram muito. Digo, amaram.

E foram realmente felizes para sempre.








AGORA, sim, É o FIM.