Isto não é um conto, é mais um pensamento. Aliás, dois. Somos seres vivos, feitos de matéria. Simples. Átomos que se juntaram em moléculas, que formaram células, que se juntaram em tecidos, que formam orgãos capazes de suportar a vida. Parece-nos simples. A maior parte de nós atravessa a sua existência sem se deter para pensar nisto. Vivem sem ter a consciência de que estão vivos, e no privilégio que isso representa - sem ter consciência de que todas as nossas células conspiram para um único fim, o de nos manter vivos.
O segundo pensamento ainda é mais complexo. Dizem os peritos que toda a matéria teve origem num único momento, ao qual deram o nome de Big Bang, com a mania que os peritos têm de dar nomes a tudo o que se mexe e fica parado. Todos nós somos feitos da mesma matéria das estrelas, que é usada e reciclada através dos tempos, assumindo diversas formas.
É um pensamento estranho. Partes de mim já fizeram parte de outros seres. Os átomos que compõem o meu corpo habitaram outras formas de vida, que por sua vez já tinham feito parte de outros corpos. Eu sou composto por outras vidas. Centenas de milhares de outras vidas. Que por sua vez também partilharam a sua matéria com outras centenas de milhares de vidas, numa trama que existe desde o início da vida.
Somos feitos do pó das estrelas, partilhamos todos da mesma matéria e tudo conspira para que permaneçamos vivos.
E mesmo assim ainda não aprendemos a respeitar-nos uns aos outros....
sábado, 7 de janeiro de 2012
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Maria e Iosif
A Maria e o Iosif chegaram a Lisboa na véspera de Natal. Não
tinham planeado chegar naquela altura, preferiam ter passado o Natal com os
seus familiares em Slobozia, na Roménia, mas tinham sido obrigados a mudar de
planos. Vinham cheios de sonhos e esperança de fugir à fome e à miséria da sua
terra. Sabiam que em Portugal a situação não era muito melhor, mas pelo menos
ainda havia alguma esperança para quem não desistisse de lutar, e Iosif não
costumava desistir. Havia no entanto o problema da gravidez avançada de Maria. Apesar dos pedidos de toda a gente, ela, teimosa como sempre, não quisera ficar na Roménia. A criança nasceria dentro de algumas semanas. O tempo suficiente
para que eles conseguissem chegar à família que Maria tinha em Portugal.
Saíram do comboio que os trazia de Madrid e pousaram as
malas no chão da estação de Santa Apolónia. Maria tinha sede. Além disso sentia
pontadas na barriga, que alegava terem sido causadas pelas muitas horas de
viagem. Iosif entrou no bar, deixando a mulher sentada ao lado das malas, num desconfortável banco metálico. Um grupo de rapazes aproximou-se de Maria,
gritando animadamente uns com outros. Um deles atira um rapaz alto contra o
banco onde estava Maria, quase caindo em cima da barriga dela. Maria afasta-se
para o extremo do banco, o rapaz pede desculpa e levanta-se, correndo atrás do
outro rapaz. As pessoas aproximaram-se de Maria, mas ela não percebia a língua.
Apontavam para as malas, agitadas. Foi então que Maria percebeu. Quando Iosif chegou com
a garrafa de água nas mãos, encontrou a esposa a chorar.
“Fomos
roubados, Iosif!”, disse ela, a voz quase incompreensível, uma mão a segurar a
barriga. Iosif entregou-lhe a água. Olhou em volta para ver se via a mala, que
continha todo o dinheiro deles, bem como os contactos e os documentos. Deixou-se
cair no banco, ao lado de Maria. Abraçou-a da forma mais carinhosa que
encontrou. Estava mais preocupado com as dores que a mulher sentia do que com o
resto. Tinham apenas dinheiro para comer uma refeição leve.
“Vai correr
tudo bem, Maria, não te preocupes.”, disse ele. Depois
tentaram caminhar até uma estalagem que tinha sido aconselhada, mas como não
tinham dinheiro foi-lhes recusada a estadia. Correram todas as pensões e
residenciais da zona. Todas recusaram indicando estarem cheias. As que diziam
não estar cheias não os deixavam ficar, mesmo vendo o estado de Maria.
Chegando à
noite, encontraram uma casa abandonada. Estava a ficar frio, e qualquer coisa
era melhor do que estar ao frio. Nunca pensavam passar a véspera de Natal na
rua, ou mesmo numa casa abandonada. Maria via o desespero de Iosif e tentava
acalmá-lo. “Vai correr tudo bem”, disse ela, antes de dar um grito.
“Maria!”, gritou Iosif. Percebeu que o bebé estava para nascer. Encontrou um cobertor e
uma almofada no chão. Deitou-a da forma mais confortável que podia arranjar.
Estava desesperado, mas não o podia mostrar. Maria estava cheia de dores.
Berrava. Tudo estava a acontecer rápido
demais. E ele estava sozinho com ela.
Mas Iosif
estava enganado. Sentiu uma presença por trás dele. Virou-se. Uma mulher baixa
e gorda falou algo que ele não percebeu.
Ele falou em francês – ela respondeu-lhe, aninhando-se.“Afasta-te.
Eu já dei à luz muitos bebés”, disse ela, no seu francês macarrónico, quase
imperceptível. Ele sentiu-se aliviado. Ajudava-a no que podia. O parto durou
mais de uma hora, e quando Maria já estava completamente exausta, o bebé
nasceu.
Iosif nunca se sentira
tão feliz como naquele momento, quando teve o filho nos braços e percebeu que
Maria estava bem. Tinha uma família! Não começara da melhor forma, mas daria
tudo para melhorar. Ana, a mendiga que ajudara Maria a dar à luz, chamou alguém,
e apareceram de imediato mais dois mendigos. que tinham ficado na sala do lado. Juntaram o pouco que tinham e
improvisaram uma consoada – o melhor Natal que Iosif teria em toda a sua vida.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
O Natal do Ramiro
O Ramiro era um gato que vivia num apartamento. Passava o
tempo na varanda a observar as pessoas que passavam lá em baixo na rua, e que
via nos apartamentos da frente – era o seu passatempo favorito, não podia
evitar ser um gato cusco, nem via nenhuma razão para isso. Achava curiosa a vida
das pessoas, chegara mesmo a pensar que alguém as tinha inventado com o fim único dele
poder passar as tardes enquanto esperava a dona chegar da escola. Gostava bastante
daquela época do ano, que antecedia a sua época favorita, em que costumava
descer à rua para namorar. Miauuuú!
Achava piada ao facto do bulício das pessoas na rua aumentar
naquela época. Andavam quase que a correr, com sacos nas mãos. O trânsito aumentava
e tornava-se insuportável em direcção à casa grande que ficava no final da rua
e onde ele via a maior quantidade de gente com os seus sacos. Deviam dar sacos
naquela casa, mas o Ramiro já tinha ido até lá numa das suas saídas, mas não
tinha encontrado nada. Apenas portas fechadas.
No prédio da frente raramente via pessoas, mas numa noite, e
numa única noite durante o ano, as pessoas juntavam-se para comer. Até na casa
da sua dona isso acontecia. Gente que ele não via o resto do ano aparecia de
surpresa e invadia-lhe o espaço que era dele. O Ramiro não percebia aquilo. Porque
razão só se reuniam todos naquela única noite durante o ano? O seu raciocínio
de gato não conseguia perceber.
E depois trocavam presentes. Em todas as casas. Ele
conseguia ver através das janelas dos apartamentos da frente. Parecia que eram
todos da mesma família, mas só naquela noite, nas outras tornavam-se estranhos,
até que o ritual voltava a acontecer no ano seguinte... E o Ramiro abanava a
cabeça.
Sinceramente, não percebia, mas ele tinha um segredo –
também ele fora um presente de natal.
Lembrava-se perfeitamente de estar cheio
de medo dentro de uma caixa onde alguém tinha feito furos para ele poder
respirar. Ficara lá durante horas. Depois ouviu uma vozinha de menina, voz essa
que o acompanharia durante o resto da sua vida e que ele simplesmente adorava. Duas
mãos pequeninas abriram a caixa, ele ouviu um grito de alegria e de seguida
essas mesmas mãos pegavam nele, de uma forma desajeitada mas que rapidamente se
tornariam hábeis, e de imediato todo o medo o abandonou.
Ainda agora ele se lembrava desse momento, enquanto saltava
para o colo da sua dona, entretanto mais crescida. Enquanto ela lhe coçava as
costas, ele pensava que, pelo menos para ele, todos os dias era Natal…
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Da capo
Cruzei-me com Mozart quando ia para a praça. Parecia triste e melancólico, a cabeleira branca em desalinho, o fato branco sujo de pó. Cumprimentei-o em segredo, como se faz numa cidade e dirigi-me ao café da esquina. Entrei. Sentei-me na mesa de costume junto da janela e peguei no jornal. Distraído começo a ler, observando ao mesmo tempo Mozart lá fora, sozinho naquela noite de verão. Quando consigo ter atenção ao jornal percebo que é desportivo, mas não me apetece voltar a levantar. É cultura na mesma.
Quando volto a olhar para Mozart vejo-o rodeado de jovens ainda novos, com ar de marginal. Corriam à volta dele, tentando tirar-lhe a peruca. Ele, bastante mais alto, conseguia esquivar-se, dava murros e pontapés. Um dos marginais consegue o seu troféu num salto traiçoeiro, depois foge e desaparece na noite com a peruca.
Quando era mais novo convenci a família de que a minha vocação era a música. Por isso consegui que se canalizassem os esforços e o dinheiro necessário para me mandarem estudar no Porto. Todos ajudaram: pais, irmãos, irmãs, tios, primos, primas, sobrinhos, sobrinhas, bons vizinhos, más vizinhas e até o homem do talho.Arranjei um quarto num apartamento de estudantes, os quais passavam as noites a beber e os dias nas ressacas e que por isso não chateavam. Eles não deviam achar tanta graça ao piano que apareceu às escondidas lá em casa. Nas aulas safava-me mais ou menos.
Tinha escolhido o piano por gosto, mas a verdade é que sentia não ter vocação nenhuma para a música. Tudo o que parecia ter era uma paixão imensa. Estava claro que se os pais soubessem desta falta de vocação era um homem morto, e talvez por causa disso apliquei-me a fundo. Chegou no entanto um momento no qual me foi pedida uma grande composição. Era tudo o que eu precisava para passar o ano, por isso fechei-me no quarto e sentei-me ao piano, prometendo a mim mesmo não sair de ali sem que algo surgisse.
Passaram-se dias sem ter qualquer sucesso. Os colegas de apartamento queixavam-se constantemente do piano a todas as horas e eu calava-os com um berro. Um dia adormeci ao piano. Acordei com o bater na porta da rua.
Era Schubert. Pediu para entrar, num português com sotaque acentuado. Indiquei-lhe o quarto. Ele observou o compartimento, as paredes bolorentas, o colchão no chão, o piano em péssimo estado, as partituras espalhadas pelo chão, o banco e a mesa. No final sorriu de aprovação. "Boas instalações", disse ele, com ar sincero. Depois instalou-se ao piano e começou a tocar.
"Escreva", disse ele, não me dando tempo para pegar no papel e na caneta. Ele ia tocando e ditando ao mesmo tempo. Eu, empenhado no que estava a fazer, não estava atento à beleza da música. Só mais tarde, quando ele saiu, comecei a tocar a peça e pude apreciá-la na minha inaptidão de tocador. No final de ter ditado tudo ficámos a conversar durante bastante tempo. Depois saiu.
Beethoven chegou no dia seguinte. Tinha um génio terrível. Logo que lhe abri a porta ele entrou e foi para o quarto. Sentou-se ao piano. Eu, que já tinha visto aquele filme antes, corri para apanhar ainda alguns bocados do que ele já tinha começado a ditar. No final sorriu e foi-se embora.
Stravinsky era simpático. Conversou antes, conversou depois. Ditava lentamente. Mozart era um louco. Um espírito de criança num corpo minúsculo de adulto. Ditava enquanto tocava uma outra composição. Eu experimentava todas as peças, com uma ânsia inexcedível de quem era o primeiro a descobrir o que ninguém nunca ouvira. Havia coisas muito boas. Algumas deixavam muito a desejar, mas todas tinham a marca dos génios dos seus criadores.
Ana apareceu do nada, vinda da minha aldeia natal para procurar trabalho no Porto. Tínhamos namorado durante algum tempo, mas depois tudo acabara por imposição dos pais, tanto meus como dela. Eu acedi em parte porque via terminados os meus planos de vir estudar para o Porto. Ela acedeu por eu ter acedido. Sem uma zanga, sem nada. Lembro-me de ter ficado confuso na época com a reacção dela.
Ana apareceu do nada, vinda da minha terra natal e não tinha para onde ir, portanto pedia para ficar durante umas noites na minha casa. Pediu-o na frente dos meus colegas de quarto, para que eu não pudesse recusar sem pôr em jogo a reputação. Ana apareceu do nada, vinda da minha terra natal e ficou.
Dormimos fraternalmente juntos a primeira noite. Na segunda apareceu Strauss. Trazia o seu violino e tocou uma das suas mais conhecidas valsas. Dancei alegremente com a Ana, e no final comecei o trabalho. Ana olhava, sentada no colchão, sem perceber, na ingenuidade dos seus dezasseis anos. Strauss era um homem dos seus quarenta anos, de olhar vivo, esperto. Não escondia o seu encantamento por Ana, e ela pensava que o seu interesse não fosse tão visível. Eu estava no meio dos dois. No final de passada a peça, Strauss levantou-se do piano e foi beijar as mãos de Ana. Ela corou. Eu levei-o até à porta e vi-o a desaparecer na noite. Ana continuava corada. Não tinha percebido quem tinha sido o visitante e eu não lhe disse a verdade. Esperei cinco anos até lhe contar, quando já estávamos casados.
Ravel apareceu no dia seguinte e ditou uma peça fúnebre, mas intensamente bonita. Quando saiu toquei-a para Ana, que chorou de emoção.
Mozart continuava na praça, já resignado pela perda da cabeleira. Da esquina surgiu outro Mozart, o Mozart-mais-baixo, que se foi juntar ao primeiro e parecia estar a perguntar pela peruca. Da mesma esquina apareceu uma mulher-Mozart, que deu uma gargalhada sonora quando viu a falta do utensílio ao Mozart-mais-alto.
Eu virei a página do andebol e continuei a ler, despreocupado e imensamente divertido.
Handel contou uma anedota quando apareceu. Ou pelo menos parecia ser uma anedota, porque o meu alemão não estava o suficientemente evoluído para a perceber. Eu ri-me primeiro, para ser simpático, depois Ana deu uma boa gargalhada. Ele pareceu furioso connosco e foi-se embora sem ditar a sua música.
Na noite seguinte apareceu alguém que eu não conhecia, mas como era descortesia não lhe dispensar o mesmo tratamento, acedi sem grandes dúvidas a escrever a sua música. O resultado final foi uma música assombrosa, uma peça fluída e leve. Com a pressa de sair, no entanto, ele não assinou a obra.
Wagner e Rossini apareceram os dois à mesma hora. Rossini deu a entender a Wagner que se tinha enganado no dia e este foi-se embora.
Os tempos de sono fraternal entre eu e a Ana tinham acabado e transformaram-se num entendimento conjugal intenso. Ela no entanto suportava cada vez menos o constante vai-vem de músicos que entravam e saíam de aquele quarto minúsculo. Por aquela altura o meu maior sonho era entrar no gabinete de um dos maiores professores do conservatório com as pautas debaixo do braço. Depois de algum tempo enchi-me de coragem e fui ao encontro de um deles. Eu não sabia o que dizer quanto à proveniência do achado, mas no final decidi contar a verdade. O professor olhou-me de alto a baixo e sem dizer uma palavra sentou-se ao piano. Tocou durante uma hora, durante a qual eu fiquei sentado num sofá antigo, observando aquele homenzinho de um metro e meio de altura. No final ele virou-se para mim.
"Isto", começou ele, "são obras raríssimas e pouco conhecidas. Muitas delas eu nunca, nunca tinha ouvido, mas sabe-se sempre quem as escreveu." Senti-me desiludido. Afinal as peças não eram originais. Eu não era o herói que julgava ser. Não passava de um simples aluno de música. "Esta, no entanto, não conheço.", continuou. O velho professor pegou na partitura que o desconhecido me tinha ditado e tocou-a. No seu todo havia uma fluidez e harmonia excepcionais. Era-me estranhamente familiar, tocando-me de uma forma que nenhuma outra música me havia tocado antes. Chamava-se "Ode à Lua". No final o professor agradeceu-me por um momento agradável e recomendou que me empenhasse mais no trabalho que tinha de entregar.
O Mozart-mais-alto, sem peruca, pediu um cigarro à mulher-Mozart. Eu paguei e saí do café. Passei pelo trio de Mozarts. A mulher-Mozart, provocante com os seus lábios vermelhos e olhos verdes, estendeu-me um panfleto a anunciar uma festa numa discoteca próxima. Eu agradeci e entrei numa das ruelas que saíam da praça. Num regresso à juventude passei pela casa onde tinha morado quando andava a estudar. Hoje morava numa cobertura, era um maestro e compositor de sucesso, como havia poucos no país. Ana tinha uma loja de confecções no centro da cidade. A casa parecia estar em ruínas. Era impossível pensar que alguém pudesse viver ali. No entanto lembrava-me que naquele tempo estava exactamente no mesmo estado, como se durante vinte anos nada tivesse mudado. Vi a luz no meu antigo quarto. Subi as escadas e bati à porta. Passado um momento um rapaz novo veio abrir a porta. Por detrás dele estava uma rapariga ainda mais jovem, muito atraente na sua fisionomia rural.
"Boa noite", disse eu.
"Boa noite", disse ele, deixando-me entrar e indicando-me o caminho para o quarto do piano.
"Boa noite", disse ela em uníssono com ele, desaparecendo na cozinha. Eu avancei para o quarto. Ele indicou-me o banco do piano. De seguida perguntou-me o nome da composição. "Ode à Lua", respondi. O jovem não me perguntou o nome, e enquanto eu tocava e ditava a partitura, ele ia copiando meticulosamente tudo.
Ela apareceu pouco depois, numa pausa do trabalho, para oferecer uma bebida. Eu agradeci e aceitei. Aquele vinho estava esquecido há muito, juntamente com o resto das minhas recordações da juventude. Depois falámos um pouco. Falámos de música. Falámos de sonhos. Falámos de Ana, sem dar a entender que a conhecia melhor que ele próprio. No final voltámos ao trabalho. Passava um segundo da meia-noite quando saí. Despedi-me deles e perdi-me na noite da cidade.
Quando volto a olhar para Mozart vejo-o rodeado de jovens ainda novos, com ar de marginal. Corriam à volta dele, tentando tirar-lhe a peruca. Ele, bastante mais alto, conseguia esquivar-se, dava murros e pontapés. Um dos marginais consegue o seu troféu num salto traiçoeiro, depois foge e desaparece na noite com a peruca.
Quando era mais novo convenci a família de que a minha vocação era a música. Por isso consegui que se canalizassem os esforços e o dinheiro necessário para me mandarem estudar no Porto. Todos ajudaram: pais, irmãos, irmãs, tios, primos, primas, sobrinhos, sobrinhas, bons vizinhos, más vizinhas e até o homem do talho.Arranjei um quarto num apartamento de estudantes, os quais passavam as noites a beber e os dias nas ressacas e que por isso não chateavam. Eles não deviam achar tanta graça ao piano que apareceu às escondidas lá em casa. Nas aulas safava-me mais ou menos.
Tinha escolhido o piano por gosto, mas a verdade é que sentia não ter vocação nenhuma para a música. Tudo o que parecia ter era uma paixão imensa. Estava claro que se os pais soubessem desta falta de vocação era um homem morto, e talvez por causa disso apliquei-me a fundo. Chegou no entanto um momento no qual me foi pedida uma grande composição. Era tudo o que eu precisava para passar o ano, por isso fechei-me no quarto e sentei-me ao piano, prometendo a mim mesmo não sair de ali sem que algo surgisse.
Passaram-se dias sem ter qualquer sucesso. Os colegas de apartamento queixavam-se constantemente do piano a todas as horas e eu calava-os com um berro. Um dia adormeci ao piano. Acordei com o bater na porta da rua.
Era Schubert. Pediu para entrar, num português com sotaque acentuado. Indiquei-lhe o quarto. Ele observou o compartimento, as paredes bolorentas, o colchão no chão, o piano em péssimo estado, as partituras espalhadas pelo chão, o banco e a mesa. No final sorriu de aprovação. "Boas instalações", disse ele, com ar sincero. Depois instalou-se ao piano e começou a tocar.
"Escreva", disse ele, não me dando tempo para pegar no papel e na caneta. Ele ia tocando e ditando ao mesmo tempo. Eu, empenhado no que estava a fazer, não estava atento à beleza da música. Só mais tarde, quando ele saiu, comecei a tocar a peça e pude apreciá-la na minha inaptidão de tocador. No final de ter ditado tudo ficámos a conversar durante bastante tempo. Depois saiu.
Beethoven chegou no dia seguinte. Tinha um génio terrível. Logo que lhe abri a porta ele entrou e foi para o quarto. Sentou-se ao piano. Eu, que já tinha visto aquele filme antes, corri para apanhar ainda alguns bocados do que ele já tinha começado a ditar. No final sorriu e foi-se embora.
Stravinsky era simpático. Conversou antes, conversou depois. Ditava lentamente. Mozart era um louco. Um espírito de criança num corpo minúsculo de adulto. Ditava enquanto tocava uma outra composição. Eu experimentava todas as peças, com uma ânsia inexcedível de quem era o primeiro a descobrir o que ninguém nunca ouvira. Havia coisas muito boas. Algumas deixavam muito a desejar, mas todas tinham a marca dos génios dos seus criadores.
Ana apareceu do nada, vinda da minha aldeia natal para procurar trabalho no Porto. Tínhamos namorado durante algum tempo, mas depois tudo acabara por imposição dos pais, tanto meus como dela. Eu acedi em parte porque via terminados os meus planos de vir estudar para o Porto. Ela acedeu por eu ter acedido. Sem uma zanga, sem nada. Lembro-me de ter ficado confuso na época com a reacção dela.
Ana apareceu do nada, vinda da minha terra natal e não tinha para onde ir, portanto pedia para ficar durante umas noites na minha casa. Pediu-o na frente dos meus colegas de quarto, para que eu não pudesse recusar sem pôr em jogo a reputação. Ana apareceu do nada, vinda da minha terra natal e ficou.
Dormimos fraternalmente juntos a primeira noite. Na segunda apareceu Strauss. Trazia o seu violino e tocou uma das suas mais conhecidas valsas. Dancei alegremente com a Ana, e no final comecei o trabalho. Ana olhava, sentada no colchão, sem perceber, na ingenuidade dos seus dezasseis anos. Strauss era um homem dos seus quarenta anos, de olhar vivo, esperto. Não escondia o seu encantamento por Ana, e ela pensava que o seu interesse não fosse tão visível. Eu estava no meio dos dois. No final de passada a peça, Strauss levantou-se do piano e foi beijar as mãos de Ana. Ela corou. Eu levei-o até à porta e vi-o a desaparecer na noite. Ana continuava corada. Não tinha percebido quem tinha sido o visitante e eu não lhe disse a verdade. Esperei cinco anos até lhe contar, quando já estávamos casados.
Ravel apareceu no dia seguinte e ditou uma peça fúnebre, mas intensamente bonita. Quando saiu toquei-a para Ana, que chorou de emoção.
Mozart continuava na praça, já resignado pela perda da cabeleira. Da esquina surgiu outro Mozart, o Mozart-mais-baixo, que se foi juntar ao primeiro e parecia estar a perguntar pela peruca. Da mesma esquina apareceu uma mulher-Mozart, que deu uma gargalhada sonora quando viu a falta do utensílio ao Mozart-mais-alto.
Eu virei a página do andebol e continuei a ler, despreocupado e imensamente divertido.
Handel contou uma anedota quando apareceu. Ou pelo menos parecia ser uma anedota, porque o meu alemão não estava o suficientemente evoluído para a perceber. Eu ri-me primeiro, para ser simpático, depois Ana deu uma boa gargalhada. Ele pareceu furioso connosco e foi-se embora sem ditar a sua música.
Na noite seguinte apareceu alguém que eu não conhecia, mas como era descortesia não lhe dispensar o mesmo tratamento, acedi sem grandes dúvidas a escrever a sua música. O resultado final foi uma música assombrosa, uma peça fluída e leve. Com a pressa de sair, no entanto, ele não assinou a obra.
Wagner e Rossini apareceram os dois à mesma hora. Rossini deu a entender a Wagner que se tinha enganado no dia e este foi-se embora.
Os tempos de sono fraternal entre eu e a Ana tinham acabado e transformaram-se num entendimento conjugal intenso. Ela no entanto suportava cada vez menos o constante vai-vem de músicos que entravam e saíam de aquele quarto minúsculo. Por aquela altura o meu maior sonho era entrar no gabinete de um dos maiores professores do conservatório com as pautas debaixo do braço. Depois de algum tempo enchi-me de coragem e fui ao encontro de um deles. Eu não sabia o que dizer quanto à proveniência do achado, mas no final decidi contar a verdade. O professor olhou-me de alto a baixo e sem dizer uma palavra sentou-se ao piano. Tocou durante uma hora, durante a qual eu fiquei sentado num sofá antigo, observando aquele homenzinho de um metro e meio de altura. No final ele virou-se para mim.
"Isto", começou ele, "são obras raríssimas e pouco conhecidas. Muitas delas eu nunca, nunca tinha ouvido, mas sabe-se sempre quem as escreveu." Senti-me desiludido. Afinal as peças não eram originais. Eu não era o herói que julgava ser. Não passava de um simples aluno de música. "Esta, no entanto, não conheço.", continuou. O velho professor pegou na partitura que o desconhecido me tinha ditado e tocou-a. No seu todo havia uma fluidez e harmonia excepcionais. Era-me estranhamente familiar, tocando-me de uma forma que nenhuma outra música me havia tocado antes. Chamava-se "Ode à Lua". No final o professor agradeceu-me por um momento agradável e recomendou que me empenhasse mais no trabalho que tinha de entregar.
O Mozart-mais-alto, sem peruca, pediu um cigarro à mulher-Mozart. Eu paguei e saí do café. Passei pelo trio de Mozarts. A mulher-Mozart, provocante com os seus lábios vermelhos e olhos verdes, estendeu-me um panfleto a anunciar uma festa numa discoteca próxima. Eu agradeci e entrei numa das ruelas que saíam da praça. Num regresso à juventude passei pela casa onde tinha morado quando andava a estudar. Hoje morava numa cobertura, era um maestro e compositor de sucesso, como havia poucos no país. Ana tinha uma loja de confecções no centro da cidade. A casa parecia estar em ruínas. Era impossível pensar que alguém pudesse viver ali. No entanto lembrava-me que naquele tempo estava exactamente no mesmo estado, como se durante vinte anos nada tivesse mudado. Vi a luz no meu antigo quarto. Subi as escadas e bati à porta. Passado um momento um rapaz novo veio abrir a porta. Por detrás dele estava uma rapariga ainda mais jovem, muito atraente na sua fisionomia rural.
"Boa noite", disse eu.
"Boa noite", disse ele, deixando-me entrar e indicando-me o caminho para o quarto do piano.
"Boa noite", disse ela em uníssono com ele, desaparecendo na cozinha. Eu avancei para o quarto. Ele indicou-me o banco do piano. De seguida perguntou-me o nome da composição. "Ode à Lua", respondi. O jovem não me perguntou o nome, e enquanto eu tocava e ditava a partitura, ele ia copiando meticulosamente tudo.
Ela apareceu pouco depois, numa pausa do trabalho, para oferecer uma bebida. Eu agradeci e aceitei. Aquele vinho estava esquecido há muito, juntamente com o resto das minhas recordações da juventude. Depois falámos um pouco. Falámos de música. Falámos de sonhos. Falámos de Ana, sem dar a entender que a conhecia melhor que ele próprio. No final voltámos ao trabalho. Passava um segundo da meia-noite quando saí. Despedi-me deles e perdi-me na noite da cidade.
Nano-conto 1
Era um homem tão persuasivo que um dia disse a uns amigos por brincadeira: "Façam de conta que eu não estou cá", e eles nunca mais o viram....
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Rapto no presépio
O burro acordou com um tumulto
anormal dentro da caixa. Estava escuro, mas
todas as figuras dos presépios conseguiam ver bem no escuro, à força de
ficarem fechadas todo o ano para brilharem em toda a sua glória durante o
último mês do ano. A um canto da caixa, a Virgem Maria chorava, S. José tentava
reconfortá-la. Alguns pastores observavam o chão e o tecto e comentavam ter
visto uma luz e que ele tinha desaparecido. E o burro, que não era burro nenhum
e que até tinha andado na Sorbonne (no presépio da Sorbonne, entenda-se, mas
isto ele não suficientemente burro para revelar aos outros), disse: “Deve ter
sido raptado por Extra-terrestres!”
Esta afirmação aumentou ainda
mais o volume do choro da Virgem Maria. Um dos Reis Magos aproximou-se do burro
montado no seu camelo, de cima do qual nunca podia sair. “Não sejas parvo…para
que é que os extra-terrestres queriam uma figura do presépio?”
O Burro olhou para ele, pensou um
bom bocado e depois exclamou: “Eles devem ter roubado todos os meninos Jesus de
todos os presépios do mundo!”
Um dos outros Reis Magos, que
estava deitado no chão da caixa disse a coisa mais inteligente que podia ser
dito: “E para quê?”
O burro encolheu os ombros, ou
teria encolhido os ombros se o pudesse fazer. Passou por cima de uma ovelha que
contava uma anedota a outra ovelha. Sabia que era uma anedota, porque as duas
se riram, mas ninguém sabia a sua linguagem. Para o burro, eram as criaturas
mas burras do presépio.
O terceiro Rei Mago olhava para o
tecto da caixa. “Se não houver menino Jesus, este ano não sairemos da caixa…sem
ele não há presépio,”
“Mascaramos o burro de menino
Jesus”, gracejou um dos pastores. Os outros pastores riram-se, mas depois
calaram-se quando perceberam que mais ninguém tinha achado piada.
Estiveram vários dias a discutir
o desaparecimento do menino Jesus, até que o tecto se abriu e uma mão começou a
tirar cada uma das figuras da caixa, deixando o burro para o final. Quando
chegou a sua vez, a mão pegou nele com toda a delicadeza e colocou-o no
presépio, absolutamente esplendoroso como todos os anos. No meio estava, para
espanto do Burro, o menino Jesus, que tinha todo o aspecto de ter sido pintado
de novo e reparado.
domingo, 4 de dezembro de 2011
Rui dos Segredos
Era uma vez um
menino que apareceu na aldeia vindo sabe-se lá de onde. Na realidade não foi
uma vez, mas duas vezes. Da primeira vez as pessoas ficaram curiosas para saber
de onde vinha uma criança tão pequena, sozinha, naquela povoação que ficava no
meio do nada, no sopé da serra. Era tão isolada que pouca gente passava por ali
– as estradas eram difíceis e constantemente estragadas pelo rigor do inverno.
Foi por isso
estranho que aparecesse uma criança na pequena povoação que tinha o
nome de Amizade. A primeira pessoa que o viu foi a senhora do minimercado, que
tratou logo de saber que se chamava Rui e vivia com o pai “lá em cima”, o rapaz apontou para o alto, para a montanha. A D. Maria desconfiou disso. Ninguém vivia na montanha.
“Ainda bem que nos
vens visitar. Há muito tempo que ninguém nos vem visitar, sabias?”, disse a
senhora, oferecendo ao rapaz um chupa-chupa. E tratou logo de o apresentar às
outras pessoas. Em pouco tempo ele já conhecia quase toda a gente da aldeia,
desde o sapateiro ao farmacêutico. Todos concordavam que era estranho o Rui estar
ali, mas ainda concordavam mais com o facto dele ser uma criança simpática e
inteligente, como nunca tinham visto nenhuma outra. O Rui ria-se ao ouvir isto,
dando mais uma lambidela no seu chupa-chupa.
Ao passar por uma
casa, acompanhado pela Srª. Glória, que nunca tinha tido nenhuma glória na sua
vida, o Rui perguntou quem lá vivia, porque ao contrário das outras casas da
aldeia, que tinham cores alegres, ou flores, ou janelas abertas, aquela era
pintada de um cinzento escuro, as janelas estavam fechadas e aparentemente não
devia viver lá ninguém.
“É a casa do Sr.
Feliz. Ele não se dá com ninguém.”, disse a Srª. Glória, e o Rui ficou a saber
que, tal como a Srª. Glória nunca tinha conhecido a Glória em toda a sua vida,
também o Sr. Feliz era tudo menos feliz. Há muitos anos que ele não falava com
ninguém – visto de outra forma, pensou o Rui, há muito tempo que ninguém falava com o Sr. Feliz.
E o Rui fez algo
impensável para uma criança tão pequena, pensou a Srª. Glória – tocou à
campainha da porta do Sr. Feliz.
“Ele não vai atender”,
pensou ela. “Que idiotice deste menino.”, acrescentou ela ao seu pensamento
inicial.
Mas a porta abriu-se. Apareceu um homem alto, com aspecto desagradável.
Mas a porta abriu-se. Apareceu um homem alto, com aspecto desagradável.
“Que querem?”,
perguntou o homem, na sua voz desagradável. A Srª Glória estava atrapalhada,
não sabia o que dizer. O Rui no entanto estendeu-lhe a mão, como se cumprimentar homens de aspecto rude e desagradável fosse a coisa mais natural do mundo.
“Olá, eu sou o Rui.”
O homem olhou para
ele (e tinha de baixar muito a cabeça, porque era realmente muito alto) e fez
algo de impensável na cabeça da Srª Glória, sorriu para o rapaz e dizendo-lhe: “Estou
mesmo agora a preparar o chá, entrem”
O Rui aceitou de
caminho. A Srª Glória entrou, mas com receio. Tinha ouvido histórias muito más
sobre aquele homem. Lá dentro, no entanto, encontrou uma casa acolhedora,
decorada com bom gosto. O Rui sentou-se à mesa da sala e atirou-se a um prato de
bolachas. Não tinha grande fome,
confessou ele, porque tinha passado toda a tarde a comer chupa-chupas, mas as
bolachas eram realmente boas.
Gilberto Feliz era
um professor aposentado, que tinha uma filha muito, muito longe. Já não a via
há algum tempo. Ele tinha um neto, mas nunca o tinha visto. Estavam
zangados, disse Gilberto.
Tudo aquilo fazia
confusão na cabeça do Rui. Nunca lhe passaria pela cabeça zangar-se com o seu
pai, nem muito menos com a mãe. Ele disse isso em voz alta, e Gilberto riu-se.
Explicou que as coisas nem sempre se passavam como as pessoas queriam, e as
pessoas nunca viam as coisas da mesma forma. E, principalmente, as pessoas
nunca ouviam os outros, só elas próprias, explicou.
“É por isso que
nesta aldeia ninguém gosta de si?”, perguntou inocentemente o Rui. Glória não
sabia onde se havia de meter. Ficou vermelha como um tomate. Gilberto riu-se de
uma forma franca, numa gargalhada que ecoou pela sala e deve ter sido ouvida lá fora.
“Também eu não gosto
deles…”, disse ele.
No fim do chá, Rui
despediu-se de Gilberto, e este convidou-o para tomar chá sempre que o miúdo
quisesse. A Srª Glória percebeu que o convite não seria extensivo a si, mas
também não se importava. Depois o Rui subiu a montanha sozinho, rejeitando a
boleia que a Srª Glória lhe queria oferecer.
"Estou habituado", disse ele, desaparecendo na curva da estrada.
"Estou habituado", disse ele, desaparecendo na curva da estrada.
Passado
algumas semanas, mais propriamente poucos dias antes do Natal, o Rui apareceu novamente
na aldeia, desta vez acompanhado por uma mulher e um rapaz da mesma idade do
Rui. Logo as pessoas que estavam na rua e que já o conheciam trataram de o
cumprimentar. À pergunta que todos queriam fazer, sobre a identidade da mulher
e do outro menino, ele nada respondeu.
“É segredo”, disse
ele.
Toda a gente já o conhecia pela alcunha do “Rui dos Segredos”. Ele não se importava. A mulher limitava-se a sorrir para as pessoas que abordavam o Rui enquanto se dirigia à casa do Sr. Feliz. Notava-se o seu nervosismo. A outra criança estava deliciada.
Toda a gente já o conhecia pela alcunha do “Rui dos Segredos”. Ele não se importava. A mulher limitava-se a sorrir para as pessoas que abordavam o Rui enquanto se dirigia à casa do Sr. Feliz. Notava-se o seu nervosismo. A outra criança estava deliciada.
Chegando à porta,
tocou à campainha. Ouviram-se os passos pesados de Gilberto, a madeira do
soalho a ranger. A porta abriu-se. Gilberto viu primeiro o Rui. Depois o seu
olhar ficou fixo no olhar da mulher.
“Miguel”, disse ela
com a voz embargada pela emoção, “Vai dar um beijinho ao teu avô.”.
Gilberto baixou-se,
abriu muito os braços e abraçou a criança que correu para ele. Depois olhou em
redor para agradecer ao Rui, mas não o viu.
O Rui dos Segredos
nunca mais seria visto naquela aldeia, mas toda a gente aprendera a lição, o
Sr. Feliz voltou a ser feliz, e a aldeia voltou a merecer o nome…
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